Sexta-Feira, 29 de Maio de 2020, 08h:26

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Licínio Monteiro da Silva

Por: NEILA BARRETO

Divulgação

Neila Barreto

Licínio Monteiro da Silva teve projeção definida e definitiva na história política mato-grossense em função da sua personalidade marcante e atuante por mais de quatro décadas nos diversos cargos públicos a que ascendeu, com especialidade os eletivos, quando pôde demonstrar o carisma em memoráveis urnas eleitorais.

Nasceu na fazenda Mutum, município de Nossa Senhora do Livramento, no dia 17 de março de 1903 e faleceu em 1° de outubro de 1992, aos 80 anos de idade na cidade de Cuiabá. Filho de Crescêncio Monteiro da Silva e Margarida dos Santos Botelho que, desde muito jovem atuou nas lides agrícolas, pois seu pai veio a falecer, restando à sua mãe e aos filhos zelar pelo sustento da família.

Em 1912 transferiu-se para Cuiabá, e de 1912 a 1917 frequentou os colégios Feliciano Galdino, Plácido Curvo, Salesiano São Gonçalo e Liceu Cuiabano, onde concluiu o curso ginasial. Respondendo aos impulsos da responsabilidade, passou a dedicar-se com exclusividade às atividades agropecuárias da família, tornando-se responsável pelos alambiques da fazenda, assim como pela produção de leite e derivados. Com o engenho conseguiu manter a família até a década de 1920, quando da criação do Instituto do Açúcar e Álcool, gerador do aumento do imposto, redundando na imperiosa necessidade de novos investimentos no negócio, o que determinou a paralização daquela produção.

Quando tinha 21 anos de idade, Licínio conheceu, em uma festa, a jovem Izabel de Almeida Silva, que então contava com 17 anos de idade. Com ela viria a se casar em 26 de abril de 1926. Izabel de Almeida Silva, também conhecida como dona Bebé, nasceu em 25 de abril de 1907, em Livramento, filha do comerciante Antônio Arruda Campos e Umbelina de Almeida Campos. Dessa união nasceram os filhos: Sebastião ou Batico; Sebastiana ou Tetéte e Licínio Monteiro Filho, além dos inúmeros filhos adotivos e afilhados que hospedavam em sua casa para estudar ou trabalhar.

Já casado com dona Isabel (1926), Licínio deixou a fazenda, estabelecendo definitivamente em Várzea Grande, onde começou a se interessar pela política, participando ativamente, em 1934, da campanha do Dr. Mário Corrêa da Costa ao governo do estado de Mato Grosso, integrando-se depois ao quadro do PSD - Partido Social Democrático. Em 1937 foi eleito membro do Conselho Fiscal da Santa Casa de Misericórdia, Sociedade de Proteção à Maternidade e a Infância de Cuiabá, Várzea Grande e Livramento, bem como, no coração da gente humilde da terra. Em 1939 foi nomeado suplente de vogal da Junta de Conciliação e Julgamento de Cuiabá, e no período de 1942 a 1970 ocupou a Tesouraria e a Vice-presidência da Legião Brasileira de Assistência (LBA), sendo, também, escolhido representante, em Mato Grosso, na Federação Nacional da Indústria.

Em 1946 foi lançado a Deputado Estadual, pelo PSD, em substituição a seu cunhado Aristides Pompeo de Campos. Essa candidatura obteve o apoio de D. Bebé, elegendo-se a 19 de janeiro de 1947, com posse em 20 de março. Nessa legislatura, deu-se a elaboração da Constituição Estadual, promulgada no mesmo ano. Licínio é autor, nessa legislatura, de importantes projetos dentro da Assembleia Legislativa, como o que dispõe sobre a criação do município de Várzea Grande e aquele que deu nova denominação ao município de São José dos Cocais, sua cidade natal, consolidando o nome de Nossa Senhora do Livramento.

Em abril de 1951 tomou posse em seu segundo mandato de deputado estadual, continuando seu propósito na Assembleia Legislativa de defender os interesses da população mais carente do Estado, especialmente aquelas residentes em Várzea Grande e Nossa Senhora do Livramento. A 20 de setembro conseguiu a liberação de um empréstimo junto à prefeitura de Várzea Grande para instalação do início dos serviços de água, e, depois consolidado por Sarita Baracat de Arruda, entre outros. Elegeu-se prefeito de Várzea Grande em 1953, renunciando ao mandato de Deputado. Sentia-se orgulhoso pela sua conquista nos investimentos para a construção do Aeroporto Marechal Rondon. Durante este mesmo mandato incursionou o seu filho Sebastião Monteiro na vida pública, elegendo-o Deputado Estadual. Em 1957 entregou a administração do executivo municipal de Várzea Grande para o seu sucessor, Júlio Domingos de Campos, retomando as atividades privadas.

Licínio voltou à vida pública na Assembleia Legislativa, em 3 de outubro de 1958, exercendo novo mandato na qualidade de Deputado Estadual, sendo reeleito no pleito seguinte, sendo presidente da Casa, no ano de 1963. Por ato governamental de 26 de dezembro de 1963 foi nomeado para exercer vitaliciamente o cargo de Ministro do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, assumindo em 8 de janeiro de 1964. Ocupou o cargo de Presidente do Tribunal entre os anos de 1968 a 1972 e vice-presidente nos anos de 1968 e 1971, aposentando-se em 17 de março de 1973.

Lendo os seus discursos pude pinçar alguns pensamentos sobre a sua vida e a sua terra e navegar junto com ele em suas palavras e pensamentos, traduzindo assim esta escrita a quatro mãos: “Tenho o prazer de receber as homenagens e, ao mesmo tempo relembrar a todos que sou originário do “Homem do Campo” e, sempre gostei de ser reconhecido assim. Ao longo da minha vida procurei ser fiel a mim mesmo e, aos amigos. Hoje, vocês dão boas risadas com as minhas histórias e “causos” porque sempre encarei a vida pelo lado bom que ela me ofereceu. Por isso, a tristeza, o pessimismo, o desânimo, o rancor e o ódio jamais adentraram o meu   coração e hoje, eu encontro-me em paz, cercado das mais belas flores, de um coral de anjos e do mais calmo rio da paz de águas puras e salutar. Nas duras lides do campo, adquiri o espírito forte e rijo para não deixar abater-me diante dos insucessos e das derrotas naturais que fazem parte da vida do homem público e pelos quais muitos terão que passar. Assim cheguei ao Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso como Conselheiro e, mais tarde tive a honra de presidir, saindo por conta dos meus 70 anos de idade. Deixei a vida pública e retornei ao meu lar, partindo depois para uma viagem infinita e pessoal devidamente programada por Deus. Dos mais de 30 anos de serviços públicos vividos em Mato Grosso e por Mato Grosso, servi 13 anos como Deputado Estadual, 10 anos como Conselheiro do Tribunal de Contas, 04 anos como Prefeito Municipal de Várzea Grande e 04 anos como Membro da Junta de Conciliação de Cuiabá. Deixei a vida, mas levei grandes saudades dos familiares, dos afilhados e dos amigos que ficaram e, que sempre procurei conquistar e conservar, pois amizade não se compra, conquista-se. Dessa terra guardarei as mais ternas lembranças e saudades, desde os meus prezados confrades até o mais humilde servidor. Confesso que, se por acaso, involuntariamente causei mal a alguém que me perdoe humildemente. Pelos pecados que cometi, pelos erros que pratiquei, pelas falhas em que incorri, pelos deslizes e senões deixados, eu lhes imploro o esquecimento, peço compreensão e suplico desculpas. Estou em um novo lar, uma nova e última morada, em volta com os meus afazeres domésticos, labutando a terra, como vocês já sabem, agora azul, estrelada e com um imenso pantanal claro e caudaloso. Ao cair da tarde, ouço os gemidos da Jaó e o cantarolar das perdizes ariscas, ao sopro da brisa que vem do pantanal. Assim ao despedir-me, quero volver a mente para cada um dos familiares, para cada um dos afilhados, para cada um dos amigos, que por aí deixei e, implorar a Deus, que os protejam e lhes recompensem pelo bem que me fizeram no decorrer dos anos de convivência.  Até breve”.

 

(*) NEILA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora e Mestre em História e escreve às sextas-feiras para HiperNotíciasE-mail: neila.barreto@hotmail.com

 

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