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Artigos Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026, 09:04 - A | A

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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026, 09h:04 - A | A

OLIVEIROS MARQUES

Precisamos falar sobre o Irã

OLIVEIROS MARQUES

Falar sobre o Irã hoje não é um exercício acadêmico distante; é uma exigência política e moral. Qualificar o regime iraniano é condição básica para compreender a profundidade da insatisfação popular que se manifesta nas ruas, apesar da repressão, e para condenar com clareza as violações sistemáticas de direitos humanos que se intensificam diante de qualquer contestação interna.

A República Islâmica nasceu de um movimento popular em 1979, é verdade, mas consolidou-se como um regime teocrático rígido, onde o voto existe sob tutela religiosa, a dissidência é criminalizada e a vida privada é objeto de vigilância estatal. Mulheres, jovens, minorias étnicas e opositores políticos pagam o preço mais alto de um sistema que confunde fé com coerção e soberania com silenciamento. Não se trata de relativizar culturas, mas de reconhecer que há um Estado que responde à crítica com violência, prisões arbitrárias e mortes.

Ao mesmo tempo, é intelectualmente desonesto analisar a crise iraniana como se ela fosse inteiramente endógena. Não é possível descartar a influência norte-americana - direta ou indireta - no ambiente que cerca os protestos atuais. Os Estados Unidos perderam no Irã, em 1979, um de seus principais aliados no Oriente Médio, peça-chave para seus interesses energéticos, militares e de contenção regional. Essa derrota moldou décadas de hostilidade e estratégias de pressão contínua.

Nesse contexto, chama atenção o fato de que Reza Pahlavi, filho do xá deposto pela Revolução Islâmica de 79 e então um grande aliado norte-americano, reapareça como uma das principais figuras da oposição no exílio, com trânsito em capitais ocidentais e visibilidade midiática. Isso não significa que os protestos sejam “fabricados” unicamente do exterior - eles nascem, majoritariamente, de dores reais e internas. Mas também não permite ignorar a possibilidade de estímulos externos a antigos aliados do período pré-1979, como parte de uma lógica de revanche histórica e reposicionamento estratégico.

O Irã segue sendo central para os interesses norte-americanos na região: controla o Estreito de Ormuz – por onde passa 20% da produção mundial de petróleo -, influencia conflitos no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen, e ocupa lugar-chave no tabuleiro energético global. Seria ingenuidade imaginar que os EUA tratariam um país com esse peso apenas como espectador. A disputa geopolítica existe e atravessa a crise interna iraniana, ainda que não a explique por completo.

Diante disso, o mundo precisa assumir uma posição clara e coerente: condenar com firmeza a violência praticada pelo regime iraniano contra sua própria população, sem cinismo seletivo. A defesa dos direitos humanos não pode ser instrumentalizada nem silenciada conforme conveniências estratégicas. O mesmo rigor exigido em relação ao Irã deve valer para violações cometidas em outros países do mundo - inclusive, e de forma dramática, em diversas nações do continente africano, frequentemente esquecidas pelo debate global.

Precisamos falar sobre o Irã porque o silêncio favorece a repressão, a simplificação favorece a propaganda e a hipocrisia enfraquece a própria ideia de direitos humanos universais. Falar é o primeiro passo para não sermos cúmplices - nem da violência interna, nem dos jogos externos que se aproveitam dela.

(*) OLIVEIROS MARQUES é sociólogo, publicitário e comunicador político.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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