Em diferentes épocas e geografias, a história revela um fenômeno inquietante: pessoas que defendem vingança, pena de morte indiscriminada, perseguição a povos, humilhação de adversários, discursos homofóbicos, racistas ou mesmo nostalgias escravagistas não apenas encontram espaço público, encontram seguidores, devotos e apoiadores. Mais do que isso, frequentemente alcançam o poder.
Não se trata de um fenômeno isolado nem restrito a uma cultura específica. Ele se manifesta sob diversas formas: na retórica inflamada de líderes populistas, nos regimes teocráticos ou autoritários, nas democracias tensionadas pela polarização. Dos embates ideológicos nos Estados Unidos às estruturas de poder no Irã, da crise institucional na Venezuela ao regime fechado da Coreia do Norte, passando pela retórica disruptiva de Javier Milei na Argentina, observa-se uma constante: discursos duros, simplificadores e muitas vezes excludentes mobilizam paixões profundas.
A psicologia social oferece uma primeira pista. Em momentos de crise econômica, insegurança social ou instabilidade institucional, as pessoas tendem a buscar respostas simples para problemas complexos. O medo e a frustração produzem ansiedade; a ansiedade procura alívio. Líderes que prometem “resolver tudo” identificando culpados claros quase sempre com ataques a minorias, estrangeiros, opositores políticos oferecem uma narrativa emocionalmente satisfatória. A raiva, diferentemente da dúvida, dá sensação de força. E a promessa de vingança soa, para muitos, como restauração de dignidade.
Há também o poderoso mecanismo da identidade de grupo. Quando um líder constrói a narrativa do “nós contra eles”, cria coesão interna. Ao definir inimigos reais ou imaginários reforça laços de pertencimento. O indivíduo deixa de se sentir isolado; passa a integrar uma comunidade que se vê ameaçada e, portanto, legitimada a reagir. A lógica é antiga: onde há medo coletivo, floresce o salvador.
A sociologia ajuda a compreender outra dimensão: o ressentimento social. Sociedades marcadas por desigualdades persistentes, mudanças culturais aceleradas ou perda de referências tradicionais produzem sentimentos de deslocamento. Parte da população sente que perdeu espaço, voz ou prestígio. Líderes que prometem restaurar uma “ordem perdida” ou um passado idealizado encontram terreno fértil. A política deixa de ser debate de políticas públicas e transforma-se em cruzada moral.
A filosofia política já alertava para esse risco. Quando as paixões dominam a esfera pública e a razão é relegada a segundo plano, abre-se espaço para o que a pensadora Hannah Arendt descreveu como terreno propício ao autoritarismo: a substituição do diálogo pela propaganda e do pluralismo pela unanimidade forçada. A política passa a operar não pela persuasão racional, mas pela mobilização emocional.
Na ciência política, o fenômeno é identificado como populismo autoritário ou construção de culto à personalidade. O líder não é apenas governante; torna-se símbolo. Suas palavras deixam de ser analisadas criticamente e passam a ser defendidas como expressão da própria identidade do grupo. Críticas são percebidas como ataques pessoais aos seguidores. A lealdade supera a avaliação objetiva de resultados.
Importa ressaltar: compreender esse mecanismo não significa normalizá-lo. Pelo contrário. Explicá-lo é passo necessário para enfrentá-lo. Democracias não se fragilizam apenas por golpes abruptos; muitas vezes se corroem lentamente, quando a intolerância passa a ser vista como virtude e a agressividade como autenticidade.
O perigo maior não está apenas no líder que prega exclusão ou vingança, mas na naturalização social desse discurso. Quando o achincalhamento vira entretenimento político, quando a desumanização do outro se torna estratégia eleitoral, o tecido social se rompe.
A política deixa de ser espaço de construção coletiva e transforma-se em arena de aniquilação simbólica.
Nenhuma sociedade está imune. A atração por discursos radicais não é privilégio de um povo ou ideologia específica; é possibilidade latente da condição humana diante do medo, da frustração e da insegurança. A história mostra que sempre haverá quem explore essas emoções. A questão central é se as instituições e a cidadania crítica serão fortes o suficiente para conter a escalada.
A resposta não está em silenciar divergências legítimas nem em negar conflitos reais. Está em reafirmar princípios básicos: dignidade humana, pluralismo, responsabilidade institucional e compromisso com a verdade factual. A política pode e deve ser firme. Mas firmeza não é sinônimo de ódio; autoridade não é licença para desumanizar.
Em tempos de polarização global, talvez o maior desafio não seja derrotar adversários, mas preservar a própria ideia de convivência democrática. O poder que nasce do ódio pode conquistar aplausos rápidos. A história, porém, ensina que raramente constrói sociedades justas ou duradouras.
O futuro das democracias dependerá menos da intensidade dos discursos inflamados e mais da capacidade coletiva de resistir à sedução das respostas fáceis e perigosas.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.



