A leitura dos perfis políticos com maior engajamento nas redes sociais no Brasil hoje revela muito menos sobre desempenho institucional e muito mais sobre domínio de dinâmica de plataforma, ativação emocional e uso sistemático do conflito como estratégia de crescimento.
O caso mais emblemático desse fenômeno é o de Nikolas Ferreira. Deputado federal pelo PL de Minas Gerais, com engajamento médio na casa de milhões por publicação e uma base gigantesca de seguidores, seu perfil expõe pouco da rotina legislativa, de projetos apresentados ou de entregas objetivas no Congresso Nacional. Os maiores picos de alcance nacional de sua trajetória digital estão associados a episódios de forte carga simbólica e de confronto, como a performance em que utilizou uma peruca para atacar publicamente a deputada Erika Hilton e a publicação de um vídeo com desinformação envolvendo o Pix. Em ambos os casos, a engrenagem de alcance não se sustentou apenas em sua base de apoiadores, mas sobretudo na reação massiva de perfis críticos, que ao responderem, comentarem e replicarem o conteúdo, ampliaram exponencialmente sua circulação.
A narrativa construída por Nikolas se ancora em três eixos centrais: identidade religiosa, posicionamento político à direita e imagem de pai de família. O conteúdo cotidiano é estruturado quase exclusivamente em críticas à esquerda e na produção de situações capazes de gerar choque moral. A provocação não aparece como efeito colateral da comunicação, mas como método deliberado para acionar aquilo que, no marketing digital, se convencionou chamar de rage bait.
Esse mesmo padrão se repete no perfil de André Fernandes, deputado federal pelo PL do Ceará, eleito com votação expressiva em 2022. Sua comunicação também é baseada no ataque direto a adversários ideológicos, no deboche político e na construção pública de
uma identidade familiar tradicional. Embora apresente alguma centralidade na pauta da segurança pública, o conteúdo publicado raramente avança para propostas estruturadas, diagnósticos técnicos, dados ou políticas de médio e longo prazo. O discurso se concentra na defesa do confronto policial e na retórica punitiva, enquanto propostas concretas praticamente não aparecem. Assim como ocorre com Nikolas, uma parte relevante do alcance diário de André Fernandes também é impulsionada pela mobilização de perfis de esquerda que reagem, criticam e mantêm seu nome em circulação.
Para compreender a origem desse modelo de comunicação, é inevitável reconhecer o papel de Jair Bolsonaro na consolidação dessa lógica no país. Durante grande parte de sua carreira parlamentar, Bolsonaro foi um deputado com baixa relevância institucional e quase
nenhuma projeção legislativa. Seu crescimento começa quando passa a ocupar espaços midiáticos associados a falas controversas, especialmente em quadros de bastidores do programa CQC. Com a consolidação das redes sociais, em especial do Facebook, sua visibilidade passa a ser impulsionada pela indignação pública diante de declarações ofensivas, agressivas ou extremadas. A lógica de amplificação baseada na reprovação se mostrou extremamente eficiente. Esse crescimento digital encontrou um ambiente político favorável marcado pelo desgaste profundo do Partido dos Trabalhadores, o que ajudou a pavimentar o caminho que o levou à Presidência da República. A fórmula construída nesse período se tornaria referência para toda uma nova geração de políticos digitais.
Entre os nomes que reproduzem essa arquitetura comunicacional está Lucas Pavanato, vereador na cidade de São Paulo e quarto político mais engajado nas redes no país. Jovem, conservador e com forte identidade cristã, sua atuação digital é centrada no confronto direto com adversários ideológicos. O perfil é composto majoritariamente por recortes de embates, ironias e respostas a pautas associadas à esquerda. São raros os conteúdos que apresentam projetos, ações legislativas, articulações políticas ou iniciativas voltadas para problemas concretos da vida cotidiana da população paulistana.
Na sequência aparece Rodrigo Manga, que se consolidou nacionalmente como o chamado prefeito do TikTok. Sua comunicação é fortemente performática, com alto nível de produção visual, uso recorrente de trends e comentários sobre temas da atualidade a partir de um enquadramento conservador e simplificado. O foco está na retenção, na viralização e na construção de carisma digital, enquanto propostas estruturadas de gestão pública, planejamento urbano ou políticas setoriais aparecem de forma residual.
No campo simbólico oposto desse embate permanente está Erika Hilton, que desde a primeira publicação fixada no perfil afirma sua identidade política e social como elemento central da narrativa. A deputada chega ao Congresso Nacional já com capital de celebridade e forte profissionalização estética, com imagens cuidadosamente produzidas e linguagem visual sofisticada. Diferentemente de muitos colegas, seu perfil apresenta com mais frequência pautas legislativas e registros de atuação parlamentar, especialmente no debate sobre a escala de trabalho 6x1. Ainda assim, sua trajetória digital também se alimenta de forma significativa da dinâmica de antagonismo, tendo se tornado uma das principais figuras simbólicas de oposição a Nikolas Ferreira nas redes, o que acaba retroalimentando o engajamento de ambos.
Outro caso relevante é o de Eduardo Bolsonaro. Sua projeção digital está diretamente vinculada à herança política. O conteúdo publicado se concentra em ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, além de temas ligados ao conservadorismo, à política internacional e à defesa de alinhamentos ideológicos com figuras como Donald Trump. Assim como nos demais perfis analisados, a atuação parlamentar concreta, seus projetos e resultados legislativos ocupam espaço muito reduzido na comunicação.
O próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, aparece nesse ranking como uma exceção parcial. Seu perfil mantém um padrão mais institucional, centrado em agendas oficiais, encontros diplomáticos, eventos públicos e comunicação de governo. A
performance, o ataque direto e a produção de cortes provocativos não são os principais motores da sua estratégia digital.
Na parte final do ranking aparece Cleitinho Azevedo, que ganhou enorme visibilidade nacional durante a CPI das apostas ao protagonizar episódios performáticos, como o registro de fotos com a influenciadora Virgínia Fonseca. Seu perfil é marcado pela exploração constante de hypes, trends e notícias do dia, sempre enquadradas sob uma ótica favorável ao discurso da direita. Embora apresente ocasionalmente registros de sua atuação parlamentar, o crescimento do perfil está muito mais associado ao comentário rápido, à polêmica e à reação emocional.
Fecha o grupo dos dez mais engajados o Sargento Fahur, cuja comunicação é fortemente ancorada no bolsonarismo, no tripé simbólico Deus, pátria e família e nas pautas de segurança pública. O conteúdo mobiliza imagens de força, confronto e indignação, mas
oferece poucas informações sobre projetos de lei, articulações institucionais ou resultados concretos de sua atuação no Parlamento.
O que une praticamente todos esses perfis é a consolidação de uma estratégia de crescimento baseada na exploração contínua do conflito político e cultural como principal motor de visibilidade. Quanto mais polarizante é a mensagem, maior tende a ser o volume de comentários, respostas, reações e conteúdos derivados. Quanto maior o volume de interação, maior a entrega algorítmica. E quanto maior a entrega, mais central aquele personagem se torna no debate público.
Do ponto de vista do marketing político, o dado mais relevante é que uma parte expressiva desse crescimento não é produzida apenas por apoiadores, mas por adversários. A resposta indignada, o vídeo de reação, o fio explicativo e a tentativa de correção pública
deixaram de ser apenas instrumentos de disputa narrativa e passaram a integrar, na prática, a própria engrenagem de distribuição.
Bolsonaro foi o primeiro a compreender, ainda que de forma intuitiva, esse funcionamento.
Nikolas Ferreira, André Fernandes e seus pares apenas sofisticaram a fórmula. O resultado é um ambiente no qual a visibilidade política passa a depender menos da capacidade de formular políticas públicas, apresentar diagnósticos ou entregar resultados e mais da habilidade de provocar, irritar e dividir. Nesse modelo, a política deixa de ser apresentada como instrumento de transformação concreta da vida das pessoas e passa a operar, cada vez mais, como espetáculo permanente de confronto.
(*) ROBERTA HERINGER é estrategista digital para perfis políticos e criadora do Estratégia Política Digital
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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