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Artigos Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026, 10:32 - A | A

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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026, 10h:32 - A | A

JOÃO EDISOM

Donald Trump: O miliciano do mundo

“A milícia brasileira domina territórios; a milícia global domina países. Ambas se sustentam no medo, na extorsão e na negação do direito.”

JOÃO EDISOM DE SOUZA

A política internacional vive um de seus momentos mais delicados desde o fim da Guerra Fria. Nos corredores do poder global, a figura de Donald Trump volta a se impor não apenas como chefe de Estado dos Estados Unidos, mas como um agente que tensiona e por vezes rompe os limites históricos da diplomacia e do direito internacional. O uso explícito da ameaça, da coerção econômica e da força militar direta, como no caso da Venezuela, revela uma lógica de atuação que se aproxima mais de uma milícia global do que de uma liderança comprometida com a ordem internacional.

A América Latina sempre foi laboratório da política da ameaça. O que antes se fazia por golpes e ditaduras, hoje se ensaia por sanções, intervenções e ultimatos a velha lógica miliciana em escala global.

A recente escalada contra a Venezuela, marcada por uma intervenção militar que resultou na captura de Nicolás Maduro, somada à retórica agressiva dirigida a países como Colômbia, México e, potencialmente, o Irã, evidencia uma prática de política externa baseada na intimidação e na vantagem estratégica. Trata-se de um movimento que desafia frontalmente princípios consagrados da soberania estatal e da convivência pacífica entre nações.

Do ponto de vista da ciência política, o sistema internacional moderno consolidado a partir do Tratado de Westfália, em 1648 reconhece aos Estados soberanos o monopólio legítimo do uso da força em seus territórios. Intervenções externas, sobretudo sem respaldo multilateral, sempre foram tratadas como exceções extremas. Ao justificar ações militares sob o argumento do combate ao narcotráfico ou da restauração democrática, Washington ultrapassa esses limites e normaliza práticas que fragilizam a própria ideia de legalidade internacional.

A afirmação reiterada de Trump de que os Estados Unidos “não precisam do direito internacional” para defender seus interesses representa uma ruptura grave com a Carta das Nações Unidas e com décadas de construção institucional. Embora essa postura dialogue com a tradição realista das relações internacionais que privilegia o poder sobre as normas, ela também confirma análises críticas, como as de Immanuel Wallerstein, que veem na atuação das potências centrais uma tendência estrutural à imposição de sua vontade sobre Estados periféricos.

Essa lógica torna-se ainda mais explícita quando se observa a centralidade dos interesses econômicos. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, e o controle desses recursos aparece como elemento central da nova ofensiva norte-americana. Declarações de membros da administração estadunidense sobre o “gerenciamento” das vendas de petróleo venezuelano e a imposição de “condições americanas” para o fluxo de receitas revelam uma associação direta entre poder militar e exploração econômica.

Tal dinâmica remete às clássicas teorias do imperialismo formuladas por pensadores como Rosa Luxemburgo e Vladimir Lenin, segundo as quais a expansão capitalista se sustenta na apropriação de territórios, recursos e mercados, frequentemente legitimada por discursos de ordem, segurança ou estabilidade regional. A filosofia política há muito alerta para os riscos dessa instrumentalização moral da força.

Nesse sentido, a retórica de Trump, que apresenta sua própria “moralidade pessoal” como limite para a ação internacional dos Estados Unidos, suscita um debate ético profundo. Pode a convicção subjetiva de um líder substituir princípios universais de direito, dignidade humana e autodeterminação dos povos? Para Immanuel Kant, a resposta seria inequívoca: nenhuma ação política é moralmente legítima se transforma pessoas ou nações em meros meios para fins estratégicos.

Ao deslocar o fundamento ético da política do campo das normas coletivas para o da vontade individual, Trump revive um perigo identificado por Hannah Arendt: a substituição de princípios universais por decisões arbitrárias, típicas de projetos autoritários travestidos de pragmatismo.

Sob a ótica da sociologia, os efeitos dessa postura são igualmente preocupantes. Ameaças explícitas e intervenções diretas reorganizam alianças, aprofundam desconfianças e estimulam reações defensivas em regiões historicamente vulneráveis à ingerência externa. A crítica aberta de potências como China e Rússia, assim como o desconforto de países latino-americanos e do Oriente Médio, expõem a fragilidade de uma ordem internacional ainda formalmente hegemônica, mas cada vez mais contestada.

O episódio envolvendo Trump e a Venezuela, somado às ameaças ampliadas a outros países, não é um fato isolado. Ele simboliza uma inflexão perigosa na política externa contemporânea, na qual a força substitui o diálogo e a vantagem econômica se impõe sobre o direito. Não se trata apenas do temperamento de um líder, mas de uma concepção de poder que recoloca o mundo à beira de uma lógica pré-jurídica, onde vence quem ameaça mais.

Diante desse cenário, impõe-se uma pergunta central: até que ponto a comunidade internacional tolerará que um único Estado reconfigure, segundo seus interesses, o tecido normativo e ético das relações internacionais? A resposta a essa questão definirá não apenas o futuro da soberania, mas a própria possibilidade de uma convivência global minimamente justa e estável.

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

 

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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