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Artigos Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026, 08:55 - A | A

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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026, 08h:55 - A | A

ELISMAR BEZERRA

Quase sempre, quase tudo foi mentira

ELISMAR BEZERRA

A mentira é recurso necessário, poderoso, imprescindível aos que têm o poder e o exercem sobre os usurpados do poder; é instrumento manhoso, iridescente, furta-cor, que acumula a luz solar para viver e se mostrar somente nas sombras, e de modo a não se deixar ver claramente, pelo que é. Nas Escrituras, na forma de serpente, Satanás é apontado como o que, mentindo, enganou Eva, e a fez comer e levar Adão a comer, o fruto proibido: Eva, a imprudente; Adão, o inocente, que se deixou levar. Diz-se que, assim, deu-se a primeira mentira: para desgosto do Senhor e regozijo do Sete-Caras. Dali, por aquela desobediência das criaturas ao seu Criador, impôs-se o castigo duplo: foram expulsos do Paraíso e tiveram que trabalhar para o próprio sustento...

Mas, e se, mentira mesmo, for a própria alegoria do primeiro pecado, que, numa perversidade, quis culpar ela e desculpar ele – e, mais ainda: castigar os Trabalhadores por todos os séculos? A mentira é fácil, cria-se pelo que se quer ocultar ou enganar; a verdade, não: carece de esforço inteligente para ser enxergada e mostrada. Daí foi, que, Antônio Macambira, homem de quase cem anos de viver sertanejo, exímio no examinar e aprender e fazer-ensinando a produção das coisas materiais e espirituais, necessárias ao próprio viver e dos seus (muito disso, quase tudo, notoriamente a arte de aprender, foi aprendido com Adozinda, sua mãe, que viveu cento e vinte e três anos, e que todo mundo já a conheceu velha, como se sempre velha tivesse sido), sim, ele, Macambira, desafiando um “pregador do Arrependimento” que, por diversas vezes quis batiza-lo em água e dízimo, perguntou: “Pois bem, diz o sinhô que tá nas escrituras, não duvido das suas leituras; também escuto dizer isso desde eu menino pequeno, ler não pude, mas, escutar, escutei, diga: ali, nas Escrituras, tem a caligrafia de Deus-Pai, tem?”

No Ribeirão das Viúvas e além, dizeres e creres antigos, fervorosamente repetidos por todas as bocas no correr dos séculos, viraram verdades que, recobertas pelo tempo, nunca precisaram de prova viva ou morta; só Macambira, quase numa arrogância, olhava tudo desconfiado: nem tudo repetia, nem em tudo cria. O pregador, olhando incrédulo para o velho, esconjurava-o em silêncio, pensando em como era possível alguém ter dúvidas sobre as verdades das Escrituras, ainda mais um sujeito com aquela idade; e perguntou-lhe, com jeito de reprovação: “Como o senhor pode duvidar, Seu Antônio?!”. “Pois é, o sinhô me olha, e o que vê? Um veio, né? Sim, sou um veio; mas, o que o sinhô vê de mim, é só essas mãos, já fracas; minha cor, que é de sol e nascença; meu falar, que é um jeito de dizer, que vem de muito tempo e foi ajeitado assim, pelo jeito de ser do nosso lugar. Mais nada, o sinhô vê, nem sabe de mim; porque, pra saber das coisas e dos viventes, é preciso oiar muito, até enxergar o tempo passado, coado pelas dúvidas, antes de virar conhecença na mente e nas mãos da gente!”

Homem sensato, respeitoso, quarta geração de uma família de crentes, o pregador tinha ido para o Ribeirão das Viúvas há quase dez anos, em missão da sua igreja; gostou do lugarzinho, e foi ficando, e enraizando-se ali com a mulher e um menino. Comedido, ninguém nunca o viu alterar a voz com outra pessoa, senão, nas suas pregações noturnas e nas manhãs de domingo, na igrejinha de poucos fiéis. Ao se despedir do velho Macambira, dando por encerrada a conversa, ainda o ouviu dizer: “Das Escrituras, duvido: é coisa de gente; mas, de Deus, não: nunca duvidei!”. E cada um seguiu com seus consigos, nos seus jeitos próprios de seguir.

“O mundo é uma belezura sem fim: é o que se vê, reparando tudo devagar e amorosamente. Cada coisa e gente, tem sempre alguma belezinha escondida nalguma parte de si; e, assim, nas águas, nos céus, na terra, há sempre com o que se admirar e ficar a olhar, vendo a delicadeza de cada coisa no seu lugar, sendo o que é e para alguma serventia, de bichos e gente e da própria Natureza. Olhai a Natureza: ela se basta, é Natureza por si mesma, sem precisão de gente para ser. E nessa absolutidade da Natureza, tem tantos deslumbramentos e mistérios, tão necessários e com tantas lindezas, que carece de um examinar profundo, paciencioso, para serem enxergadas à compreensão humana”. O velho Macambira sentia esses pensamentos, pensados pelo menino Sineiro, como pranas a lhe invadirem o corpo, aliviando a velha mente inquieta, a unificar e lhe plenificar o corpo e o espírito no mesmo estado de serenidade; o velho se encantava com as profundezas ternas daquele pensar, a imaginar donde vinha aquilo tudo, porque, ainda era menino, o Sineiro...

Conversavam, o velho e o menino, com dizeres só do pensamento, por um pensar leve, num silêncio de olhar alongado e benquerente, sem palavras faladas – porque eram sem serventia para Sineiro: “Consigo penso e assevero, menino, que tudo começa no simples, visto e sentido, e ao simples volta a ser, depois de conhecido e experimentado factualmente: o viver da gente é um aprender e ensinar e aprender renovadamente – sabe?”. Sineiro se ria, riso silencioso, feito das canduras das gentes boas, ria sem mostrar os dentes; pra não incomodar gente amuada, mostrava só os olhos de encantamento. Num pensamento de volta ao velho, Sineiro pensou: “É... e tudo é preciso ser feito com a serenidade das madrugadinhas, quando as maldades nem acordaram ainda, né? E de jeito a não se esquecer o não-saber próprio de indagora, pra não se arrogantear e viver de mangar dos que ainda não sabem, né?”. O velho Macambira, ajeitou-se na rede atada sob o pé de mama-cadela: “Vi de ouvido, feito gente sonhando, que a gente tem sempre um pouco de coitadice, de melindre mal escondido, para não deixar verem o não-saber, o não-poder, o ser miudeza que a gente é, diante das grandezas do mundo; e as maiores coisas, menino, de importância para as gentes e pro mundo, são as que tão escondidas nas coisas que se vê...” Sineiro levantou-se da pedra onde estava sentado, pra olhar além, atencioso: era uma vaca que passava, com bezerrinho ao pé, indo beber água fresca; riu despreocupado...Quando os humanos inventaram casa e roupa e comida assada e cozida, e embelezaram suas caras com flores e tintas e se perfumaram com os cheiros das ervas, olharam com desdém para os outros bichos e disseram-se, entre si: “Nosso feito é mais bonito e bom, que tudo o que antes havia!”. Depois, foram para o alto de um monte muito alto, tanto que dali se via o mundo; aí, olhando os seus próprios feitos, que modificavam as coisas dadas pelo Senhor para a forma das suas necessidades e, mais tarde, dos interesses, chamaram tudo aquilo de riqueza; aí, ensoberbados, disseram pra si mesmos, pro monte e para a Natureza ouvirem: “Tudo fizemos, e o demos a nós, merecidamente! Tudo o que há e que haverá, nosso será – agora, adoremo-nos, a nós mesmos, porque, conforme o Senhor, tomamos a terra pra nós: senhores dela, somos!”. Disseram assim, para o silêncio do monte e das árvores e dos ninhos e tocas e ocas e das águas dos lagos; mas, o riacho seguiu cantando cantigas para os mares, as nuvens continuaram bailando aos ventos do sul e do norte e o sol nem conta daquilo fez.

Sineiro, menino sem nome de pai e mãe, corcunda e mudo de nascença, que tocava o sino da Igreja nas vezes aprazadas do dia, ou conforme o mando do padre, especialmente à Hora da Ave Maria, que lia os sons das palavras pelo movimento das bocas, vendo aquilo, fez o “Pelo Sinal” – reverenciando a beleza do Cruzeiro do Sul, numa noite do início do Outono. Quando soube disso, pelos pensamentos pensados do menino, Macambira se afundou na rede e ali ficou três dias e três noites: olhos fechados durante o dia e abertos à noite toda; parentalha fez vigília, rezaram novena, acenderam vela, chamaram o padre para a extrema-unção: “Extrema-unção não dou, não precisa: vivo está e continuará!” Sem nada mais dizer, foi embora, sisudo, pensativo...A necessidade é natural, é da natureza de homens e mulheres e bichos e plantas: é que a vida não é por si mesma, carece do que está fora de si para ser vida; aí, o que fizeram os humanos, depois de atenderem a necessidade fundamental? – revestiram-na de interesse, desfigurado pela ganância para nada ver e sentir, além de si. Então, o riacho que cantava cantigas de calmaria e sossego só teve valia represado, para fazer movimentar as roldanas das fábricas; dos Céus, o sol e as Chuvas só tiveram valença, fazendo-se presentes na quantidade suficiente e necessária para abundar os frutos da plantação, além da fome; os passarinhos: se cantassem dentro de gaiolas; a Mata Virgem, só se deflorada, seviciada até sangrar resina, borracha e óleo, ou ser cortada em lascas, aí serviria, ganhava valor! O destruir, conluiou-se com a valorização, criando o valor. Foi o caso do Morro do Castelo, de onde se via, linda, a Baía da Guanabara e o Céu de Abril: derrubaram-no ao rés do chão, as mãos que, na terra aplainada e encarecida, nunca puderam erguer a própria morada. Deu-se isso, tempos depois de alguns já terem subjugando tudo a si, inclusive a maioria dos outros humanos; quando, por fim, vergaram Deus a seu servidor fiel, preso em templos...

E assim, inventando e reinventando noutro invento novo, a vida, criaram necessidade nova e precisão desnecessária, que fizeram menino e gente grande chorar, pedindo. Desumanidade. E para calar as bocas desbocadas dos que gritavam contra os pés daqueles uns sobre suas costas lanhadas, encandearam os olhos das multidões com as Escrituras: escritas, reescritas, passadas a limpo muitas vezes, para enfeixar tudo num livro e, sacralizadas, dispô-las nos altares de catedrais e casas-chãs: “É a Verdade ditada do Alto: Creiam!”, ordenaram. Petrificaram o Credo, para amainar com benzimentos pagãos a dinheiro, os ânimos dos burros-de-carga do mundo, conformando-os nos ofícios e agonias de tudo fazerem sem nada terem de seus, e nada serem; conformação bem urdida, por abocamento, confabulações de gente experimentada em falar convencimentos, a mando de reis de palácios mundanos e eclesiásticos, sem alevantar desconfiança...

E o velho Macambira, sem ânimo para confrontar as Escrituras, disse devagar, receoso, na porta da Igreja, ao final da Missa: “Se se deu mesmo, esse causo da Eva, do Adão e da Cobra, não sei; mas atentai vós que ouvis o padre, para o fato de que foi conversando, dizendo mentiraiada, que o Sete-Voltas, o Unhudo, o Maldito, acabou com aquele Paraíso!”. Apuraram-se os ouvidos todos, olhando pro padre pra ver sua sentença praquele dizer, mas, Antônio Macambira, com a autoridade feita de Sertão vivido, não deu vez e continuou a falar, atormentando com dúvidas, silentemente, os pensamentos dos crentes: “Não veem vós, que desde ali, dois Paraísos se formaram? Um foi o dos pobres, no Céu, e o outro, o dos ricos, na Terra, que é mais fácil de alcançar!”. O padre riu, riso de canto-de-boca, quando Macambira disse calmo e grave: “O Sete-Caras está mais convosco, que o Menino-Nazareno!”; as pessoas se dispersaram, cada um com seus consigos de gozos e desgostos, de medos e fé, de esperanças e realidade...

Mocinha, conhecida tanto assim, por esse nome, que, o próprio nome, poucos sabiam, chegou cedinho na beira do Ribeirão com a trouxa de roupas; era seu ofício, além de todos os outros de dentro de casa, desde meninota: lavava, passava, fazia comida boa, bolos e varria tudo, com a satisfação de fazer o que acreditava ser o seu destino. Sozinha, sentou-se na tábua sob pensamentos que parecia um falar de aconselhamento ou revelação, não sabia bem: ficou a ouvir aquele pensar, enquanto ensaboava as roupas. Só o som das águas ligeiras do Ribeirão e o barulho do esfregar o sabão nas roupas e batê-las na tábua. Aí, como se guiada por outra cabeça que não a sua, a mão deixou o sabão sobre o vestido que ensaboava e mergulhou-se na água, sob a tábua; Mocinha olhou uma pedra que parecia ter saltado sozinha para sua mão: redonda, amarronzada, polida, brilhando brilho estranho e sonorizando como vento leve, quase brisa, disse-lhe tudo o que o menino Sineiro e o Velho Antônio Macambira pensaram: “Agora, tudo está consigo: diga aos que não sabem...”.

Quando Mocinha se deu a falar o que todos sabiam que ela não sabia, arrepiando peles e esbugalhando olhos, disseram, para salvarem a própria normalidade: “Mocinha endoideceu!” ...

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