O conflito entre o presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo, e o vice-presidente, conselheiro Waldir Teis, começou em agosto de 2026, após o presidente barrar a rescisão do contrato de pavimentação da MT-170, no trecho entre Castanheira e Colniza. A medida contrariou a decisão da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra-MT), que havia rompido o contrato com a empresa MTSUL Construções após identificar problemas na execução da obra. Ao suspender a rescisão, Sérgio Ricardo argumentou que os trabalhos já estavam 83,73% concluídos.
O entendimento de Sérgio Ricardo, porém, encontrou resistência dentro do próprio TCE-MT. Teis se tornou um dos principais críticos da cautelar e defendeu a decisão da Sinfra de rescindir o contrato. O conselheiro argumentava que a empresa enfrentava dificuldades para executar os serviços e que não havia justificativa para o tribunal impedir a aplicação das sanções impostas pela secretaria diante dos problemas identificados na obra.
Enquanto Sérgio Ricardo sustentava que a paralisação dos trabalhos traria prejuízos à população do extremo noroeste do Estado, Teis defendia que manter a empresa na execução do contrato não resolveria as falhas constatadas. As discussões foram marcadas por divergências sobre a condução do processo e trocas de acusações entre os dois conselheiros.
A crise se agravou no fim de setembro, quando Sérgio Ricardo retirou Teis da supervisão da Escola Superior de Contas, cargo considerado estratégico na estrutura do tribunal. A medida provocou reação de outros conselheiros, que viram na decisão uma retaliação às posições adotadas pelo vice-presidente em julgamentos recentes. A disputa ganhou dimensão pública e expôs a divisão entre grupos dentro da corte.
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O embate teve novo capítulo no início de outubro, quando o processo sobre a MT-170 voltou ao plenário. Após um empate na votação, Sérgio Ricardo avocou para si, no dia 6 de outubro, a relatoria do caso. A discussão dividiu os conselheiros em dois grupos. Um defendia a manutenção das decisões do presidente, enquanto o outro sustentava a necessidade de rever a cautelar e questionava a forma como ele havia assumido a condução do processo.
A sessão, transmitida ao vivo pelo YouTube, evidenciou a animosidade entre os dois. “Em nenhum pedido da empresa que entrou com a representação, ela se preocupou com o interesse público. Desculpe, não tem interesse público”, afirmou Teis, ao argumentar que, por esse motivo, o TCE-MT não teria competência para analisar o caso.
Sérgio Ricardo rebateu a crítica. “O senhor não tem competência, desculpa. Quando for falar em incompetência, fale pelo senhor, não fale por mim”, respondeu.
A disputa deixou de se restringir ao processo da MT-170 e passou a envolver o funcionamento interno do tribunal. Conselheiros começaram a questionar o que consideravam uma concentração excessiva de poder nas mãos da Presidência. Entre as reclamações estavam a condução de processos de grande repercussão, a distribuição de atribuições administrativas e a escolha de ocupantes para cargos estratégicos.
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TOMADA DE CONTAS
A Operação Tomada de Contas, deflagrada pela Polícia Federal com autorização do Superior Tribunal de Justiça (STJ), investiga um suposto esquema de irregularidades na gestão de contratos e pagamentos no TCE-MT. A operação resultou na prisão preventiva de Sérgio Ricardo.
Segundo a PF, há indícios de que a suspensão de contratos administrativos teria sido utilizada como instrumento de pressão sobre fornecedores e de favorecimento a determinados pagamentos. A investigação também apura movimentações financeiras consideradas atípicas, saques em dinheiro vivo e divergências na execução de despesas públicas. Os fatos podem configurar, em tese, crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Sérgio Ricardo é apontado pela Polícia Federal como integrante de uma estrutura que supostamente utilizaria a retenção de contratos e a liberação seletiva de recursos públicos para atender a interesses específicos. A investigação menciona ainda o recebimento de valores milionários em contas ligadas aos investigados e a realização de dezenas de saques em espécie.
Após audiência de custódia, a prisão preventiva foi mantida. O conselheiro foi encaminhado para uma sala de Estado-Maior no Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), em Cuiabá.
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