O servidor Adriangelo Barros Antunes, ex-cunhado do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo de Almeida, teria recebido R$ 2,28 milhões em pagamentos suspeitos e atuado no transporte de grandes quantias de dinheiro em espécie dentro da instituição, segundo investigação da Polícia Federal. Preso preventivamente nesta quinta-feira (29), durante a Operação Tomada de Contas, o servidor é apontado como integrante do núcleo operacional de um suposto esquema de desvio de recursos públicos. Imagens de câmeras de segurança e monitoramentos policiais identificaram movimentações de dinheiro na agência bancária instalada nas dependências do tribunal.
Conforme a decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Adriangelo teria recebido R$ 2.280.724,93 a partir de setembro de 2025, além de atuar no recolhimento de valores sacados por Roseli Loss, chefe de gabinete de Sérgio Ricardo, também presa na operação. A investigação identificou que Roseli realizou retiradas que somaram R$ 3,52 milhões e, em pelo menos seis ocasiões, teria entregue parte do dinheiro ao servidor.
As movimentações foram identificadas por meio de imagens do circuito interno da agência do Sicoob localizada no TCE-MT, cruzadas com registros financeiros e diligências realizadas pela Polícia Federal. Segundo os investigadores, Adriangelo era responsável por transportar fisicamente parte dos recursos retirados em espécie, função considerada relevante para a circulação do dinheiro investigado.
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Um dos episódios destacados na decisão ocorreu em 14 de outubro de 2025, quando policiais federais observaram um homem com características físicas compatíveis com as de Adriangelo entrando na agência bancária com uma mochila aparentemente vazia. Pouco depois, ele deixou o local com a bolsa aparentemente carregada e seguiu em direção às dependências internas do tribunal. Embora os registros visuais apresentem limitações para a identificação conclusiva, a movimentação foi considerada compatível com outros elementos reunidos durante a investigação.
A Polícia Federal também identificou que parte dos valores recebidos nas contas bancárias de Adriangelo foi posteriormente transferida para sua esposa, sua filha e uma terceira pessoa não identificada. Para os investigadores, as transações levantam suspeitas de que os recursos tenham sido redistribuídos como forma de dificultar o rastreamento de sua origem e destinação.
Ao analisar os elementos apresentados pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF), o ministro Og Fernandes considerou que a função atribuída ao servidor na movimentação de dinheiro em espécie, associada à possibilidade de continuidade das práticas investigadas e de interferência na produção de provas, justificava a decretação da prisão preventiva.
Adriangelo possui vínculo funcional com a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) e está cedido ao Tribunal de Contas desde outubro de 2021, semanas antes de Sérgio Ricardo voltar à Corte depois de quatro anos afastados devido a acusação de recebimento de propina em 2017. Na instituição, atuou como secretário-executivo da Comissão Permanente de Meio Ambiente e Sustentabilidade e também exerce a função de tesoureiro da Associação dos Servidores Comissionados do Tribunal de Contas (Assecom-MT).
OPERAÇÃO TOMADA DE CONTAS
A Operação Tomada de Contas foi deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quinta-feira para investigar possíveis irregularidades em contratos administrativos e pagamentos realizados pelo TCE-MT. Ao todo, mais de 180 policiais federais foram mobilizados para cumprir seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Além de Adriangelo, foram presos o presidente da Corte, Sérgio Ricardo de Almeida; a chefe de gabinete Roseli Loss; o consultor jurídico-geral Grhegory Paiva Pires Moreira Maia; e os servidores Gustavo Fernandes da Silva e Felipe José Glinke.
Conforme a investigação, a Presidência do Tribunal de Contas teria utilizado portarias de suspensão de contratos administrativos como mecanismo de pressão contra empresas fornecedoras. A suspeita é de que algumas delas fossem condicionadas a devolver parte dos valores recebidos para manter seus contratos ou obter vantagens na liberação de pagamentos.
Os policiais também apuram a existência de uma suposta folha paralela de pagamentos, por meio da qual recursos públicos teriam sido transferidos a conselheiros e servidores mediante ordens bancárias avulsas, fora do calendário habitual de remuneração e sem a devida transparência. Entre janeiro e outubro de 2025, as movimentações financeiras consideradas atípicas chegaram a R$ 75,8 milhões.
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