Muito além de um tema técnico restrito à geologia ou à mineração, as chamadas terras raras tornaram-se um dos principais ativos estratégicos do século XXI. Esses minerais são essenciais para a transição energética, para a indústria de alta tecnologia e para a própria soberania industrial das nações.
As terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos, compostos pelos 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Esses elementos possuem propriedades magnéticas, ópticas e catalíticas únicas, sendo de extrema importância na fabricação de equipamentos de alta complexidade tecnológica, como motores de veículos elétricos, painéis solares, baterias, semicondutores, smartphones, equipamentos medicos e satélites.
Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente escassas. O problema central está na forte concentração da produção mundial, no domínio tecnológico do beneficiamento e nos altos custos ambientais e regulatórios envolvidos. Hoje, poucos países controlam etapas decisivas dessa cadeia, o que tem levado governos e blocos econômicos a buscar novas fontes de suprimento que sejam seguras, sustentáveis e juridicamente confiáveis.
O Brasil desponta como um dos países com maior potencial para suprir parte dessa demanda, considerando que é o segundo maior detentor de terras raras do mundo, ficando atrás apenas da China. O território nacional abriga ocorrências associadas a complexos alcalinos, carbonatitos, argilas iônicas e depósitos secundários. Durante décadas, porém, esse potencial permaneceu praticamente inexplorado, em razão da ausência de políticas industriais consistentes, de limitações tecnológicas e da falta de uma cadeia produtiva estruturada. Esse cenário começa a mudar diante da crescente demanda por minerais críticos e da pressão global por cadeias produtivas mais sustentáveis.
É nesse contexto que Mato Grosso surge como um ator emergente nesse debate. Conhecido nacional e internacionalmente por sua força no agronegócio, o estado começa a aparecer também no radar da mineração estratégica. Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) indicam indícios preliminares da presença de elementos de terras raras em regiões como Itiquira, Serra do Canamã e Planalto da Serra. Embora ainda iniciais, esses estudos são suficientes para despertar atenção técnica e científica e recolocar Mato Grosso em uma agenda de futuro.
É preciso, contudo, ter clareza: transformar potencial geológico em desenvolvimento econômico exige planejamento, responsabilidade e visão de longo prazo. A mineração de terras raras é complexa, demanda segurança jurídica, eficiência regulatória e rigor no cumprimento das normas da Agência Nacional de Mineração. No campo ambiental, não há espaço para improvisos. Estudos de impacto robustos, diálogo com comunidades locais e transparência são condições mínimas para qualquer iniciativa legítima e sustentável.
Se bem conduzida, a exploração de terras raras pode representar uma oportunidade concreta de diversificação econômica para Mato Grosso, atraindo investimentos qualificados e inserindo o estado em cadeias globais de alto valor agregado. Mas limitar-se à simples extração seria um erro estratégico. O verdadeiro ganho está na agregação de valor, no beneficiamento mineral e na inovação tecnológica.
As terras raras não são apenas um tema mineral. São parte da geopolítica contemporânea e da economia do futuro. Mato Grosso reúne condições reais para ocupar um papel relevante nesse cenário, desde que haja responsabilidade ambiental, segurança jurídica e políticas públicas orientadas para o desenvolvimento sustentável. O desafio está lançado: transformar conhecimento científico e indícios geológicos em valor social, econômico e estratégico para o estado e para o Brasil. A pergunta que se impõe é direta e inevitável: o Brasil e o Estado de Mato Grosso escolherão ser meros coadjuvantes nesse novo cenário global ou assumirão, de fato, o protagonismo que seus recursos e seu potencial permitem?
(*) LUCAS MACEDO é advogado, especialista em Direito Minerário e da Mineração.
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