A política contemporânea vive um dos seus momentos mais perigosos: a substituição da verdade pela convicção absoluta. Não se trata mais apenas de mentira, fake news ou desinformação, trata-se de algo mais profundo, mais estrutural e mais destrutivo: a construção de realidades emocionais que transformam opiniões em identidades, líderes em ídolos e cidadãos em seguidores.
O problema não está apenas em distorcer fatos, mas em criar ambientes simbólicos onde fatos deixam de importar. Situações são fabricadas, eventos são inflados além da realidade, discursos são recortados fora de contexto e narrativas são emocionalmente potencializadas para gerar engajamento, ódio, medo e pertencimento.
Nesse cenário, a verdade não é mais critério. É obstáculo.
A lógica é simples e perigosa: quanto maior a polarização, maior o engajamento. Quanto maior o conflito, maior a adesão emocional. Quanto mais radical a narrativa, mais fiéis se formam.
Assim, cria-se um ambiente onde políticos deixam de ser avaliados por projetos, capacidade ou resultados e passam a ser seguidos como símbolos. O debate público é substituído pela devoção política. A crítica vira traição. A divergência vira inimiga. O contraditório vira ataque.
Não se escolhem governantes. Escolhem-se lados. Não se analisam propostas. Defendem-se narrativas. Não se busca a verdade. Protege-se a identidade do grupo.
Esse modelo favorece justamente os piores perfis de liderança: políticos medíocres, despreparados ou mal-intencionados, mas altamente eficientes na manipulação emocional.
Eles não precisam de competência administrativa. Não precisam de projetos estruturantes. Não precisam de densidade intelectual.
Precisam apenas de uma narrativa simples, um inimigo bem definido e uma base emocionalmente mobilizada.
É assim que a política se transforma em espetáculo, o discurso em marketing emocional e o mandato em palco permanente.
O estágio mais grave desse processo é o que se pode chamar de estelionato da verdade.
Não é mais erro. Não é ignorância. Não é desinformação casual. É método.
Cria-se uma realidade paralela. Fabrica-se uma percepção coletiva. Constrói-se uma verdade funcional.
Funcional para gerar engajamento. Funcional para manter poder. Funcional para blindar lideranças. Funcional para destruir adversários.
A sociedade não é apenas enganada é convertida.
Quando a política se organiza em torno de convicções absolutas, a democracia entra em colapso simbólico.
A democracia exige pluralidade, diálogo, racionalidade pública e mediação institucional. A política da convicção produz o oposto: radicalização, personalismo, intolerância e culto à personalidade.
Onde deveria haver cidadãos, surgem fiéis. Onde deveria haver debate, surge guerra. Onde deveria haver política, surge fé.
A mentira pode ser combatida. A convicção cega, não.
A mentira pode ser desmentida. A convicção se blinda.
A mentira engana. A convicção sequestra consciências.
Por isso Nietzsche permanece atual. As convicções, quando absolutizadas, são mais perigosas do que as mentiras. Porque a mentira ainda reconhece a verdade. A convicção dogmática a elimina.
O maior risco da política atual não está apenas nos discursos falsos, mas na transformação da política em religião, da ideologia em fé e da liderança em idolatria.
Quando isso acontece, a sociedade não caminha para o debate, caminha para o fanatismo.
E onde há fanatismo, não há democracia. Há culto.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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