O Brasil atravessa um momento decisivo na gestão de seus recursos minerais. A agenda do clima e da transição energética ocupa o topo da geopolítica, e os olhos do mundo se voltam para temas como rastreabilidade, sustentabilidade ambiental e, no caso do ouro, para o mercado joalheiro, responsável mundialmente por 50% da demanda pelo metal.
Como economista e diretor executivo do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM), compreendo que o desafio para os próximos anos não reside apenas na extração, mas na capacidade de transformarmos uma commodity em um ativo de alto valor agregado. O Brasil, por exemplo, produz 100 toneladas de ouro por ano e, praticamente todo esse volume é exportado em estado semielaborado. Poderíamos agregar mais de US$250 milhões por tonelada de ouro exportado em estado bruto, processando esse metal em nossa indústria de joias. Ou seja, no limite, deixamos de “faturar” US$25 bilhões por ano exportando as 100 toneladas de ouro usualmente comercializadas com o exterior.
O IBGM, fundado em 1977, representa toda a cadeia produtiva —mineração de ouro e gemas, indústria de joias de ouro, prata, folheados, bijuteria, e lapidação de gemas, e comércio — e atua estrategicamente para que o metal brasileiro deixe de ser apenas um recurso primário para se tornar um produto manufaturado capaz de atender aos mercados mais exigentes, tanto nacional quanto internacional.
O verdadeiro desafio de um país minerador não está na exportação do minério bruto, mas no adensamento de sua cadeia produtiva, o que gera empregos qualificados, receitas tributárias e divisas por meio da exportação de artigos com design e tecnologia. Os dois últimos Planos Nacional de Mineração (2030 e 2050), formulados pelo Ministério de Minas e Energia, preconizam a importância de agregar valor ao bem mineral produzido no país. As boas intenções, no entanto, devem sair do papel e serem implementadas, de fato, sob pena de o Brasil permanecer perigosamente dependente de comodities para o equilíbrio de seu balanço de pagamentos e na condição de país colônia 200 anos depois de sua independência.
Nesse cenário, Mato Grosso assume um papel de liderança, especialmente na região da Baixada Cuiabana, que vem se destacando na produção de ouro. O objetivo estratégico é integrar essa mineração à indústria joalheira nacional, promovendo uma transição para modelos tecnologicamente avançados e socialmente sustentáveis, fomentando a mineração responsável.
Para que o ouro mato-grossense alcance as vitrines globais, a rastreabilidade e a conformidade ambiental são pilares fundamentais. O projeto "Ouro Sem Mercúrio na Baixada Cuiabana", pretende mostrar que é possível implementar um modelo de conformidade e certificação de origem, utilizando tecnologias como blockchain e QR Code para assegurar o controle da cadeia de custódia.
Ao abolir o uso do mercúrio, em conformidade com a Convenção de Minamata, e estruturar um polo de produção de joias, pavimentaremos o caminho para que o setor mineral contribua de forma diferenciada para o desenvolvimento econômico do Estado. O potencial de agregação de valor é imenso: ao invés de exportarmos apenas o bem mineral, exportaremos o talento, a criatividade e a cultura brasileira.
O IBGM, que já integra o Grupo de Trabalho da Mineração da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, pretende ampliar seu escopo de atuação no estado para contribuir com o desenvolvimento socioeconômico da mineração, onde o ouro rastreado e certificado se torna o motor de uma indústria moderna, ambientalmente limpa e plenamente conectada com a economia global.
(*) ÉCIO BARBOSA MORAIS é economista e diretor-executivo do IBGM.
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