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Artigos Domingo, 25 de Janeiro de 2026, 19:39 - A | A

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Domingo, 25 de Janeiro de 2026, 19h:39 - A | A

Livro desmonta o mito da tolerância e expõe perseguição aos terreiros

GILDA PORTELLA

O livro “Intolerância Religiosa”, de Sidnei Nogueira, propõe uma revisão crítica do termo amplamente utilizado para descrever ataques às religiões de matriz africana. Para o autor, classificar essas violências apenas como “intolerância” encobre um problema estrutural mais profundo: o racismo religioso e o consequente epistemicídio, ou seja, o apagamento sistemático de saberes e práticas negras.

A obra é apresentada como reflexão política, ética e cultural, escrita em linguagem acessível, que articula experiências pessoais, pesquisas históricas e contribuições de intelectuais negros como Frantz Fanon, Grada Kilomba, Achille Mbembe, e Molefi Kete Asante. O objetivo é demonstrar que a noção de intolerância funciona, como uma “máscara discursiva” para práticas racistas historicamente consolidadas no país.

O livro relembra que o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, foi instituído pela Lei nº 11.635/2007 em memória de Mãe Gilda de Ogum, ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador. Ela morreu após sofrer sucessivos ataques, invasão de seu terreiro e agressões a familiares, em um caso emblemático de violência contra lideranças religiosas negras.

Para Nogueira, esse episódio revela que a perseguição às Comunidades Tradicionais de Terreiro não é pontual, mas parte de um processo histórico de criminalização das práticas religiosas afro-brasileiras, como Umbanda, Candomblé, Batuque, Tambor de Mina e Jurema, entre outras.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica ao próprio conceito de “tolerância”. Segundo o autor, o verbo “tolerar” significa suportar algo que não se deseja, o que pressupõe uma relação hierárquica entre quem tolera e quem é tolerado. Nesse sentido, a tolerância não implica reconhecimento, respeito ou valorização da diferença.

Essa lógica reforça a ideia de uma suposta “cordialidade brasileira”, associada ao mito da democracia racial, que dificulta o reconhecimento do racismo como elemento estruturante das relações sociais e religiosas no Brasil.

A obra apresenta dados de pesquisas e registros que apontam a concentração de ataques contra religiões de matriz africana. Em levantamento realizado no RJ, mais da metade dos terreiros relatou ter sofrido algum tipo de agressão. Entre os agressores identificados, evangélicos aparecem como o grupo mais frequente nos registros analisados.

Dados do Disque 100 indicam que, em 2018, cerca de 30% das denúncias de violência religiosa partiram de vítimas ligadas à Umbanda, ao Candomblé e a outras religiões afro-brasileiras, enquanto religiões hegemônicas, aparecem com índices significativamente menores. O autor ressalta que a subnotificação é elevada, em razão do medo, da estigmatizaçãoe da invisibilidade social dessas comunidades.

Para o bàbálórìṣà e doutor.em Semiótica pela USP Nogueira o racismo religioso não se limita à agressão física ou verbal contra praticantes, mas atinge as origens, os rituais, os sistemas filosóficos, os valores e as cosmologias africanas. Trata-se de uma tentativa de negar a legitimidade de modos de existir que não se enquadram nos padrões eurocêntricos e cristãos.

O autor classifica esse processo como racismo epistêmico, pois desqualifica os terreiros como espaços produtores de conhecimento, apagando tecnologias sociais, práticas de cuidado, transmissão oral de saberes e sistemas éticos próprios dessas tradições.

Outro tema abordado é a estigmatização de práticas rituais, especialmente a sacralização e o consumo de animais. Nogueira detalha os fundamentos religiosos desses ritos, explicando que fazem parte de uma lógica comunitária de partilha, celebração e manutenção do axé. A demonização dessas práticas ignora seus significados simbólicos e sociais, contribuindo para reforçar preconceitos e justificar ataques.

O livro propõe que o enfrentamento do racismo religioso passa pela valorização das epistemologias negras e pela recuperação do sentido da encruzilhada, símbolo de multiplicidade, escolha e diálogo nas cosmologias afro-diaspóricas. A ética dos terreiros, baseada na coletividade e no cuidado mútuo, é apresentada como modelo possível de convivência plural e democrática.

Para Nogueira, somente a partir do reconhecimento das tradições afro-brasileiras como produtoras legítimas de conhecimento e cultura será possível romper com a lógica colonial que sustenta a violência contra essas comunidades.

*Gilda Portella - Sacerdotisa de umbanda, multiartista, escritora, coafrofundadora do Coletivo Herdeiras do Quariterê, mestre em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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