Há anos, quando iniciei a exploração da inteligência artificial aplicada à comunicação política, o cenário que desenhávamos parecia, para muitos, um exercício de distopia. Hoje, o que era vanguarda técnica tornou-se uma urgência de Estado. Minha trajetória nessa fronteira tecnológica, consolidada pela fundação do IRIA (Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial), sempre foi pautada por um alerta central: a democracia não sobrevive à manipulação invisível sem salvaguardas robustas. Não tratamos mais de hipóteses, mas de uma realidade de algoritmos viciados, deepfakes e uma guerrilha digital profissionalizada que opera à margem da luz.
A recente repercussão na CartaCapital sobre a sofisticação dos avatares digitais e a profissionalização do submundo informacional não traz surpresa, mas uma confirmação amarga. É o retrato de um risco que venho denunciando sistematicamente. O Brasil, infelizmente, negligenciou os sinais. Nossa inércia institucional nos empurrou para uma zona de vulnerabilidade onde a reação, embora necessária, corre agora contra o ponteiro de um relógio que não perdoa.
Nesse cenário de fragmentação, a postura do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, surge como um ponto de inflexão institucional indispensável. Ao compreender a gravidade do tema e colocar a regulamentação da IA no centro da agenda legislativa, Motta demonstra uma percepção aguda da urgência democrática. Sua liderança é o reconhecimento de que o vácuo normativo é o terreno fértil para o caos. É um movimento de coragem política que busca construir soluções em um campo minado por interesses complexos e inovações velozes.
Entretanto, é preciso honestidade intelectual para admitir que a lucidez atual não apaga o custo da demora. O Brasil perdeu o timing ideal para blindar plenamente o processo eleitoral de 2026. A velocidade com que a desinformação sintética se propaga supera, em larga escala, a capacidade de resposta técnica e jurídica das nossas instituições. Mesmo com o avanço das medidas regulatórias, o tempo para a implementação de mecanismos de fiscalização eficazes pela Justiça Eleitoral é exíguo. Estamos tentando erguer diques enquanto a maré já atinge a costa.
A regulamentação da inteligência artificial não é um debate acessório ou um luxo burocrático; é o pilar de sustentação da integridade pública. O atraso em reconhecer essa premissa custa caro à soberania do voto e à confiança do cidadão. Precisamos de lideranças que, a exemplo de Hugo Motta, olhem para além do horizonte eleitoral imediato, mas precisamos, acima de tudo, de consciência coletiva sobre o terreno que cedemos.
A conta do atraso será cobrada em 2026. Que a urgência de agora não seja apenas um paliativo tardio, mas o início de uma vigilância permanente. O silêncio diante da tecnologia descontrolada é a assinatura da nossa própria fragilidade. O tempo da inocência acabou; o que resta é a luta pela verdade em um mundo de sombras digitais.
(*) MARCELO SENISE é Sociólogo, Marqueteiro Político e Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA. Autor de “A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política” e "Blindagem Essencial".
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