Os dados do desempenho do PIB no primeiro trimestre de 2026 divulgados pelo IBGE na última sexta feira (29) mostram um bom nível de crescimento da economia brasileira.
Mesmo em ambiente desfavorável com aumento das incertezas econômicas no cenário internacional, motivadas pela insana guerra dos Estados Unidos contra o Irã e a política contracionista praticada pelo Banco Central que mantém juros muito elevados para manter a inflação próxima à meta.
De janeiro a março deste ano a atividade econômica cresceu 1,1% e 1,8% nos últimos doze meses, completando 21 trimestres seguidos de desempenho positivo.
Desta vez o avanço não foi nenhuma surpresa. Na semana anterior, o jornal Valor Econômico publicou pesquisa com 71 instituições indicando que o desempenho do primeiro trimestre ficaria em 1,1% e o crescimento anual nos mesmos 1,8% confirmados pelas Contas Nacionais Trimestrais do IBGE.
Pelo lado da demanda, o consumo final das famílias foi o motor do crescimento, puxado pela expansão da renda disponível, aumento da massa salarial (baixo desemprego) e pelo aumento da oferta de crédito, que alavanca compras a prazo.
Segundo pesquisadores do IBGE, os dados do mês de março começaram a sinalizar redução da atividade em razão dos juros elevados e das incertezas internacionais.
Por outro lado, o mercado de trabalho segue aquecido e a administração federal impulsiona o consumo com medidas como aumento real do salário-mínimo e o início da vigência da isenção do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para quem ganha R$ 5 mil por mês a partir de janeiro.
Chama a atenção o aumento do acesso ao crédito em ambiente hostil de taxas de juros muito altas e elevado nível de endividamento das famílias.
Ainda na ótica da demanda, o aumento da formação bruta de capital fixo (FBCF), como o investimento é chamado nas contas do PIB, cresceu 3,5% contribuindo para a boa performance do primeiro trimestre. Ainda assim, a participação do investimento na formação do PIB (taxa de investimento) ficou em 16,5%, abaixo do patamar de 17,6% alcançado no primeiro trimestre de 2025.
Pelo lado da produção, os destaques foram o bom desempenho da agropecuária, com a grande safra de soja, evolução da pecuária e da indústria extrativista, ancorada no aumento da produção de petróleo e gás. A indústria da construção também teve bom desempenho.
O PIB industrial só não colheu aumento mais expressivo porque a indústria de transformação (bens acabados, prontos para o consumo) ficou praticamente estagnada no primeiro trimestre.
O setor de serviços, que responde por 70% do PIB teve crescimento baixo (0,5%), com melhor desempenho nos setores de informação/comunicação, atividades imobiliárias e comércio. Houve retração nos serviços de correios, transportes, armazenagem e atividades financeiras.
Não resta dúvidas que o desempenho da economia no primeiro trimestre foi bom, na comparação anual e trimestral. É o sexto maior crescimento anual e terceiro em crescimento trimestral entre os 45 países que já divulgaram dados do PIB no primeiro trimestre, inclusos as economias da OCDE e G-20, que são as maiores e mais desenvolvidas.
A parte crítica do desempenho do primeiro trimestre é que o crescimento está muito sustentado no consumo das famílias, estímulo ao crédito e gastos do governo (federal, estaduais e municipais), com baixa evolução do investimento e da poupança, componentes que garantem a sustentabilidade da economia em médio e longo prazos.
As evidências sugerem que vai se repetir o padrão de desempenho do PIB dos últimos anos. Com protagonismo da agropecuária e consumo das famílias, o primeiro trimestre tem avanço forte, seguido de alta moderada nos trimestres seguintes, o que pode garantir crescimento pouco acima de 2% ao final de 2026.
São pertinentes as críticas de que o atual perfil da evolução do PIB baseado no consumo das famílias e oferta de crédito não permite ao país explorar todo seu potencial de crescimento. Todavia, o histórico dos últimos anos é positivo. Confirmadas as previsões de crescimento acima de 2% este ano, no período recente de 2023 a 2026 o crescimento acumulado do PIB será de 11,4%, o que assegura a posição do Brasil entre as dez maiores economias do mundo. Nesse período a economia brasileira mostrou-se bem resistente a choques. Enfrentamos a pandemia, guerra Rússia-Ucrânia, tarifaço de Trump e agora a guerra do oriente médio que elevou os preços de petróleo, fertilizantes e fretamentos.
(*) VIVALDO LOPES é professor, economista e ex-secretário de Fazenda de Cuiabá e de Mato Grosso.
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