Recentemente, assisti a um vídeo do perfil @leonardo.castelo no Instagram que me fez refletir profundamente sobre os desafios da gestão, tanto no setor privado quanto na administração pública. O vídeo, intitulado “O paradoxo do controle”, abordava a história de grandes líderes empresariais que, movidos por uma obsessão pelo controle absoluto, acabaram se tornando o principal entrave para o crescimento de suas próprias empresas.
Larry Page, do Google, revisava pessoalmente cada linha de código e aprovava todas as mudanças no site. Howard Schultz, da Starbucks, provava cada lote de café e treinava cada barista. Sam Walton, do Walmart, tentava gerenciar sozinho suas primeiras 20 lojas. Em todos os casos, a busca incessante por controle resultou em estagnação e dificuldades. Somente quando esses líderes aprenderam a delegar e confiar em processos de gestão eficientes, suas empresas alcançaram o sucesso global.
Essa reflexão me levou a uma análise mais ampla: se esse problema afeta grandes corporações privadas, o que acontece quando ele se manifesta na gestão pública?
Na administração pública, a obsessão pelo controle pode se manifestar de diversas formas. Desde líderes que centralizam todas as decisões em suas mãos, passando por processos burocráticos excessivos, até a falta de autonomia dos gestores e técnicos responsáveis pela execução das políticas públicas. Em vez de garantir eficiência, esse modelo gera lentidão, desperdício de tempo e recursos, além de um ambiente de trabalho marcado pela insegurança e pela paralisia administrativa.
Henry Mintzberg, em seu livro “Estrutura e Dinâmica das Organizações”, argumenta que o excesso de controle e a burocratização exacerbada reduzem a capacidade de inovação e resposta rápida às demandas da sociedade. Segundo ele, “a burocracia excessiva engessa a criatividade e impede que as organizações públicas se adaptem a mudanças necessárias”. Ou seja, um gestor que não confia em sua equipe e tenta decidir tudo sozinho está, na verdade, minando sua própria eficiência.
Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, também abordou esse tema ao afirmar que “o maior risco para uma organização não é cometer erros, mas sim ficar paralisada pelo medo de errar”. Em outras palavras, um líder que tenta controlar tudo, sem delegar responsabilidades, cria um ambiente onde a inovação e a agilidade são substituídas pelo medo e pela burocracia.
Na gestão pública, essa centralização excessiva frequentemente leva a um cenário em que decisões simples demoram meses para serem tomadas. Isso acontece porque todos os processos precisam passar por um único ponto de validação, sobrecarregando os gestores e limitando a capacidade de resposta do governo.
Além disso, esse modelo de gestão gera um problema ainda mais grave: a desmotivação dos profissionais envolvidos. Quando técnicos capacitados e experientes não têm autonomia para executar suas funções, eles perdem o engajamento e a motivação, resultando em uma administração pública ineficiente e sem inovação.
A Solução: Confiança e Processos Eficientes
A solução para esse problema não está no abandono do controle, mas sim na criação de processos de gestão eficazes que garantam a qualidade e a transparência sem comprometer a agilidade da administração. A confiança nas equipes técnicas, a descentralização das decisões e a implementação de metodologias de gestão modernas são passos fundamentais para transformar a gestão pública.
Um bom exemplo é o modelo de governança colaborativa, que busca distribuir as responsabilidades entre diferentes níveis hierárquicos, permitindo que decisões sejam tomadas por aqueles que estão mais próximos dos problemas. Na prática, isso significa criar equipes qualificadas, estabelecer metas claras e monitorar resultados sem a necessidade de um controle sufocante. Empresas como Google, Starbucks e Walmart só atingiram seu verdadeiro potencial quando seus líderes aprenderam a confiar em suas equipes e a descentralizar decisões. Por que seria diferente na gestão pública?
O paradoxo do controle nos ensina que, muitas vezes, o desejo de garantir a perfeição se torna o maior obstáculo para o sucesso. Seja no setor privado ou na administração pública, a centralização excessiva de decisões não é sinônimo de eficiência, mas sim de limitação.
A gestão moderna exige líderes que saibam delegar, criar processos eficientes e confiar em suas equipes. Somente assim é possível construir uma administração pública que realmente funcione, atenda às necessidades da população e impulsione o desenvolvimento.
Se grandes empresários aprenderam essa lição e transformaram suas empresas em impérios globais, talvez seja hora de a gestão pública seguir o mesmo caminho. Afinal, o maior inimigo do progresso não é a falta de controle, mas sim o medo de abrir mão dele.
Parafraseando o autor do vídeo no Instagram @leonardo.castelo, “Tentar controlar tudo, não é perfeccionismo, é incompetência disfarçada de dedicação”.
(*) JOSIAS PULQUÉRIO é Servidor Público, Administrador e Contador.
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