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Artigos Quinta-feira, 28 de Maio de 2026, 09:00 - A | A

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Quinta-feira, 28 de Maio de 2026, 09h:00 - A | A

ROBERTA HERINGER

Falar sobre mulheres é diferente de falar com mulheres

A repercussão da fala da Pastora Helena Raquel e o sequestro de pautas.

ROBERTA HERINGER

Existe uma dificuldade enorme de alguns grupos políticos compreenderem uma coisa muito simples: pauta social não pode virar propriedade privada ideológica. No momento em que isso acontece, a pauta começa a perder alcance popular, capacidade de diálogo e potência de transformação real. E talvez a repercussão da fala da pastora Helena Raquel explique exatamente isso.

É óbvio que movimentos feministas, pesquisadoras, ativistas e parlamentares progressistas tiveram papel fundamental para colocar a violência contra a mulher no centro do debate público brasileiro. Isso não é detalhe histórico, é fato. Durante décadas, foram esses grupos que insistiram em denunciar feminicídio, violência doméstica, abuso psicológico e dependência financeira feminina enquanto grande parte da sociedade ainda tratava tudo isso como problema íntimo, “briga de casal” ou exagero. Existe mérito político e social nisso. Muito mérito.Mas uma pauta deixa de crescer quando começa a funcionar como território ideológico fechado. Porque a violência contra a mulher não acontece apenas em universidades, coletivos urbanos ou ambientes politizados. Ela acontece dentro das periferias, dentro das igrejas, dentro das casas mais pobres do país, dentro das famílias conservadoras, dentro dos espaços onde muitas vezes o discurso progressista tradicional simplesmente não consegue entrar.

E talvez aí esteja o ponto mais importante dessa discussão.

A fala da pastora Helena Raquel rompeu uma fronteira de linguagem. Ela falou sobre violência doméstica para mulheres que dificilmente seriam alcançadas por certos discursos acadêmicos ou militantes. Não porque essas mulheres sejam alienadas, inferiores ou incapazes de compreender opressão. Mas porque pertencimento cultural importa. Linguagem importa. Identificação importa.

Existe uma diferença brutal entre falar sobre o povo e falar com o povo.

E foi exatamente isso que Mano Brown tentou dizer quando criticou a incapacidade de parte da esquerda de se comunicar com as camadas populares. Aquela fala nunca foi apenas sobre eleição. Foi sobre desconexão emocional, estética, cultural e linguística. Sobre como determinados grupos passaram a construir debates inteiros olhando mais para aprovação interna da própria bolha do que para capacidade real de diálogo social.

Porque comunicação não é apenas ter razão. Comunicação é conseguir atravessar muros culturais.

Uma mulher preta, periférica, evangélica, financeiramente dependente, muitas vezes vivendo violência dentro de casa, talvez não vá se reconhecer em certos códigos políticos construídos dentro de ambientes altamente escolarizados. E ignorar isso não torna ninguém mais progressista. Só torna a comunicação menos eficiente.

Enquanto alguns setores disputam pureza ideológica nas redes sociais, outras forças entenderam algo básico há muito tempo: pessoas se conectam primeiro pela emoção, pela identificação e pelo pertencimento. Igrejas entendem isso. Líderes populares entendem isso. Comunicadores populares entendem isso. Eles falam sobre medo, sobrevivência, culpa, família, abandono, esperança e dor usando a linguagem das pessoas comuns.

Parte da esquerda, em alguns momentos, parece ter substituído comunicação popular por validação acadêmica. E quando isso acontece, abre-se espaço para que outros grupos ocupem territórios sociais inteiros.

No fim, violência contra a mulher não deveria ser pauta “da esquerda”, assim como combate à fome não deveria ser pauta “da esquerda”, educação não deveria ser pauta “da esquerda” e dignidade humana não deveria depender de identidade ideológica. Porque tragédias sociais não escolhem partido antes de destruir vidas.

Quanto mais uma pauta se torna monopolizada politicamente, mais pessoas deixam de se sentir autorizadas a participar dela. E isso é perigosíssimo.
Talvez uma das grandes lições dessa repercussão toda seja justamente essa: nenhuma transformação social profunda acontece sem comunicação popular real. Sem linguagem acessível. Sem capacidade de entrar em territórios culturais diferentes. Sem ouvir pessoas fora da própria bolha.

Porque no fim das contas, uma pauta social só cumpre sua função quando consegue alcançar exatamente as pessoas que mais precisam dela.

(*) ROBERTA HERINGER é estrategista digital para perfis políticos e criadora do Estratégia Política Digital.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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