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Artigos Quarta-feira, 27 de Maio de 2026, 08:50 - A | A

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2026, 08h:50 - A | A

VANESSA MARQUES

A marmita de Zema e o fracasso da simplicidade performática

VANESSA MARQUES

A tentativa de Romeu Zema de transformar uma marmita em símbolo de simplicidade produziu o efeito contrário nas redes sociais. Em vez de fortalecer identificação popular, a cena virou meme, ironia e desgaste de imagem diante da enxurrada de críticas.

O episódio ajuda a compreender um problema recorrente da comunicação política contemporânea. Nem toda performance de autenticidade consegue produzir reconhecimento social legítimo.

ZEMA

 

A política digital passou a valorizar proximidade, espontaneidade e aparência de vida comum. Lideranças tentam cada vez mais construir a imagem de “gente como a gente” para reduzir a distância simbólica entre governantes e população. O problema aparece quando o gesto parece excessivamente calculado ou desconectado da percepção pública.

No caso de Zema, a marmita não produziu identificação. O gesto pareceu menos cotidiano e mais peça de pré-campanha, por isso virou piada em vez de ativo político.

A comunicação política contemporânea opera sob lógica de hiperexposição e julgamento permanente.

(*) VANESSA MARQUES é pesquisadora, professora e consultora em comunicação política, com mais de 20 anos de atuação no Legislativo, no Executivo, em campanhas e em mandatos. É mestra em Indústrias Culturais e Comunicação pela Universitat Politècnica de València, na Espanha, mestra em Comunicação Digital pelo IDP, em Brasília, e pós-graduada em Economia e Ciência Política. É coautora de livro na área da comunicação política, além de autora de artigos de opinião e publicações científicas.

Bolsonaro explorou esse repertório em 2018 ao apresentar informalidade, improviso e linguagem agressiva como sinais de autenticidade popular. Naquele contexto, a estratégia encontrou um eleitorado disposto a interpretar esse comportamento como ruptura com a política tradicional. No caso de Zema, a tentativa pareceu tardia e excessivamente calculada.

O caso também revela como a política atual funciona cada vez mais pela disputa de símbolos banais do cotidiano. Marmita, café, padaria, roupa simples, vídeo caseiro e linguagem informal passaram a integrar estratégias de construção de autoridade e pertencimento.

A marmita de Zema fracassou porque o eleitor não rejeitou a simplicidade. Rejeitou a tentativa de transformar simplicidade em figurino eleitoral.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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