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Segunda-feira, 25 de Maio de 2026, 08h:48 - A | A

JOÃO EDISOM

Empreender no Brasil

Entre a coragem econômica e os efeitos psicológicos

JOÃO EDISOM DE SOUZA

Empreender no Brasil nunca foi apenas uma atividade econômica. Trata-se, antes de tudo, de um exercício constante de resistência psicológica, moral e até existencial. O empresário brasileiro não enfrenta somente os desafios naturais do mercado, como concorrência, inovação e gestão. Ele lida com um ambiente estruturalmente instável, onde regras mudam com frequência, a carga tributária é complexa e a insegurança jurídica se torna parte do cotidiano. Nesse cenário, o ato de empreender deixa de ser apenas uma escolha racional e passa a ser uma prova contínua de resiliência, como já sugeria Joseph Schumpeter ao tratar o empreendedor como agente exposto à incerteza permanente.

Sob a ótica da psicologia, esse ambiente produz um estado crônico de estresse. O empresário vive sob pressão constante: pagar impostos, manter fluxo de caixa, lidar com inadimplência, gerir pessoas e prever riscos fora de seu controle. Esse acúmulo de tensões aproxima-se do que Hans Selye definiu como estresse prolongado, capaz de gerar desgaste físico e mental. Soma-se a isso o viés de perda descrito por Daniel Kahneman, no qual o medo de perder pesa mais que a possibilidade de ganho, alimentando uma “ansiedade estrutural”. Não é raro que esse quadro evolua para insônia, irritabilidade e exaustão emocional, colocando o empreendedor em estado contínuo de alerta.

Na filosofia, especialmente na tradição existencialista, encontramos um paralelo direto. O empresário brasileiro é lançado em um mundo de decisões constantes, sem garantias ou previsibilidade. Como argumenta Jean-Paul Sartre, a liberdade implica responsabilidade total e, portanto, angústia. Aqui, essa angústia não é apenas abstrata: ela se traduz no temor concreto de perder patrimônio, identidade e propósito construídos ao longo de anos.
Do ponto de vista sociológico, o problema se agrava. O ambiente institucional e político amplia a insegurança. Em uma sociedade marcada pela incerteza, como descreve Zygmunt Bauman, a instabilidade se torna regra. Discursos públicos baseados no medo, na crise permanente e na polarização substituem a previsibilidade necessária ao desenvolvimento econômico. O medo deixa de ser consequência e passa a ser instrumento de mobilização, conduzindo muitos ao extremismo e tornando-os suscetíveis a manipulações emocionais.

Nesse contexto, o empresário torna-se refém de narrativas alarmistas. Reformas inconclusas, mudanças tributárias confusas e crises amplificadas retoricamente alimentam a incerteza. O resultado é um comportamento defensivo: redução de investimentos, venda precipitada de ativos ou até a saída do país, não por estratégia, mas por desespero, em linha com o comportamento de aversão ao risco analisado por Kahneman.

Essa reação tem um custo humano profundo. A saúde mental do empresário se deteriora à medida que desaparece a capacidade de projetar o futuro. A lógica deixa de ser a do crescimento e passa a ser a da sobrevivência. Decisões passam a ser tomadas sob pressão emocional extrema, elevando o risco de erros e perdas desnecessárias.

Enquanto isso, há um paradoxo evidente: aqueles que contribuem para o ambiente de instabilidade frequentemente não sofrem suas consequências diretas. Parte da classe política se beneficia da amplificação do medo, convertendo insegurança em capital político. Discursos inflamados geram engajamento e votos, mas raramente se traduzem em propostas concretas ou soluções estruturais. Lembrando que o político precisa mais do problema do que da solução!

O empresário permanece na linha de frente. É ele quem gera empregos, movimenta a economia e sustenta a arrecadação do Estado que o pressiona.

Ainda assim, carrega o peso da instabilidade praticamente sozinho.

Diante desse cenário, a questão central deixa de ser apenas econômica e se torna profundamente humana: até que ponto é sustentável um sistema em que o custo psicológico de produzir e investir é tão elevado? Empreender, que deveria ser um ato de criação, transforma-se em sobrevivência emocional.

Talvez o maior desafio do Brasil não seja apenas reformar leis ou ajustar contas, mas reconstruir a confiança. Sem isso, o país seguirá assistindo ao esgotamento silencioso de seus empreendedores. E quando aqueles que produzem começam a desistir, o problema deixa de ser individual, torna-se estrutural.

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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