Lauda*, 45 anos, sem filhos, bióloga com vinte anos de pesquisa no Pantanal mato-grossense, conhece como poucos a lógica dos ecossistemas. Sabe que o rio não seca do nada e que o cerrado não queima sem razão. Para a natureza, tem paciência extraordinária. Para o próprio corpo, ela estava aprendendo a ter.
Foi num final de semana de calor em Cuiabá/MT que a sua amiga Íris* chegou diferente. Sem a pressa de sempre. Com um brilho de quem acabou de compreender algo.
Ela tinha participado de um workshop de constelação familiar na capital mato-grossense e explicou a experiência:
- Amiga, sabe quando tem um problema que continua do mesmo jeito?! Então… pode ser coisa de família. Bert Hellinger, lá nos anos 90, percebeu que aquele problema que se repete é igual a pó varrido pra baixo do tapete, você não vê, mas ele tá lá. E volta.
Lauda* ouviu com atenção. Pesquisou. Leu. Releu. Checou os dados daquele assunto até então desconhecido a ela. No final de semana seguinte, foi ao workshop.
No silêncio daquela sessão, uma mulher se sentou e disse, com voz baixa, que o motivo de estar lá era saber o porquê não conseguia engravidar.
Algo começou a se revelar: a bisavó dessa mulher tinha perdido três filhos. Três. Perdeu em silêncio, sem velório que coubesse a dor, sem colo que aguentasse o peso. Ela carregou a dor dos partos e das perdas sozinha.
E gravou no corpo crença de que a maternidade dói... A maternidade tira... A maternidade é perigosa.
Lauda* assistia a sessão de longe, de braços cruzados. E de repente as lágrimas desceram, de um lugar que ela nunca tinha mapeado.
Engravidar era o projeto, melhor dizendo, a metodologia dela. Tinha planejamento, ciclo monitorado, suplementação vitamínica. Tinha aplicativo? Cinco. Tinha consulta com especialista? Com terceira opinião que contradizia à segunda. Tinham exames que ela pronunciava sem titubear.
E tinha aquela dor que não aparece em laudo nenhum: a dor mansa, persistente, de quem espera por um sinal que o corpo não dá. Sem explicação que satisfaça. Sem protocolo que alcance. Sem nome que caiba. De quem tenta, recomeça, tenta de novo, e aprende, na marra, que há coisas que a metodologia não alcança.
Na visão sistêmica, quando mulheres de uma mesma linhagem perderam filhos, gestaram com medo crônico ou pariram em solidão, enterraram a maternidade junto com aquela dor, trauma que não desaparece. Ele migra se não visto.
Ver isso não é culpar os ancestrais nem abrir mão de acompanhamento médico. E sim, com respeito e amor, devolver o peso a quem pertence e libertar o próprio corpo para uma história nova.
A maternidade não é apenas o ato biológico do parto. É um ato de amor continuado, construído, escolhido a cada dia. O amor serve, cuida, floresce e encontra sempre o seu caminho. O amor transborda e alcança o sentido da vida onde quer que esteja.
Cristiane Sobral, no poema Caminhos (Não vou mais lavar os pratos, 2011), transforma a ausência em travessia:
“Os filhos que eu não pari/ fizeram-me de outra forma existir (...)/ No meio do caos encontrarei a saída/ Onde outros filhos me esperam/ Agradeço aos filhos que não tive.../ Por eles construirei pontes/ a um novo coração.”
As raízes de uma árvore morta continuam alimentando o solo por décadas. Que raiz invisível da sua linhagem ainda alimenta o silêncio do seu corpo?
*Os personagens são fictícios.
(*) BRUNA BERTHOLDO é Escritora. Poeta. Consteladora Familiar. Neurociência aplicada.
Instagram: @brunabertholdocf
Substack: @brunabertholdo
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