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Artigos Quarta-feira, 20 de Maio de 2026, 11:53 - A | A

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Quarta-feira, 20 de Maio de 2026, 11h:53 - A | A

EDILSON ALMEIDA

Dirceu, Dirceu...

EDILSON ALMEIDA

O ano era 1992 — creio que era. A memória, quando gosta demais de uma história, às vezes troca a data, mas conserva intacta a essência.

Dirceu Carlino pleiteava continuar como secretário de Comunicação da Assembleia Legislativa. Tinha, no setor, um braço forte, a jornalista Lígia Lemos, mãe do querido e estimado Marcão Lemos.

Ali, naquela secretaria, reunia-se uma pequena confraria de baluartes do ofício em Mato Grosso: Maria Luiza Nascimento, Antônio Pádua, Américo Correa, Lorenzo Falcão, Margareth Botelho, Edson Pires, Adilson Lopes... Sim, Adilson Lopes, o “Baixo” — e esta reminiscência tem muito a ver com ele.

A Assembleia Legislativa funcionava no palácio onde hoje está a Câmara de Vereadores. A Secretaria de Comunicação ocupava a primeira sala do corredor esquerdo do saguão principal. Era uma espécie de alfândega do jornalismo político: por ali todos passavam, todos perguntavam, todos farejavam alguma novidade.

Eu também “batia ponto” diariamente naquele território em busca de uma informação fresca, de uma frase atravessada, de um rumor com cheiro de notícia.

Naquele ano começava uma nova legislatura e os cargos principais iam sendo preenchidos aos poucos, no compasso próprio das composições políticas.

Caberia ao primeiro-secretário, Roberto França, indicar o secretário de Comunicação. Roberto e Dirceu eram amigos. Por isso, Dirceu acreditava — com a fé dos homens que já se consideram reconduzidos antes mesmo da publicação do ato — que continuaria no cargo.

Enquanto aguardava a nomeação, deixou a sala que ocupava, onde costumava ler, com zelo quase litúrgico, todos os jornais locais e nacionais, e passou a dividir espaço nas mesas da redação. Roberto, na sua eterna meninice, resolveu brincar com os nervos do velho amigo. Para sacanear Dirceu, foi postergando a indicação.

Passou-se um mês. Nada. Mais uma semana. Nada. Outra semana começava sob expectativa. Nada outra vez.

E, como nada alimenta mais os corredores do poder do que a indefinição, começaram os rumores: diziam que viria outro nome, que havia resistência, que alguém soprara diferente no ouvido de alguém. Cada jornalista que entrava na sala da Primeira Secretaria produzia um pequeno terremoto.

Roberto, talvez por malícia, talvez por puro gosto teatral, fazia questão de reunir os jornalistas. Dirceu, o velho Dirceu, já andava tomado por uma inquietação quase física. Foi então que Adilson Lopes decidiu entornar o caldo. Na porta da sala do secretário de Comunicação, afixou uma cartolina com a sentença fatal: “Breve reabriremos sob nova direção.”

Depois, com a paciência dos grandes conspiradores, ficou esperando Dirceu chegar. Não demorou. Quando viu o cartaz, Dirceu arregalou os olhos. O vermelho do rosto subiu como anúncio de tempestade. Houve um segundo de silêncio — aquele breve intervalo que antecede as grandes explosões de riso.

E então veio a gargalhada geral.

— Quem foi o cretino que fez isso? — perguntou.

— Está contra mim!

Quando o burburinho se dissipou, Dirceu prometeu “caçar” o autor da façanha e demiti-lo. Promessa que, evidentemente, jamais se cumpriria.

Aquele coração generoso, amigo, de riso fácil e indignação breve, nunca permitiria tamanho disparate.

Eu poderia escrever muitas outras passagens sobre Dirceu Carlino, com quem tive convivência em períodos bons da vida — inclusive frequentando sua casa e o seu bar.

Era uma companhia deliciosa: dono de boas histórias, boas informações e de um tom de conversa que parecia sempre trazer, junto, um café passado na hora.

Cabem ainda muitos superlativos ao velho Dirceu, e nenhum deles pareceria exagerado.

Marcou época por onde passou. Do começo em Cuiabá, com seu programa na Rádio Cultura, à TVCA, onde, no horário depois do almoço, criou o personagem “porco-político”; depois, em tantas outras trincheiras da comunicação, até chegar à memorável dupla com Edivaldo Ribeiro — que eu tinha o prazer de ouvir quase diariamente.

Hoje, em sua homenagem, resta-me apenas agradecer.

Agradecer pelas ocasiões em que a vida, generosa em seus desvios, me permitiu conviver com Dirceu Carlino.

Vai, velho Dirceu. E leva contigo essa gargalhada — a mesma que ainda ecoa, teimosa e viva, nos corredores da nossa memória.

(*) EDILSON ALMEIDA é jornalista atualmente em Brasilia.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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