Há algo de profundamente perturbador e cada vez mais evidente no comportamento político contemporâneo: a substituição da razão pelo impulso, do julgamento pelos afetos, da justiça pelo instinto de torcida. Em tempos de polarização, não se busca mais compreender os fatos, mas apenas confirmar crenças. Não se espera mais investigação, mas apenas validação emocional.
Criou-se uma lógica perversa: para o adversário, basta a suspeita para condenação; para o aliado, nem mesmo evidências são suficientes para dúvida. O devido processo legal, a apuração rigorosa e o respeito às instituições tornaram-se obstáculos incômodos para uma sociedade que passou a julgar antes de entender e, muitas vezes, sem qualquer interesse em entender.
A psicologia explica esse fenômeno com desconcertante clareza. O viés de confirmação, estudado por Daniel Kahneman, faz com que indivíduos aceitem prontamente qualquer informação que reforce suas convicções e rejeitem aquilo que as desafia. Não se trata de ignorância, mas de um mecanismo cognitivo profundamente humano e perigosamente explorado no ambiente político.
Já a dissonância cognitiva, conceito de Leon Festinger, revela o desconforto que surge quando fatos entram em choque com crenças. A solução mais comum? Não é revisar a crença, mas distorcer o fato. Assim, denúncias contra figuras idolatradas são tratadas como perseguição; acusações contra adversários são imediatamente convertidas em verdades absolutas.
O Brasil oferece exemplos didáticos dessa distorção. O caso de Fábio Luís Lula da Silva foi, durante anos, explorado como símbolo de corrupção por setores da opinião pública, independentemente da distinção entre suspeita, investigação e comprovação. Para outros, tratava-se de construção narrativa com fins políticos. O fato, em si, tornou-se secundário diante da utilidade simbólica.
No outro polo, Flávio Bolsonaro também esteve envolvido em controvérsias amplamente difundidas, como a divulgação de áudios e interpretações sobre sua relação com Fabrício Queiroz e menções a projetos como a produção de um filme. Para uns, tratava-se de evidência suficiente de irregularidade; para outros, mera distorção ou exploração política de conteúdos fragmentados.
O padrão se repete com precisão quase matemática: não importa o conteúdo, importa quem é o personagem. A régua moral não é fixa, ela se adapta à conveniência ideológica.
Na sociologia, Henri Tajfel já demonstrava como a identidade de grupo molda percepções e julgamentos. Na política atual, isso se radicalizou: o indivíduo não defende ideias, defende pertencimento. E, ao defender o grupo, abdica da crítica. Questionar o líder passa a ser visto como traição; atacar o adversário, como virtude.
A filosofia política há muito alertou para esse risco. Hannah Arendt advertiu que, quando os fatos deixam de ter importância, a própria realidade se fragiliza. Já Jürgen Habermas sustentou que a democracia depende do debate racional algo incompatível com julgamentos baseados em impulsos emocionais e lealdades cegas.
No campo da ciência política, Cass Sunstein descreve o efeito das “câmaras de eco”: ambientes onde apenas opiniões semelhantes circulam, reforçando certezas e eliminando dúvidas. O resultado é uma sociedade que não discute, apenas repete.
O mais grave, no entanto, é a infantilização do debate público. A política passou a operar sob uma lógica primária de heróis e vilões. Não há nuance, não há complexidade, não há dúvida. O “nosso” é sempre vítima ou inocente; o “deles” é sempre culpado. E, nesse cenário, o devido processo legal torna-se quase uma formalidade dispensável, um detalhe técnico que atrapalha a narrativa.
Essa dinâmica não é apenas um problema de comportamento, é uma ameaça institucional. Quando a sociedade passa a legitimar condenações baseadas em afinidade ideológica, ela abre mão dos fundamentos do Estado de Direito. A justiça deixa de ser um princípio universal e passa a ser um instrumento seletivo.
No fim, o que está em jogo não é a reputação de um político ou outro, mas a própria capacidade coletiva de distinguir fato de opinião, evidência de narrativa, justiça de vingança.
Uma democracia madura exige mais do que eleições, exige cidadãos capazes de desconfiar de si mesmos, de suas certezas e de suas paixões. Exige, sobretudo, a disposição de esperar pelos fatos, mesmo quando eles contrariam aquilo que se deseja acreditar.
Sem isso, a política continuará sendo apenas um espetáculo emocional, onde se odeia sem critério, se ama sem limite e se julga sem pensar.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
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