Ao que tudo indica, no Brasil somos mais tolerantes com os corruptos do que com os honestos.
Atenção! Não afirmo que se aprecie a corrupção. Todos a condenam, inclusive os corruptos que a praticam.
No entanto, os corruptos são facilmente perdoados, ao contrário das pessoas íntegras.
No Brasil, uma conduta de integridade sempre será vista com suspeita e será alvo de não pequenas hostilidades e represálias. Um exemplo recente? Os gerentes da Caixa Econômica Federal que se opuseram a uma funesta operação de R$ 500 milhões com “papéis podres” do Banco Master foram sumariamente afastados. Afinal, na “cultura” dominante, os cargos de “confiança’ não são para aqueles que zelam pelo patrimônio da instituição para a qual trabalham, mas para os que retorcem pareceres para agradar os interesses de quem os nomeia, mesmo que ao arrepio da lei e da probidade.
De outro lado, há múltiplos casos de corruptos confessos, que celebraram com algum Ministério Público acordos de colaboração premiada e/ou de não-persecução, inclusive devolvendo alguma pequena fração dos recursos públicos que abocanharam, mas que preservam grande prestígio junto a autoridades, sendo figuras frequentes nos dispositivos de honra em cerimônias oficiais. Os mais sagazes conseguem homenagens como patronos em formaturas ou nomeações para cargos em que movimentam importantes orçamentos.
O sujeito íntegro não é um ser especialmente corajoso, inteligente ou virtuoso. É aquele que diz não, quando tem que dizer não. Não pretende ser e não é um super-herói, nem mesmo um mini-herói. É apenas uma pessoa íntegra, que cumpre o seu dever.
Todavia, essa postura atrapalha os negócios. Cria constrangimentos. Quebra a harmonia de decisões colegiadas teratológicas, mais facilmente justificadas quando unânimes. Rompe pactos subterrâneos. Viola protocolos sagrados, ocultos e inconfessáveis. E isso é imperdoável. E isso é imprescritível.
Enquanto o corrupto cultiva uma imagem de “gente boa”, o sujeito íntegro é estigmatizado como sendo um chato, um soberbo, um antipático, um vaidoso, alguém que “quer aparecer” apontando ilegalidades e/ou falcatruas.
Pouco importa se a doação do corrupto para a entidade beneficente é uma mínima porção da dinheirama que desviou. Ele recebe aplausos na festa da igreja, no bloco carnavalesco e no campeonato de esporte amador e está sempre sorridente nas redes sociais e nas páginas de frivolidades.
Simultaneamente, o sujeito íntegro é alvo de maledicências e intrigas. Sua contribuição é apagada e é preterido em todas as oportunidades profissionais, tanto no setor público como no privado.
Um corrupto carioca muito conhecido e multicondenado cumpre suas penas fazendo vídeos da ensolarada piscina de sua cobertura no Leblon e vende sua expertise em consultoria para prefeituras. As mesmas que descartam o currículo das pessoas íntegras que buscam oportunidades de trabalho.
Em nosso país, os corruptos são festejados e temidos e os sujeitos íntegros silenciados e marginalizados.
Ainda assim, não há nenhuma dúvida. É muito melhor ser íntegro, mesmo sabendo que por isso se paga um preço bem alto. Seguir o conselho de Jesus no Evangelho de Mateus (7: 13-14) e entrar pela “porta estreita”. Não transigir com o erro, não se omitir diante da injustiça, não se calar e não desistir.
Se diante do poder a integridade é imperdoável e imprescritível, para a consciência ela deve ser inegociável e irrenunciável.
(*) LUIZ HENRIQUE LIMA é professor e conselheiro independente certificado.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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