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Artigos Quinta-feira, 14 de Maio de 2026, 08:47 - A | A

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Quinta-feira, 14 de Maio de 2026, 08h:47 - A | A

BRUNA BERTHOLDO

Debaixo da armadura, existe uma filha

BRUNA BERTHOLDO

“A filha que não se sentiu vista
ensina a filha a se esconder.
No silêncio, a dor persiste
no que não soube receber.”

Ela entrou pela porta como se o mundo devesse parar.

Vestido que varria o chão, salto que desafiava a física, penduricalhos tilintando e a bolsa de grife anunciavam a sua chegada.

Pomposa* não precisava de ninguém.

O salão de beleza pensava isso.

Na clínica de estética, faltava só o tapete vermelho na entrada.

E a joalheria? Havia aprendido a abrir a porta só para não atrasar a cena.

O que nem todos sabiam era que as filhas reclamavam que ela não as via e nem as ouvia.

Buscou a constelação familiar e foi revelado que quanto mais ela se distanciava da mãe, mais as filhas julgavam ela.

Depois do silêncio e dos olhos lacrimejados, ela contou a verdade: fazia mais de 20 anos que não falava com a mãe. Não precisava dela. Era o que dizia.

Aquele distanciamento não nasceu nela. A dor que não é nomeada não desaparece.

Antes mesmo da mãe nascer, os primeiros vestígios já habitavam a avó. Três gerações carregando o mesmo padrão no mesmo corpo, compartilhando o mesmo ambiente biológico.

É o que afirma Mark Wolynn, no livro Não Começou com Você.

O pioneiro biólogo celular Bruce Lipton demonstra que o próprio DNA responde a emoções, crenças e pensamentos negativos ou positivos. O corpo guarda o que a mente recusa sentir.

Por isso, padrões de comportamento são herdados não apenas pela genética, mas pela atmosfera emocional que respiramos antes mesmo da concepção.

As filhas de Pomposa* não haviam escolhido aquele distanciamento. Elas o herdaram.

Entender isso não justifica. Mas modifica o posicionamento.

Nem toda relação com a mãe é fácil. Reconciliar com ela não é fingir que não tem defeitos nem apagar as mágoas com um abraço de roteiro.

É reconhecer que, apesar do passado, ela também foi filha antes de ser mãe. Ela carregou feridas que não escolheu, de forma consciente.

Ainda assim, abriu a porta da vida, o que a torna sagrada.

A história familiar, independente de como tenha sido, habita em nosso interior. Excluí-la não a apaga. Só aprofunda o sofrimento e o repassa, de forma silenciosa, para as futuras gerações.

Foi exatamente o que as filhas de Pomposa* sinalizavam, ao dizerem: “mãe, você não nos ouve nem presta atenção em nós”. E, assim, mostrarem que ela mesma não havia sido vista nem ouvida.

Após a sessão de constelação familiar, o salto continuava alto. O cabelo, impecável. Os penduricalhos, no lugar.

Mas algo havia mudado no jeito de caminhar. Os pés dela tocaram o chão com uma leveza que ela não reconhecia.

Era o começo. Não da perfeição. Da cura.

O que você está passando adiante, sem perceber ou sem querer, que um dia chegou até você da mesma forma?

O texto tocou algo em você? Compartilhe com uma mulher que precisa ler.

*Pomposa é um personagem fictício.

(*) BRUNA BERTHOLDO é Escritora. Poeta. Consteladora Familiar. Neurociência aplicada.
Instagram: @brunabertholdocf
Substack: @brunabertholdo

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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