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Artigos Segunda-feira, 01 de Junho de 2026, 15:19 - A | A

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Segunda-feira, 01 de Junho de 2026, 15h:19 - A | A

VICENTE ALBUQUERQUE MARANHÃO

A cultura não pode esperar

VICENTE ALBUQUERQUE MARANHÃO

Poucas cidades brasileiras possuem uma identidade cultural tão singular quanto a de Cuiabá. Aqui convivem tradições centenárias, saberes populares, manifestações religiosas, festas tradicionais, a culinária do peixe, do arroz com pequi e da mojica, o siriri, o cururu, as festas de santo, os quintais culturais, a viola de cocho, as expressões indígenas, afro-brasileiras e migrantes que ajudaram a construir a formação social mato-grossense. A cultura cuiabana não é apenas um patrimônio histórico. Ela é uma forma de existir, de se reconhecer e de transmitir memória entre gerações.

Apesar dessa riqueza, a relação entre o poder público municipal e a cultura sempre foi marcada por desafios. Ao longo das últimas décadas, os trabalhadores da cultura de Cuiabá aprenderam a conviver com a descontinuidade de políticas públicas, a irregularidade dos investimentos e a ausência de mecanismos permanentes de fomento capazes de garantir estabilidade ao setor. Mudam-se governos, secretários e prioridades administrativas, mas permanece uma sensação recorrente entre artistas, produtores culturais, técnicos, artesãos e agentes culturais: a de que a cultura é frequentemente tratada como uma pauta secundária.

Esse histórico gera consequências que vão muito além do campo artístico. Quando as políticas culturais deixam de ser implementadas, as oportunidades de desenvolvimento social também desaparecem. Jovens deixam de participar de processos formativos, grupos culturais interrompem suas atividades, espaços independentes fecham as portas e profissionais qualificados abandonam o setor em busca de alternativas econômicas mais estáveis. O resultado é um ciclo permanente de precarização que impede a consolidação de carreiras e dificulta a mobilidade social daqueles que fazem da cultura sua profissão.

A cultura é trabalho. Essa afirmação, embora pareça simples, ainda enfrenta resistência em diversos espaços de decisão. Existe uma percepção equivocada de que a atividade cultural se resume à produção artística, ignorando toda a cadeia produtiva por trás de um espetáculo, de um festival, de uma oficina ou de uma exposição. Cada ação cultural movimenta produtores, técnicos de som e de iluminação, comunicadores, designers, fotógrafos, videomakers, costureiras, montadores, motoristas, fornecedores, comerciantes e inúmeros outros profissionais. Quando a cultura cresce, a economia local cresce junto.

É justamente nesse contexto que a Política Nacional Aldir Blanc representa uma das mais importantes conquistas da cultura brasileira. Diferentemente de iniciativas pontuais do passado, a PNAB foi concebida como uma política estruturante, capaz de garantir recursos contínuos a estados e municípios. Seu objetivo não é apenas financiar projetos. Seu propósito é criar condições para que a cultura se torne uma política pública permanente, capaz de promover o desenvolvimento econômico, a inclusão social e o fortalecimento da cidadania.

Entretanto, há uma diferença fundamental entre possuir recursos e transformá-los em resultados. O dinheiro parado nas contas públicas não gera empregos. Não fortalece espaços culturais. Não preserva patrimônios. Não alcança comunidades periféricas. Não estimula a produção artística. Não cria oportunidades para jovens. O recurso só cumpre sua função social quando é executado.

Nesse sentido, a não execução dos recursos da PNAB em Cuiabá acarreta impactos concretos para toda a sociedade. O prejuízo não se limita aos artistas que aguardam editais. Ele alcança coletivos culturais, grupos de tradição popular, produtores independentes, pontos de cultura, espaços comunitários e todos aqueles que dependem da circulação desses recursos para manter suas atividades. Mais do que isso, afeta diretamente o acesso da população à cultura.

Cada edital que deixa de ser lançado representa oficinas que deixam de acontecer, apresentações que deixam de chegar aos bairros, ações de formação que deixam de atender crianças e jovens, festivais que deixam de movimentar a economia local e iniciativas que deixam de fortalecer a identidade cultural cuiabana. Em uma cidade marcada por profundas desigualdades sociais, a cultura desempenha um papel fundamental na criação de oportunidades, especialmente em territórios historicamente excluídos de investimentos públicos.

Existe também uma dimensão democrática nessa discussão. A Constituição Federal reconhece a cultura como um direito. Portanto, a execução da Política Nacional Aldir Blanc não deve ser compreendida como um favor concedido ao setor cultural, mas como o cumprimento de uma obrigação do Estado perante seus cidadãos. Os recursos existem porque há uma política pública nacional construída para garantir esse direito. Quando a execução não ocorre, o que está sendo adiado não é apenas um investimento financeiro. É o acesso da população a um direito constitucional.

Além disso, a cultura desempenha um papel estratégico na construção da própria imagem de Cuiabá. Em um mundo cada vez mais conectado pela economia criativa, cidades que valorizam sua identidade cultural tornam-se mais atrativas para o turismo, para investimentos e para a geração de novas oportunidades econômicas. Preservar e fortalecer manifestações como o siriri, o cururu, a viola de cocho, os festejos tradicionais e as múltiplas expressões culturais contemporâneas não é apenas uma questão de memória. É uma estratégia de desenvolvimento.

A execução da PNAB oferece uma oportunidade histórica para que Cuiabá fortaleça seu ecossistema cultural, amplie a participação social e transforme a cultura em um instrumento efetivo de desenvolvimento humano e econômico. Porém, para que isso aconteça, é necessário que os recursos cheguem à ponta, que os editais sejam publicados e que a política pública cumpra sua finalidade.

A cultura não pode continuar ocupando o último lugar na fila de prioridades. Não porque os artistas sejam mais importantes do que outros setores da sociedade, mas porque a cultura atravessa todos eles. Ela dialoga com a educação, a economia, o turismo, a inclusão social, a memória coletiva e a própria construção da cidadania.

Quando a cultura espera, não são apenas os trabalhadores da cultura que aguardam. Esperam as comunidades, os jovens, os espaços culturais, os patrimônios, os processos formativos e as oportunidades de desenvolvimento que poderiam estar sendo construídos hoje.

Por isso, afirmar que a cultura não pode esperar, não é um simples bordão. É o reconhecimento de que o atraso na execução das políticas culturais acarreta impactos reais na vida das pessoas. É que uma cidade que deseja construir um futuro mais justo, criativo e democrático precisa compreender que investir em cultura não é um gasto. É uma escolha de desenvolvimento.

*VICENTE DE ALBUQUERQUE MARANHÃO é produtor cultural, vice-presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Cuiabá e fundador da Vendetta Produções. Dedica sua trajetória à defesa da cultura como instrumento de cidadania, desenvolvimento e transformação social. Entre reuniões, festivais e editais, segue acreditando que um bom disco do Sepultura ainda ajuda a entender o mundo.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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