A cadeira onde atendo como psicóloga, sem esquecer que também sou visagista, profissional que utiliza técnicas para adequar a imagem externa à personalidade e à identidade do indivíduo, revela cicatrizes que os prontuários de saúde nem sempre alcançam. O Janeiro Branco, é um convite à reflexão sobre a saúde mental. No entanto, para a mulher negra, trata-se de um reforço a jornada terapêutica indissociável do enfrentamento das tensões com a própria imagem.
Ao contrário do que sugere o senso comum, o cuidado emocional não é neutro; ele precisa considerar os contextos sociais e raciais que atravessam cada sujeito. No Brasil, essa necessidade é urgente: segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país tem a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo. Pesquisas suplementares indicam que o recorte de raça e gênero aprofunda esse abismo, pois mulheres negras estão mais expostas a gatilhos de estresse crônico devido ao racismo estrutural, o que impacta diretamente sua saúde emocional e autoestima.
Para essas mulheres, o impacto de padrões estéticos eurocentrados, historicamente institucionalizados como o único modelo de beleza e profissionalismo desde o período colonial, vai muito além da vaidade. Trata-se de uma estrutura que desumaniza corpos e invalida características naturais. Nesse cenário, o cabelo deixa de ser apenas uma escolha estética e passa a ser um território de disputa identitária. Embora o setor de produtos para cabelos crespos cresça cerca de 10% ao ano, o consumo ainda é muitas vezes impulsionado por uma pressão de “controle” dos fios, e não necessariamente pela liberdade.
Como psicóloga, noto que o sofrimento psíquico aparece na forma como a mulher habita o próprio corpo. Recordo-me de um caso em que uma cliente relatou que, após décadas alisando o cabelo para “parecer mais confiável” em cargos de liderança, sentiu uma crise de pânico ao cogitar usar o cabelo natural em uma reunião. O medo não era da estética, mas da perda de humanidade e autoridade que o racismo projeta sobre os fios crespos.
Essa rejeição aos fios naturais não é episódica; ela se inscreve na infância e se atualiza a cada olhar de desaprovação na vida adulta. Segundo a autora Grada Kilomba (2019), ao falar da “memória do trauma”, compreendemos que o corpo guarda aquilo que a mente, muitas vezes, tenta esquecer. O racismo, travestido de padrão de beleza, atua como uma ferida silenciosa que impacta o direito de existir com naturalidade. Esse mecanismo atinge também homens negros e pessoas racializadas, que frequentemente podam sua expressão estética para evitar estigmas de “agressividade” projetados pela branquitude.
É fundamental afirmar: a ansiedade não nasce com essas mulheres; ela nasce da tentativa constante de sobreviver sendo outra pessoa. É o esforço contínuo de vigiar o tom de voz, conter gestos e controlar os fios para caber em um modelo que nunca as acolheu. Esse esforço cobra um preço alto: a exaustão. Quando o processo analítico permite o caminho de volta para si, ocorre uma reorganização interna profunda. A aceitação capilar, aqui, não é o fim da terapia, mas uma poderosa ferramenta de fortalecimento da identidade.
Consciência é cuidado!
O Janeiro Branco nos convida à prevenção. Olhar para a relação com a imagem é um gesto terapêutico e político. Para profissionais de saúde, fica o alerta: é impossível tratar a ansiedade de uma pessoa racializada sem considerar como o mundo recebe o seu corpo.
Cuidar da beleza negra é cuidar da saúde emocional. É permitir que o corpo descanse do papel de vigilante de si mesmo. Que possamos ampliar este debate, compreendendo que cuidar da mente passa, necessariamente, por reconhecer, respeitar e valorizar a pluralidade de nossas histórias.
*CAROL BISPO é psicóloga, visagista, especialista em cabelos afros e cacheados e pesquisadora em saúde mental da população negra. Instagram: @carolbispovisagismo
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