Vivemos em uma era em que o segundo deixou de ser uma ideia filosófica abstrata e se tornou uma vibração quantificável. O relógio atômico registra a transição dos elétrons entre os níveis de energia, possibilitando a medição do tempo com uma precisão quase absoluta. A ciência removeu o tempo da incerteza cotidiana e o converteu em uma informação objetiva. GPS, telecomunicações, operações financeiras internacionais — tudo depende dessa precisão invisível. Se somos capazes de entender o segundo com tanta clareza, por que o propósito da vida ainda é um mistério?
A questão não é de natureza científica, mas filosófica. O tempo é mensurável; o sentido, não. O físico se concentra em fenômenos que podem ser repetidos; no entanto, o ser humano não é uma simples repetição. Cada vida é única, contextualizada e histórica. A exatidão do relógio atômico evidencia a força da razão instrumental, porém não responde à pergunta essencial que perturbava Sócrates: "como devemos viver?". A técnica proporciona métodos; a filosofia questiona propósitos.
Aristóteles ensinava que todo ser tende a um fim — a eudaimonia, uma vida realizada segundo a virtude. Para ele, o propósito não era um segredo cósmico, mas algo a ser construído pela prática ética. Séculos depois, Kant afirmaria que o ser humano é um fim em si, dotado de dignidade, não mero instrumento de interesses alheios. Em ambos os casos, o sentido da vida não se mede; se decide.
No entanto, a modernidade gerou uma tensão sem precedentes: à medida que dominamos os mecanismos do mundo físico, mais percebemos o silêncio do universo em relação às nossas angústias existenciais. Nietzsche afirmou que "Deus está morto", não em tom de celebração, mas como um diagnóstico de um vazio. Se uma ordem transcendente não fornece sentido, ele deve ser gerado. Camus, por outro lado, propôs que o absurdo surge do conflito entre a busca humana por sentido e a indiferença do mundo. O relógio atômico indica o segundo, mas não responde à pergunta "para quê?".
Talvez o segredo não esteja no cosmos, mas na própria natureza do sentido. O propósito da vida não é uma constante universal, como a frequência do césio; é uma construção narrativa. Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, afirmava que o sentido não é inventado arbitrariamente, mas descoberto na responsabilidade diante das circunstâncias. Mesmo no sofrimento extremo, dizia ele, o ser humano conserva a liberdade última: escolher sua atitude.
A ciência mede o tempo porque o tempo físico é regular, previsível, replicável. Já o propósito pertence ao campo da liberdade, da escolha, do valor. Ele não pode ser reduzido a fórmula porque envolve consciência e responsabilidade. Se fosse mensurável, seria imposto; ao ser indeterminado, torna-se espaço de autonomia.
Há, ainda, um paradoxo. A precisão extrema do relógio atômico evidencia que o universo é inteligível. No entanto, essa inteligibilidade não inclui instruções morais. A natureza explica como as coisas acontecem; não por que devemos agir de determinada maneira. A diferença entre “ser” e “dever ser” já apontada por David Hume, permanece intransponível por instrumentos científicos.
O propósito da vida pode estar “em segredo” porque não se trata de algo a ser descoberto, mas de uma missão a ser cumprida. O segundo atômico é o mesmo para todos, mas o sentido não. O tempo é compartilhado; o significado é único. E é precisamente essa indeterminação que mantém a dignidade humana. Enquanto o relógio marca o momento, a vida pede interpretação.
No final, a questão pode estar invertida. Não é o propósito que se esconde; somos nós que ainda não tomamos uma decisão definitiva sobre o que fazer com o tempo que aprendemos a quantificar.
É por aí...
(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto) tem formação em Filosofia, Sociologia e Direito ([email protected])
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