Ei, pare um instante e lembre-se de Olívia Palito. A mulher magra, de vestido vermelho, sempre no centro da disputa entre Popeye e Brutus. Durante décadas, aceitamos Popeye como entretenimento inofensivo: força, humor e uma “donzela” em jogo. Vista com olhos adultos, a cena se transforma. O riso encobria uma violência estrutural, apresentada como diversão.
Olívia não é a figura frágil dos contos de fadas. Trabalha e vive com autonomia. Ainda assim, nas relações afetivas, perde espaço e poder de decisão. A independência econômica não se converte em liberdade de escolha. No enredo, ela existe, mas não decide. Oscila entre a brutalidade e a falsa proteção porque a lógica da história nunca lhe deu o direito de escolher.
O silêncio de Olívia é tratado como traço de personalidade. A insegurança e o medo servem de cenário para a disputa masculina. O que deveria provocar reação vira espetáculo.
Brutus não se aproxima de Olívia por afeto, mas por rivalidade com o outro marinheiro. Sua presença é disputa, não vínculo. Olívia não ocupa o centro da relação; é deslocada da decisão. A força resolve o conflito.
Nada disso é casual. A violência deixou de causar revolta e passou a integrar o enredo. Ao se repetir, foi sendo aceita como parte da história.
No Brasil, essa discussão é também jurídica. A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência contra a mulher: física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. O que por muito tempo foi tratado como conflito de natureza privada passou a ser tema de política pública, de interesse social e de responsabilidade do Estado.
A violência contra a mulher é progressiva. Começa com sinais claros e ganha força. Quando ignorados, esses sinais apontam para risco real, muitas vezes fatal. As medidas protetivas existem para interromper essa escalada antes que a violência se torne irreversível.
O feminicídio não começa no crime. É resultado de sinais que se agravam ao longo do tempo. Eles aparecem na fala, no gestual, no controle, na intimidação, no isolamento e na agressão.
Enfrentar a violência contra a mulher exige políticas públicas eficazes, redes de proteção acessíveis e atuação institucional permanente. Punição é resposta tardia e, quando chega, significa que a prevenção falhou e a mulher já se tornou estatística.
Enquanto isso persistir, a história não avança e a sociedade não evolui. Mudam-se os personagens, permanece a violência. A cultura troca os nomes, os noticiários divulgam as estatísticas, a polícia registra a ocorrência e o Poder Judiciário recebe mais um processo.
(*) ANDRÉA MARIA ZATTAR é advogada trabalhista, previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; membro efetivo da Comissão de Direito do Trabalho da OAB/MT, articulista e ativista em causas sociais.
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