Dia desses, no supermercado, entre o setor de hortifrúti e a gôndola dos biscoitos integrais — território esse em que a humanidade contemporânea, já não sabendo distinguir culpa de apetite, tenta comprar fibra para absolver o recheio —, encontrei um amigo que há muitos anos não via com a frequência necessária para que se pudesse ter dele uma opinião realmente atual. Isto é, eu o conhecia bastante para reconhecer-lhe a voz, o jeito de inclinar a cabeça e até um certo cacoete moral de discordar antes de compreender; mas não o bastante para saber em que estágio de deterioração espiritual o algoritmo já o havia encontrado.
(Se o leitor acha severa a expressão, peço-lhe paciência: ainda não chegamos ao pior.)
Vinha ele com um carrinho pequeno, desses de compras rápidas, o que sempre me pareceu uma forma de ficção. Ninguém entra num supermercado para comprar pouco. A pessoa entra para adquirir alface e sai com pistache, detergente importado, coalhada de kefir e uma promoção de atum em água que nunca pediu a Deus nem ao gerente. O carrinho pequeno, portanto, é uma profissão de fé na própria disciplina. E meu amigo o empurrava com aquela altivez dos que ainda acreditam mandar na lista, quando na verdade já foram vencidos pelo corredor dos ultraprocessados.
Avistou-me, abriu um sorriso de surpresa moderada — a surpresa total está em desuso, como tantas virtudes — e veio em minha direção.
— Rapaz, você! — disse, abraçando-me com um braço só, porque o outro segurava o telefone. — Ainda escreve aqueles textos compridos?
Achei graça no advérbio. Não me perguntou se eu escrevia bem ou mal, se escrevia a sério, se tinha encontrado o tom, a música, a nervura da frase. Não. A questão essencial, para ele, era métrica de açougue: comprido ou curto. Como quem pergunta se o queijo vem em barra ou em fatias.
— Escrevo — respondi. — Às vezes até frases inteiras. De vez em quando, por extravagância, junto umas com as outras e faço parágrafos.
Ele riu, mas já não me ouvia inteiramente. Enquanto eu falava, seu polegar descia a tela com a disciplina de um relógio sem alma. Descia uma vez, duas, sete, quinze. Não era propriamente consulta, nem leitura, nem sequer curiosidade. Era liturgia. O homem não usava o celular: prestava-lhe culto. O rosto conservava a expressão de quem conversava comigo, porém o polegar, esse órgão novo da alma moderna, tratava de servir a outra divindade.
(Convém notar, leitor, que não exagero. Se exagero, é apenas na medida em que a realidade me autoriza.)
— Ninguém lê mais, meu caro — disse ele, sem levantar os olhos. — Você precisava entender isso. Hoje é tudo vídeo curto. Mensagem rápida. Post. Story. Reels. TikTok. WhatsApp. O mundo mudou.
E, para ilustrar a mudança do mundo, rolou o mundo para baixo mais quatro vezes.
Não respondi logo, porque me fiquei observando aquele fenômeno com a curiosidade com que os naturalistas do século XIX deviam examinar uma ave nunca vista ou um mamífero duvidoso. Falava comigo sobre a morte da leitura, mas não era a leitura que havia morrido nele. O que morrera era coisa mais séria: a duração. Aquele pobre-diabo já não habitava o tempo; pingava de segundo em segundo dentro dele, como uma goteira nervosa.
— Ninguém lê? — perguntei, pegando um pacote de café que não pretendia comprar, só para ter com as mãos o que ele já não tinha: ocupação menos humilhante. — E isso você concluiu depois de longa reflexão ou veio num vídeo de doze segundos com legenda colorida e música ao fundo?
Ele riu de novo, agora com a benevolência dos convertidos, que é uma forma muito ativa de arrogância.
— Não, falando sério. Texto grande espanta. A pessoa bate o olho e já desiste.
— Que pessoa?
— As pessoas.
— Quais?
— Todas.
Esta é outra tragédia da época: o sujeito consulta a própria impaciência e a promove imediatamente a estatística universal. Não tenho paciência; logo, ninguém tem. Não leio; logo, o mundo desaprendeu. Não suporto silêncio; logo, o silêncio ficou obsoleto. O indivíduo contemporâneo, armado de wi-fi e presunção, tornou-se um IBGE ambulante de si mesmo.
(Se o leitor não se reconhece nesse retrato, tanto melhor para o leitor. Eu, infelizmente, reconheço alguns conhecidos.)
Meu amigo então resolveu me mostrar alguma coisa “importantíssima”, palavra que hoje costuma designar o contrário. Aproximou a tela do meu rosto. Era um vídeo de um cidadão que, ao som de uma música épica, ensinava em dezoito segundos “três hábitos de pessoas altamente produtivas”. O primeiro hábito era acordar cedo. O segundo era beber água. O terceiro, se não me falha a memória nem a dignidade, era “eliminar distrações”.
— Viu? — disse ele. — Conteúdo.
Olhei para o vídeo, depois para ele, depois novamente para o vídeo. Era como ver um homem receber de um papagaio uma aula de eloquência.
— Extraordinário — falei. — Milênios de civilização, bibliotecas, mosteiros, catedrais, universidades, guerras religiosas, enciclopedistas, tipógrafos, poetas cegos, romancistas, diaristas insones, e afinal chegamos a esta forma superior de sabedoria: um coach de fisionomia farinácea ensinando a beber água.
— Você ironiza porque é velho.
— Não. Eu ironizo porque ainda não enlouqueci de todo.
Ele não se deu por ofendido. O ofendido, para se ofender, precisa primeiro prestar atenção. E ele já estava outra vez no telefone, respondendo a alguém no WhatsApp, ou talvez não respondendo, talvez apenas sinalizando, por meio de um emoji estudado, que continuava existindo no rebanho dos presentes. Hoje não basta viver; é preciso aparecer disponível.
Fomos andando devagar pelo supermercado, eu com meu café desnecessário, ele com o carrinho de intenções fracassadas. Passamos pelo corredor dos cereais, onde caixas coloridas prometiam saúde com açúcar e energia com desenho animado, o que me pareceu coerente com a nossa época, que embrulha a mentira em fonte amigável. E meu amigo, sem qualquer senso de simbolismo, parou diante de uma promoção de barrinhas proteicas.
— O negócio é adaptação — disse. — Você precisa escrever menor. Mais direto. Mais digestível.
— Digestível é iogurte — retruquei. — Texto não é para ser digerido sem mastigação. Texto é, às vezes, justamente aquilo em que a pessoa tropeça.
— Mas as pessoas não querem tropeçar. Querem entender rápido.
— Não. Querem sentir rápido que entenderam. É outra coisa.
Ele me olhou pela primeira vez com alguma atenção verdadeira, talvez porque a frase não lhe coubesse inteira na velocidade de costume. Vi então, por um átimo, que ainda havia ali um homem anterior ao polegar, um homem talvez até razoável, soterrado sob notificações, urgências falsas e uma névoa de relevância instantânea. Mas a aparição durou pouco. O aparelho vibrou e ele desceu os olhos, obediente, como um monge que tivesse ouvido o sino.
Nesse momento, ocorreu-me que a grande invenção tecnológica do nosso tempo não foi o telefone inteligente, nem o vídeo vertical, nem a mensagem efêmera. Foi a domesticação da atenção. Conseguiram fazer dela um animalzinho de colo. Ela já não corre campos, não atravessa invernos, não sobe montanhas; senta no tapete da sala e dá a patinha quando a tela brilha. Antes, para capturar a alma humana, era preciso tragédia, amor, guerra, vocação, pecado, êxtase, ou pelo menos um soneto decente. Agora basta um aviso sonoro e a promessa de que alguém disse alguma bobagem em algum lugar.
— Veja bem — continuou ele —, eu não estou dizendo que você escreva mal. Estou dizendo que o formato mudou. Se quiser ser lido, tem que caber no tempo das pessoas.
— Talvez o problema seja justamente este — respondi. — Talvez as pessoas estejam morando em apartamentos de tempo tão apertados que já não consigam receber uma ideia inteira.
Ele sorriu daquele jeito que se reserva aos incuráveis.
— Você é romântico.
— Deus me livre. O romântico ainda acreditava no luar. Eu estou falando de saneamento básico da alma.
Chegamos à fila do caixa. Havia uma senhora diante de nós, muito concentrada na escolha trágica entre levar ou devolver um pote de sorvete. Essa concentração absoluta, aplicada a um sorvete de creme, enterneceu-me. Ainda existem, pensei, cidadãos capazes de dedicar alguns segundos íntegros a uma única indecisão. Nem tudo está perdido.
Meu amigo, porém, usava a espera para multiplicar fragmentos. Abriu Instagram, fechou Instagram, abriu TikTok, saiu do TikTok, entrou no WhatsApp, respondeu com áudio de onze segundos, viu um meme, curtiu uma fotografia de alguém que almoçava salmão, tornou ao WhatsApp, consultou uma notícia pela metade e, ao fim desse pequeno terremoto digital, voltou-se para mim com expressão vitoriosa:
— Está vendo? É isso. Tudo rápido. Dinâmico. O mundo está assim.
— Não. O seu polegar está assim.
Ele soltou um ah!, como se eu tivesse produzido uma espirituosidade simpática, dessas que se toleram em tios e cronistas. E talvez fosse mesmo só isso. Mas então, pela primeira vez, resolvi ser injusto, o que às vezes é apenas a forma mais breve de dizer a verdade.
— Você me pergunta por que continuo escrevendo textos longos — falei —, mas a pergunta certa é outra: por que você desistiu de ler a própria vida? Porque uma vida, meu caro, não vem em reels. Uma ruína leva tempo. Um amor leva tempo. Um remorso leva tempo. O perdão, então, nem se fala. Até uma boa conversa de supermercado, se quiser dizer alguma coisa, exige mais do que esses espasmos eletrônicos a que você chama atenção. Você não está sem tempo. Está loteado.
Ele ficou quieto, talvez pela força da frase, talvez porque o caixa nos interrompeu com o preço dos tomates, que neste país às vezes sobe com mais convicção do que a filosofia. Pagamos. A senhora do sorvete, depois de agonia visível, decidiu-se pela felicidade e levou o pote. Respeitei-a por isso.
Na saída, meu amigo ainda ensaiou uma defesa.
— Mas você há de admitir que hoje tudo concorre contra o texto longo.
— Sem dúvida — respondi. — Assim como quase tudo concorre contra a honestidade, a fidelidade conjugal, o latim e a dieta. Nem por isso convém capitular.
Rimos, agora ambos. Havia entre nós a cordialidade possível entre um homem e seu diagnóstico. Despedimo-nos na porta automática, essa invenção que ao menos tem a decência de se abrir por inteiro, ao contrário de tanta cabeça boa.
Fui para o estacionamento pensando que talvez ele tivesse razão em um ponto: muita gente realmente não lê. Ou lê aos arrancos, como quem belisca cinzas. Ou lê com um olho no texto e outro no próximo estímulo, o que é uma forma de não ler. Mas daí a concluir que o escritor deva amputar o parágrafo para agradar ao mutilado vai uma distância moral que não pretendo percorrer. Sempre houve pressa, preguiça, vulgaridade e cretinice; o que há de novo é a infraestrutura.
Continuarei, portanto, escrevendo textos longos. Não por heroísmo, que é vaidade com trombeta. Nem por desprezo ao tempo alheio, que seria grosseria. Mas por respeito. Sim, respeito. Respeito ao leitor que ainda consegue sentar-se dentro de uma frase sem pedir saída de emergência. Respeito à inteligência, que não nasceu para viver de migalhas coloridas. Respeito à linguagem, essa velha senhora a quem agora querem reduzir a legenda, bordão, gatilho, copy, corte e call to action, como se Camões tivesse atravessado o oceano para virar legenda de carrossel.
E, sobretudo, por uma razão muito simples — e aqui peço ao leitor que não passe adiante com pressa, sob pena de perder o melhor: o mundo talvez esteja cheio de gente que já não lê. Mas, enquanto houver uma só pessoa cansada de deslizar o polegar para baixo e disposta a levantar os olhos por cinco minutos que sejam, ainda será preciso que exista, em algum lugar, um texto esperando por ela.
(*) MÁRCIO FLORESTAN BERESTINAS é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.
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