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Artigos Terça-feira, 31 de Março de 2026, 09:29 - A | A

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Terça-feira, 31 de Março de 2026, 09h:29 - A | A

CAMILO VALENZUELA

Raivas e ressentimentos não combinam com o projeto de vida de quem quer viver sóbrio

CAMILO VALENZUELA

A raiva e os ressentimentos ocupam lugar de destaque nas reflexões de Alcoólicos Anônimos, pois são considerados grandes obstáculos à sobriedade. No programa de recuperação, aprende-se que a raiva é um defeito de caráter que precisa ser reconhecido, admitido e trabalhado diariamente. Não se trata de negar sentimentos, mas de não permitir que eles dominem nossas atitudes.

Para o alcoólico, a raiva é especialmente perigosa. Muitos beberam para anestesiar mágoas, frustrações e indignações acumuladas. Quando a bebida é retirada, essas emoções podem emergir com força redobrada. Se não forem tratadas com honestidade e humildade, tornam-se combustível para uma recaída. Por isso, vigiar ressentimentos é questão de sobrevivência.

A raiva é maléfica para qualquer ser humano que deseja viver bem neste mundo. Ela corrói por dentro, altera o humor, compromete relacionamentos e afeta até a saúde física. Quem alimenta ressentimentos acaba aprisionado ao passado, revivendo ofensas e injustiças como se estivessem acontecendo no presente. Vive em estado de guerra interior, um estado emocional claramente incompatível com a paz de espírito que o alcoólico busca.

Costuma-se dizer que guardar raiva de alguém é como beber um copo de veneno esperando que o outro morra. A verdade nua e crua, neste caso, é que quem adoece e morre é quem tomou o veneno. O alvo do ressentimento muitas vezes sequer sabe que está sendo odiado, enquanto o ressentido perde o sono, a paz e a alegria de viver, alimentando desejos de vingança. A raiva intoxica silenciosamente aquele que a cultiva. Os seres humanos, devemos estar vigilantes contra qualquer raiva.

No contexto da recuperação, aprende-se que não podemos mudar o outro, mas podemos mudar a nós mesmos. Se alguém errou conosco, cabe-nos decidir como reagir. Permanecer na mágoa é manter-se acorrentado. Perdoar — ainda que seja um processo gradual — é libertar-se. O perdão não absolve necessariamente o erro do outro, mas cura o coração de quem perdoa. Perdoar é um ato de autocuidado, permitindo que a pessoa se livre de emoções tóxicas, diminuindo estresse, ansiedade e raiva.

Quem não tem cuidado com o defeito da raiva é candidato a viver de mal com o mundo. Enxerga ofensas onde não existem, interpreta mal as atitudes alheias e transforma pequenos aborrecimentos em grandes conflitos. Assim, vai se isolando, rompendo laços e alimentando a própria infelicidade. Daí a voltar ao primeiro gole é um pulo. Quem já recaiu na bebida costuma reportar exemplos assim.

O programa sugere ferramentas práticas, como o inventário moral, a admissão das próprias falhas e a busca de auxílio espiritual, cada um à sua maneira. Ao reconhecer a própria participação nos conflitos, o alcoólico amadurece. Descobre que muitas de suas dores estavam ligadas ao orgulho ferido, às expectativas irreais ou ao desejo de controlar pessoas e situações.

Viver sóbrio exige serenidade. E serenidade não combina com ressentimento acumulado. Trabalhar a raiva é um exercício diário, só por hoje. É escolher não reagir impulsivamente, é respirar antes de falar, é pedir ajuda quando o coração está pesado.

A sobriedade verdadeira não é apenas ausência de álcool; é também a construção de uma nova maneira de viver. E nela não há espaço para cultivar venenos emocionais. Ao abandonar a raiva, o alcoólico abre espaço para a compreensão, para a tolerância e para a paz — consigo mesmo e com o mundo ao seu redor.

(*) CAMILO VALENZUELA é nome fictício em respeito à tradição do Anonimato.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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