A igrejinha era a construção mais antiga de Vila do Velho Ribeirão Bonito, construída por mãos sertanejas, habilidosas na técnica de taipa de mão, herdada do período colonial, quando as mãos escravizadas eram as que tudo faziam; foi Coronel Aníbal quem mandou construí-la conforme seu gosto férreo, lusitano, bem no começo da povoação, nos primeiros decênios dos anos 1900, quando a vila era só a Fazenda Ribeirão. Ele chegou quando as famílias que foram arregimentadas para os trabalhos inaugurais da fazenda, já tinham construído as instalações necessárias para receber, com o melhor conforto possível, a família proprietária – que se resumia a ele e sua recém esposada Gerthrudes. A igrejinha foi a primeira obra realizada sob as ordens, orientação e gosto do Coronel: orientou tudo diariamente, esmerando nos detalhes do seu projeto. Igrejinha pequena, com o tamanho necessário para abrigar, aos domingos, todos aqueles viventes. Inaugurou-a orgulhosamente, com festa para todos e reza rezada sem padre; diz-se que, até sua morte, mais de cinquenta anos depois, o Coronel nunca faltou uma Missa – e cuidou dela com esmero, caiando-a pra resplandecer brancura, que se via de longe...
No seu início, Vila do Ribeirão Bonito era como um mundo do Coronel, em cujos ermos, a única autoridade e ordem eram as dele: patriarcais, conservadoras à sisudez de até rir pouco e, dizia-se, que nunca se viu sair da boca dele um gracejo, uma gozeira – era como se o lugar da alegria no seu ser fosse oco, vazio. Tinha por sua e documentada, aquela imensidão de terras, compradas por sua família tão logo o governo aprovou a Lei de Terras; que estabeleceu o acesso às terras públicas somente por compra, o que favoreceu o monopólio da propriedade da terra às famílias abastadas, ao tempo em que impedia ex-escravos e gente simples de serem proprietários. Sua família, comerciante e dona de terras em São Paulo desde o tempo de Província, teve prevalência para se fazer dona daquilo tudo nos ermos mato-grossenses, cujos limites desmedidos da propriedade foram marcados no mapa, sem nuca tê-las visto; assim, conforme as exigências da lei, registrou os domínios no Livro Eclesiástico de Registro da Diocese da capital paulista. Então, ao se casar com Gerthrudes, moça vistosa, de família germânica, chegada de pouco no Brasil, fugida da Guerra, a família deu-lhe de presente...
Para ter os braços necessários aos tantos serviços requeridos para o começo e o desenvolvimento do seu grande empreendimento, e para baratear os custos da produção, o Coronel conjugou o pagamento de salários, com a cessão de pequenos lotes de terras para as famílias de trabalhadores explorarem, cultivarem, no regime de à meia; em que, metade da produção de cada família, ao fim de cada período, era dada ao Coronel como pagamento pelo uso da terra. No correr de anos e décadas, ao tempo em que a fazenda foi sendo transformada em um grande centro de produção de cereais, carnes e madeira, formou-se no entorno do grande largo da igrejinha um aglomerado de casebres provisórios, que foram permanecendo e se ampliando até ganhar os modos e jeitos e conformação de vila, e virar o Distrito de Vila do Ribeirão...
Daquele iniciozinho, quase ninguém restava em meados dos anos de 1970: apenas um ou outro ancião ou anciã, quase centenários, descendências dos que chegaram no começo de tudo. Do Coronel, nenhum descendente: não tivera filhos. Mesmo a fazenda pouco lembrava os tempos passados, áureos: com a morte do Coronel, a propriedade foi se despedaçando em lotes menores, vendidos pelos que a herdaram, e não tinham qualquer vontade e jeito para as lidas com a terra. Diferentemente, a Vila foi se desenvolvendo, movimentada pelos negócios demandados por tantos pequenos proprietários; de maneira que a institucionalidade tomou pra si, as antigas construções da fazenda, que passaram a abrigar as repartições e órgãos públicos, necessários à institucionalidade. Assim, o mundo material do Coronel Aníbal foi desaparecendo, no emergir da cidadezinha ciosa de si, com um modo singular de ser, até no nome: Vila do Velho Ribeirão Bonito; querendo viver só pra si, ciumosa de novidades mudancistas, cultivando modos conservadores, rústicos e sisudos, pelo que afirmava a espiritualidade do Coronel. Assim seguiu atravessando gerações, em quase cem anos...
Num mundo de poucos poderosos, muitos subalternos têm o sonho de se elevarem a chefe dos seus iguais, mesmo que apenas como preposto dos quem têm o poder-que-manda; é que, num lugar assim, quem se afigura aos olhos dos da sua iguala, parecendo um que manda, tem nesgas do poder: ainda que sejam as dos mais feios sobejos. Aí, não podendo ser o que manda, reveste-se das mais perversas capacidades para a violências, para as sevícias sádicas, e as exibe ao que manda, para lhe parecer útil e necessário; e assim, tenta parecer ser alguém, pelo não-ser, ou pela anulação, do outro. E foi por esses modelos que o patriarcado vigeu, cada vez mais duro e intransigente, entre os debaixo; impondo-se, à anulação, de esposas e filhas dos simples – mas, também, das dos de posição: o poder é intransigente, na sua preservação...
Tradição pesa feito pedra, que, mesmo com suas quinas amortecidas pela rodilha bem agasalhada na cabeça, pesa, machuca, carregá-la. Olga Maria sentiu todo o peso dos costumes centenários da Vila do Velho Ribeirão Bonito, quando se recusou casar com Argemiro. Ele a tratava e exibia como se já a tivesse esposado, como coisa sua, que o qualificava mais, aos olhos do lugar: sujeito duro e intransigente nas ordens aos comandados, a exigir mais e mais trabalho. Assim se fizera homem de confiança dos Macedo, e merecedor da função distinta de gerente da Divisão de Gado de Cria e Corte da Fazenda Terra Rica; ali, tratava gente e gado quase com o mesmo linguajar e modos: tudo ao gosto dos patrões, que viviam entre a capital paulista e os mais diversos lugares do mundo, usufruindo riqueza. A recusa de Olga Maria lhe doeu nas faces, pelo que imaginava as pessoas dizerem dele, com insinuações de que a negativa tinha por causa algum querer dela por outro; de jeito que o chucro, sentindo-se corroído desde a alma, por ciúme e cornice supostos, trancou-se em casa, na fazenda, sem que ninguém o visse na Vila por mais de semana...
Olga Maria se fez leve, vivia como se tivesse tirado de sobre si uma carga impossível de carregar, ria o riso bom e benfazejo de quem olha o nascer do sol, nascendo junto, esperançoso de si mesmo...
A cornice é sobretudo o estado de espírito de um que se acha herdeiro dos poderes e direitos superiores e inquestionáveis do arcaico e perverso masculinismo, quando confrontado e vencido pela leveza desconcertante do não-feminino, pronunciado quase displicentemente, sem outro querer, senão o de afirmar o próprio querer. É quando o suposto poderoso se vê a si mesmo fraco, quebradiço, sem força, incapaz para demover para si, para o seu querer, o que parecia frágil, dominado; mas, que ali, na sua frente, manifesta-se superiormente, sem gesto de força e violência qualquer, senão, o de não o querer mais. O sujeito enlouquece. É quando o diabo lhe segreda maldades, ensina perversidades, açula-lhe os ódios. Mas, Argemiro aprendera a ser homem de negócio: aprendera a cultivar seus ódios na estufa da vingança, espreitando momento certo pra impor sofrimento ao desafeto, pra ganhar o que queria e dar risada pública depois. Não daria a ninguém, o gosto de vê-lo alquebrado: o que era aos olhos e dizeres de todos, ele seguiria sendo, pensou consigo, assim...
Quase um mês depois, Argemiro foi à Vila: entrou no Armazém do Gregório no meio da manhã, pra fazer os pagamentos das mercadorias adiantadas no mês; o velho, típico comerciante bajulador de cliente poderoso, disse querendo agradar: “Soubemos do ocorrido, Argemiro: essas moças de hoje, num tem nada na cabeça...”. Argemiro olhou-o quase agradecido, não pela solidariedade, mas pela oportunidade de vingança: “Pois é, Seu Gregório, eu nunca quis deixar Olga na situação de nem moça nem casada, mas, se ele quis assim...”. Disse aquilo, pegou as notas e recibos, e saiu antegozando aquela aleivosia; porque sabia o inferno que Olga sofreria com o que dissera, e que o velho trataria de esparramar em todos os ouvidos, e por todas as línguas ferinas. “Ficou sabendo, não? O Argemiro disse que “mexeu” com a Olga!”; “Gente, e a Olga, que num é mais moça!”; “Todo mundo botava a mão no fogo por ela, sem saber a fogosa que era...”; “E a Olga, hein: só cara de santa!”. Na Vila centenária, não bastava uma moça ser intocada, pra merecer a consideração e o respeito dispensado às moças tidas por corretas: era necessário que ninguém falasse desdouros dela; antes do anoitecer na Vila, Olga Maria era tida e havida como moça desmoçada, desonrada, quase meretriz...
A humanidade, dentre as lindezas de que se fez, e pode fazer, sabe se recobrir de ruindades, ser horrível em perversidades, machucar a alma, pra ver o corpo padecer...
As ruas todas da Vila a olharam com olhar de açoite. Era como se Olga carnificasse todas as dores e dissabores da gente do lugar; de jeito que, condená-la impiedosamente, dava-lhes o duvidoso prazer do justiceiro, anuviava suas desgraceiras e impotências, cada um se erguia em suposta pureza, em face da mulher desonrada – enquanto o desalmado Argemiro tinha seus predicados afirmados, quase como vítima dela. Aos pés da Mãe, Olga chorou, jurou pela alma do Pai, já morto, a sua inocência: de que nunca se dera a Argemiro, que ele mentia, por vingança. Sentia-se desamparada de todas as referências de que se fizera mulher e reconhecida, dessubstanciada de si, do que fora, com a alma subtraída e destroçada; tudo era um doer fundo, sem fim, que não a deixava sequer se agarrar ao próprio corpo, para ser: viu-se, nada sendo. A casa se recobriu de vazios. A Mãe se vestiu de mais luto, e se enfurnou no quarto.
Não teve janta na casa. A noite caiu como pedra sobre as duas: cada uma aconchegada na solidão de leitos insones: silêncio de dar medo e dó, imaginá-lo...
A Mãe acordou sobressaltada com o alarido e batidas na porta: “Antônia, acorda! Olguinha enlouqueceu!”; levantou-se em desespero, pôs sobre a camisola um vestido que estava à mão, ajustou-o com um laço na cintura e foi confrontar o desassossego. Destravou a porta, guardando o corpo atrás da porta entreaberta: viu-se mais desgraçada na figura da filha desarvorada. Olga tinha a camisola molhada, mal mostrando, mal escondendo o corpo, os pés nus, enlameados, e, no rosto, um olhar cheio de ausência, de nada ver, de nada lhe significar, e rictos no canto da boca, como se debochando o mundo, como se a confrontar a normalidade. Amparada por duas mulheres, Olguinha era a dor transcendida ao desvario – como se, aquele estado, fizera-se para ser o último refúgio ao que lhe restara do ser, e se entocasse no mais interno de si, e se guardasse, preservado, da destruição final. O desvario é tempo-lugar, que a morte olha acanhada, e não entra de chofre...
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