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Artigos Segunda-feira, 30 de Março de 2026, 13:19 - A | A

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Segunda-feira, 30 de Março de 2026, 13h:19 - A | A

ROSANA DE BARROS

Doris Day: doçura e autonomia

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS

Doris Mary Ann Kappelhoff, ou simplesmente Doris Day, nasceu em 03 de abril do ano de 1922, em Ohio. Abandonou o sonho de se tornar bailarina, após um acidente de carro que lesionou a sua perna. Iniciou a carreira como cantora na década de 1940. Se destacou com o sucesso da música “Sentimental Journey” (1945).

Fez a sua estreia no cinema (1948) no filme “Romance on the High Seas”, se tornando uma das maiores estrelas de Hollywood (1950/1960). Atuou em 35 filmes. Alcançou a popularidade com o programa “The Doris Day Show” (1968/1973).

Há algo de profundamente revelador e incômodo na forma como a história do cinema tratou Doris Day. Durante décadas, sua imagem foi cuidadosamente embalada como a personificação da “boa moça americana”. Ela sempre trazia o sorriso impecável, a moral inabalável, e uma feminilidade sem arestas. Mas, como tantas outras mulheres enquadradas por narrativas patriarcais, ela foi mais do que aquilo que permitiram que víssemos.

O feminismo nos convida a desconfiar das aparências, sobretudo quando elas são produzidas por uma indústria como Hollywood. No auge de sua carreira, Day estrelou comédias românticas que reforçavam uma lógica bastante evidente: o desejo feminino deveria ser contido, domesticado, e redirecionado para o casamento. Filmes como Pillow Talk (1959), ao lado de Rock Hudson, tornaram-se símbolos de sexualidade vigiada, onde a mulher flerta com a liberdade, mas invariavelmente retorna à segurança da norma.

A violência simbólica da indústria hollywoodiana foi perceptível. Há fissuras, por exemplo, em Calamity Jane (1953), porquanto a personagem encarna uma mulher que transita entre códigos de gênero, vestindo-se, comportando-se e ocupando espaços tradicionalmente masculinos. Ainda que o roteiro trate de “corrigir” essa transgressão ao final, o percurso revela algo incontornável: a possibilidade de uma mulher existir fora do molde.

Doris Day habitou o espaço contraditório reservado às mulheres em uma sociedade que, ao mesmo tempo, as queria independentes o suficiente para trabalhar, e encantadoras o bastante para não ameaçar a estrutura patriarcal. Sua carreira foi construída nessa linha tênue, apresentando a respectiva relevância.

Fora das telas, Doris Day foi vítima de exploração financeira por parte de homens em quem confiava, teve sua carreira gerida sem plena autonomia e, mais tarde, transformou-se em uma ativista dedicada à causa animal. Há, nessa trajetória, a resistência da mulher moldada por estruturas opressivas, e que encontrou formas de se reconstruir.

É premente reconhecer que não se cuida de negar que em alguns filmes que ela trabalhou reforçaram ideais conservadores. Mas, Doris viveu sob regras que não escolheu. E, ao olharmos para sua imagem, enxergamos a construção sem rachaduras.

A revisitar sob uma lente feminista é, portanto, um exercício de desnaturalização. É perceber que a “doçura” que lhe foi atribuída não era uma essência, mas uma exigência. E que, por trás dela, havia uma mulher navegando, como tantas outras, entre o que se esperava que fosse e o que, de fato, poderia ser.

Faleceu em 13 de maio de 2019, aos 97 anos, e talvez nunca tenha sido apenas a garota sorridente de Hollywood. Como tantas mulheres do seu tempo foi uma intérprete das expectativas impostas a toda uma geração. E reconhecer isso é, em si, um gesto político.

E quantas mulheres não transitam entre a doçura e a autonomia? 

(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

 

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