Entre os séculos XVI a XIX, o tráfico transatlântico de escravizados africanos desenraizou, aproximadamente, 12,5 milhões de pessoas de suas terras, culturas e famílias. Esse crime hediondo moldou brutalmente a economia e a sociedade das potências coloniais, como Portugal, Grã-Bretanha, França, Espanha, Holanda e Dinamarca. Essa insanidade em nome do lucro mercantilista, além de ceifar vidas, impõe um silenciamento histórico às nações escravizadas, apagando memórias e vozes que ainda hoje lutam por reconhecimento. Nesse contexto, causa perplexidade o posicionamento dos Estados Unidos, Israel e Argentina, que votaram contra a resolução da ONU, aprovaram nesta quarta-feira (25), que declara o tráfico de escravizados africanos como o crime mais grave contra a humanidade. Tal recusa ecoa práticas de supremacia e negação histórica, reforçando o apagamento e o silenciamento que a própria resolução busca combater; afinal, como afirma o sociólogo contemporâneo Nick Couldry, em “Por que a voz importa?”, ao definir “voz” como a capacidade de criar, e ser reconhecida por criar, narrativas sobre a vida.
As atrocidades cometidas durante o período escravista são incontáveis: corpos tratados como mercadorias, famílias desfeitas, culturas desmanteladas e gerações inteiras submetidas à violência física e psicológica. O tráfico não foi apenas um mecanismo econômico, mas um projeto sistemático de desumanização, sustentado por ideologias racistas que legitimaram a exploração e a brutalidade. A escravidão não terminou com a abolição formal; seus efeitos persistem nas desigualdades sociais, econômicas e raciais que atravessam séculos e se manifestam até hoje.
Reconhecer os malefícios causados aos escravizados é um passo essencial para reparar, ainda que simbolicamente, uma injustiça histórica. A resolução da ONU, ao eleger o tráfico de escravos como atrocidade rendensurável, reafirma a necessidade de reiteração da memória e da justiça social. No entanto, o voto contrário dos EUA, Israel e Argentina evidencia uma postura supremacista, que se recusa a assumir a gravidade desse atentado e a responsabilidade histórica que dele decorre. O voto abjeto desses três países é um gesto político que perpetua a lógica de dominação e de desrespeito às vítimas e a seus descendentes; por isso, é o senhor repudiar veementemente a postura estadunidense, israelense e argentina.
Diante desse cenário, é imperativo propor a criação de um movimento internacional que imponha avaliações políticas e econômicas contra esses três países, como forma de pressioná-los a reverter sua postura supremacista; além de difundir nas redes sociais hashtags como #TráficoDeVidasNuncaMais ou #SupremaciaNegacionista ou #MemóriaAfricanaResiste. Além disso, é necessário repudiar a “neutralidade” da Inglaterra, que ao se abster, reforça o silêncio cúmplice diante da barbárie. O mundo não pode aceitar que crimes contra a humanidade sejam relativizados ou negados. Como diz o adágio africano: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça sempre glorificarão os caçadores.”
(*) SÉRGIO CINTRA é professor de Linguagens e Servidor do TCE-MT.
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