Artigos Quinta-feira, 21 de Abril de 2011, 22:37 - A | A

Quinta-feira, 21 de Abril de 2011, 22h:37 - A | A

Sexta-Feira Santa

Na sexta-feira da crucificação, as crianças não brincavam, as mulheres usavam trajes e véus pretos nas igrejas, os homens igualmente, se vestiam de luto. Todos oravam diante do caixão com o corpo de Cristo.

GABRIEL NOVIS NEVES

divulgação
No mundo cristão duas datas se destacam no calendário: a do nascimento e a da morte de Jesus Cristo.

No Natal, comemora-se o nascimento do grande missionário, do generoso rabino que veio pregar o amor e revelar aos homens a Lei de Deus.

Na Sexta-Feira da Paixão, relembra-se o suplício da crucificação - a morte de Jesus.

Lembro-me do Natal e da Sexta-Feira Santa dos meus tempos de criança.

O Natal era a festa da magia. Festa de celebração pela vida.

Época das cartas para o Papai Noel, presépios e férias escolares. Da missa do Galo, com telefonema do meu pai à meia-noite, para cumprimentar a minha mãe que em casa preparava a colocação dos pedidos do velhinho de barba branca, nos sapatos e debaixo da cama, da filharada dormindo.

Ao clarear do dia 25 de dezembro, a correria e a algazarra incontrolável dos meus irmãos, para conferir os seus pedidos. Até hoje guardo o ruído produzido pelo rasgar dos embrulhos dos presentes recebidos.

A Sexta-Feira Santa, ou da Paixão, era dia de recolhimento. A Catedral tinha um aspecto fúnebre, com as imagens dos seus santos encobertos por tecido roxo.

Na Quinta-Feira Santa, a minha mãe nos orientava para limpar bem a nossa casa e tomar banho antes de dormir. Na sexta-feira tudo era proibido, inclusive falar alto. Só era permitido arrumar a cama com cuidado. Fazíamos jejum e o prato do dia era a canjica.

Nas casas, ruas e igrejas, o ambiente era de desolação. Luto sentido e respeitado por aquele que morreu na cruz, aos poucos, condenado somente porque amou demais a humanidade.

Na sexta-feira da crucificação, as crianças não brincavam, as mulheres usavam trajes e véus pretos nas igrejas, os homens igualmente, se vestiam de luto. Todos oravam diante do caixão com o corpo de Cristo.

À noite, a procissão do enterro, uma das manifestações mais comoventes da nossa cultura religiosa.

Após todas as manifestações de pesar e tristeza, restavam, às crianças do meu tempo, a expectativa da chegada do sábado, quando a cidadezinha amanhecia cheia de Judas de pano, feito pelos artesãos de Cuiabá, e pregados nos postes de energia elétrica e telefônica.

Esses Judas retratavam os malfeitores da sociedade, onde a predominância era de políticos.

A meninada saía de casa com os bolsos da calça cheio de limões colhidos nos quintais das antigas casas da minha cidade, além de pedaços de varas de bambu.

O início do ritual era a malhação do boneco no poste até a sua caída, onde todos participavam da brincadeira da chutação para a destruição total da peça artesanal.

Tinha início, então, a guerra dos limões entre os meninos, até acabar a munição, ou por ordem superior de um dos pais.

Hoje, a Sexta-Feira Santa faz parte, na maioria das vezes, de um pacote turístico, que se inicia oficialmente na quarta-feira das trevas, e termina no domingo da Páscoa.

Semana Santa significa mais um feriadão, no nosso rico calendário de enforcação dos dias úteis.

Existe até uma importante cidade no Brasil, onde a semana começa na terça-feira à tarde, e termina quinta-feira à noite da semana seguinte!

Notícias da Semana Santa na televisão são avisos que não há mais vagas em vôos e ônibus para qualquer parte do Brasil.

Ninguém mais se lembra da morte de Cristo. A triste Sexta-Feira Santa da minha infância foi transformada em festas nas chácaras, resorts, barcos, bacalhau, vinhos e pagode com muita comida e cerveja.

Será que é a isto que se chama progresso? Será que os valores reais da vida – que deveriam ser eternos – estão sendo substituídos pelos valores mundanos?

Seja como for, resta um consolo para a humanidade. Jesus, no auge do holocausto de sua própria vida falou: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem!”

(*) GABRIEL NOVIS NEVES é médico, professor universitário, cronista e colaborar de Hipernoticias. E-mail: borbon@terra.com.br

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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Bento Gonçalvez 22/04/2011

Ótimo artigo!Essa é nossa realidade,infelizmente.

Eliana Crivellari 22/04/2011

Parabéns pela publicação do belíssimo artigo do Dr. Gabriel Novis Neves. Trata-se de uma rica página que nos leva a refletir bastante. E quantas reflexões nos ensejam a sexta-feira santa! Sobre o texto do Dr. Gabriel, cito palavras mais que oportunas no momento: Senão, vejamos: "Diz-se que "uma nação está condenada a repetir os seus erros se não conhecer a sua história". Muitos crentes querem "tapar o sol com a peneira" dizendo que os tempos modernos são outros e que os nossos jovens e adolescentes precisam de mais espaço para respirar suas idéias e valores. Conheço muitos pais que se arrependem amargamente disto, ao verem hoje seus filhos nas drogas, com lares desfeitos e fora da Igreja porque eles, pais, não souberam reconhecer a maldade do mundo e pôr limites em suas vontades. O que a psicologia pregava sobre a não-recriminação, hoje ela ensina ao contrário: saiba estabelecer limites! Vivemos uma era de amplas possibilidades. O acesso aos bens de consumo e às idéias se tornou mais democrático, embora muitos ainda não possam dispor dos cenários e adereços de seus sonhos. A questão é que junto com o ouro veio o cascalho. E é esse lixo moral que a família não pode permitir que entre em seu lar. Nossa sociedade é uma sociedade permissiva, onde tudo é possível desde que haja certas regras e compromissos. Só que, quase sempre, estas regras opõem-se à ética cristã. Daí que, entre ficar com o socialmente aceitável e o biblicamente recomendável, o crente deve optar pelo segundo." Fonte: http://www.webartigos.com/articles/806/1/Familia-3---A-Familia-Diante-Da-Perda-De-Valores/pagina1.html#ixzz1KHhsZN5z Parabéns ao hipernotícias, pela publicação, e parabéns ao Dr. Gabriel Novis Neves. Abraços, Eliana Crivellari

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