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Justiça Sábado, 31 de Outubro de 2026, 17:21 - A | A

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RELEMBRE O CRIME

MINUTO HNT: Morte de Zampieri desencadeou devassa no Judiciário brasileiro

A perícia no celular do advogado revelou conversas que levantaram suspeitas sobre negociação de decisões; caso também envolve grupo de extermínio

CAMILA RIBEIRO
DA REDAÇÃO

ASSISTA AO MINUTO HNT

 

O assassinato do advogado Roberto Zampieri, em dezembro de 2023, em Cuiabá, desencadeou uma série de investigações que ultrapassaram as circunstâncias do homicídio e atingiram diferentes instâncias do Judiciário. A perícia do celular da vítima revelou conversas que levantaram suspeitas sobre um esquema de venda de sentenças, com ramificações no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Zampieri foi morto a tiros na noite de 5 de dezembro de 2023, quando estava dentro do próprio veículo, em frente ao escritório onde trabalhava, no bairro Bosque da Saúde, na Capital. A investigação apontou que o crime foi motivado por uma disputa nos tribunais envolvendo a Fazenda Lagoa Azul, em Ribeirão Cascalheira (890 km de Cuiabá), avaliada em aproximadamente R$ 100 milhões.

O advogado atuava no processo relacionado à propriedade rural e, segundo a apuração, sua atuação teria contrariado os interesses da família que disputava a posse da área. A partir da investigação do homicídio, surgiram indícios de uma estrutura criminosa organizada e de possíveis conexões com a negociação de decisões judiciais.

Antônio Gomes da Silva foi apontado como o executor dos disparos. Ele monitorou a rotina de Zampieri e chegou a entrar no escritório do advogado antes do assassinato. O pistolou usou um disfarce para se aproximar da vítima sem levantar suspeitas.

Antônio confessou o crime e afirmou que recebeu R$ 40 mil para matar o advogado. As investigações também apontaram a participação do coronel da reserva do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, identificado como um dos responsáveis pela articulação e pelo financiamento da execução.

O caso revelou a existência do grupo autodenominado Comando C4, sigla para Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos. A organização, formada por civis e militares da ativa e da reserva, é investigada pela Polícia Federal por envolvimento em homicídios sob encomenda e planos de ataques contra autoridades.

Documentos apreendidos durante a investigação apontaram uma tabela com valores que variavam conforme o perfil do alvo. Para integrantes do Judiciário, os preços poderiam chegar a R$ 250 mil.

Caçadini apontou o produtor rural Aníbal Manoel Laurindo como suposto mandante do assassinato. A denúncia do Ministério Público também relacionou o crime à disputa pela Fazenda Lagoa Azul, que teria motivado a contratação dos envolvidos na execução.

CELULAR BOMBA

O conteúdo do telefone de Zampieri abriu uma nova frente de investigação. Conversas e registros encontrados no aparelho levantaram suspeitas de que o advogado mantinha relações com desembargadores e intermediários para obter decisões judiciais favoráveis a clientes.

Em agosto de 2024, os desembargadores Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, foram afastados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A investigação apontou indícios de proximidade indevida entre os desembargadores e Zampieri, além de possíveis pagamentos de vantagens financeiras em troca de decisões.

As apurações também avançaram sobre suspeitas envolvendo o STJ. O material extraído do celular do advogado passou a integrar investigações sobre a possível comercialização de decisões judiciais em diferentes instâncias.

Outro magistrado atingido pelos desdobramentos foi o desembargador Dirceu dos Santos. Em março de 2026, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou seu afastamento imediato das funções. Segundo o CNJ, havia indícios de que decisões teriam sido proferidas mediante possível recebimento de vantagens indevidas, com intermediação de terceiros, empresários e advogados.

A quebra dos sigilos bancário e fiscal também identificou uma movimentação patrimonial considerada incompatível com os rendimentos do magistrado. Conforme o órgão, foram identificados mais de R$ 14,6 milhões em bens nos últimos cinco anos.

Em junho de 2026, Dirceu teve a aposentadoria voluntária concedida pelo Tribunal de Justiça. A medida, no entanto, não encerrou as apurações conduzidas pelo Conselho Nacional de Justiça.

PISTOLEIRO FALOU SOBRE CORRUPÇÃO

Durante o julgamento do assassinato, Antônio Gomes da Silva também comentou o suposto esquema de corrupção e afirmou que ficou feliz por ter contribuído para o fim de uma rede de corrupção. "Quando eu vi o tamanho do estrago que essa pessoa estava fazendo aqui, a gente ouve vozes, né? Eu cometi esse pecado. Meu desejo é que todos os corruptos estejam na paz eterna o quanto antes". 

Em outubro de 2026, o Tribunal do Júri de Cuiabá condenou três réus pelo assassinato de Roberto Zampieri. As penas somadas chegam a 68 anos, nove meses e 30 dias de prisão.

Antônio Gomes da Silva e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas receberam, cada um, 21 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão. Já Hedilerson Fialho Martins Barbosa foi condenado a 25 anos de prisão. Ele foi apontado como responsável por intermediar a execução e fornecer a arma utilizada no crime.

A confissão de Antônio foi considerada atenuante na definição da pena. No caso de Caçadini, a idade superior a 70 anos também foi considerada pela Justiça. O Ministério Público de Mato Grosso recorreu das condenações e pediu o aumento das penas aplicadas aos três réus. O recurso foi apresentado ao Tribunal de Justiça.

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