Durante o julgamento de Alex Roberto de Queiroz Silva, acusado de executar o advogado Renato Gomes Nery, uma das filhas da vítima, Lívia Moreira Gomes Nery, prestou um depoimento marcado pelo medo que passou a dominar a família após o crime. Como testemunha de acusação nesta quarta-feira (15), ela relatou ao Conselho de Sentença que, no velório do pai, em julho de 2024, a presença de policiais acabou ampliando a sensação de vulnerabilidade. Segundo ela, a vigilância reforçava a percepção de que a família ainda vivia sob ameaça.
“O velório todo foi feito com escolta policial. Às quase 20 horas que ficou, a polícia estava ali na frente. Isso deu mais insegurança, porque se o crime foi só aquilo, por que a polícia estava ali na frente?”, questionou em plenário.
Ao ser questionada sobre se a presença das viaturas teria causado apenas um desconforto, ela foi enfática ao diferenciar os sentimentos.
“"A polícia estava lá para nos dar segurança, mas aquilo mostrava o quanto estávamos inseguros. A gente não sabia se poderiam atentar contra nós também. Havia inúmeras conjecturas", relatou.
A familiar explicou aos jurados que a escolta era interpretada como um sinal de perigo iminente para os sobreviventes.
“Não é que eu não estava confortável, a gente via que aquilo poderia ser uma ameaça contra minha vida, contra a vida do meu filho, da minha irmã. Se eles estão aqui dando segurança, é porque nós estamos inseguros. Pode acontecer alguma coisa”, desabafou.
Essa percepção de risco era alimentada pela incerteza sobre a motivação do assassinato e pelo envolvimento de agentes do Estado no planejamento do crime. A insegurança relatada pela família encontra respaldo nas investigações da Polícia Civil e do Ministério Público, que revelaram a participação de policiais militares na logística da execução.
De acordo com a denúncia, o crime foi uma ação estruturada onde PMs teriam atuado no recrutamento do atirador, organização logística e fornecimento da arma. Inclusive, uma das armas apreendidas com um grupo de policiais ligados ao caso teria sido utilizada em outros homicídios e confrontos forjados.
O assassinato de Renato Nery, ex-presidente da OAB-MT, teria sido encomendado por R$ 200 mil devido a uma disputa judicial por uma área de mais de 12 mil hectares em Novo São Joaquim.
O réu julgado hoje, Alex Roberto de Queiroz Silva, confessou ser o autor dos sete disparos que vitimaram o advogado em frente ao seu escritório em Cuiabá. Além dele, empresários apontados como mandantes e outros três policiais militares permanecem presos e aguardam seus respectivos julgamentos pelo Tribunal do Júri.
* Atualizado às 14h52
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