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Artigos Quarta-feira, 24 de Junho de 2026, 14:27 - A | A

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Quarta-feira, 24 de Junho de 2026, 14h:27 - A | A

RODRIGO OLIVEIRA

O próximo salto do agro será com gestão de infraestrutura digital

RODRIGO OLIVEIRA

O agronegócio brasileiro corre um risco curioso. Passar os próximos cinco anos discutindo inteligência artificial enquanto o verdadeiro gargalo continua sendo infraestrutura. Não infraestrutura física. Infraestrutura digital.

Porque inteligência artificial sem dados não funciona. Dados sem conectividade não circulam. E conectividade sem integração gera pouco valor.

É por isso que acredito que o próximo salto do agronegócio brasileiro não será definido pela inteligência artificial em si. Será definido pela capacidade de transformar conectividade, dados, computação e inteligência em uma única infraestrutura operacional.

Pode parecer uma discussão distante da realidade do campo. Mas basta observar o que está acontecendo nas maiores empresas de tecnologia do mundo.

Durante décadas, as operadoras de telecomunicações venderam conectividade. O valor estava na rede.

Com o tempo, a conectividade tornou-se uma commodity e as operadoras passaram a buscar novas formas de gerar valor através de serviços digitais, cloud, IoT, edge computing, analytics e plataformas corporativas. O 5G acelerou ainda mais essa transformação.

Conceitos como network slicing, edge computing, redes privadas e APIs de rede começaram a transformar a infraestrutura de telecomunicações em uma plataforma programável. A rede deixou de ser apenas um meio de transporte de dados. Passou a fazer parte da própria aplicação.

Ao mesmo tempo, observamos outro movimento igualmente relevante.

A AWS, que nasceu como uma plataforma de computação, investe dezenas de bilhões de dólares em infraestrutura dedicada para inteligência artificial. Seus investimentos recentes em agentes autônomos, computação distribuída e edge computing mostram uma visão clara: o futuro não estará apenas na nuvem, mas na combinação entre cloud, edge e inteligência operacional. Empresas como Anthropic, OpenAI e milhares de outras organizações estão construindo seus próximos ciclos de crescimento sobre essa infraestrutura.

Do outro lado, a SpaceX segue uma trajetória quase inversa. Começou resolvendo um problema de conectividade. Mas o avanço do Starlink, especialmente com a expansão do Direct-to-Cell, aponta para uma visão muito mais ampla. Hoje, centenas de satélites já operam como verdadeiras torres de celular no espaço, conectando dispositivos, sensores e pessoas em praticamente qualquer lugar do planeta. Mais importante do que conectar áreas remotas, a SpaceX está construindo uma camada global de conectividade capaz de sustentar aplicações digitais em escala planetária.

As discussões recentes envolvendo Starlink, xAI e Grok sugerem uma convergência ainda maior entre conectividade, computação e inteligência artificial. Independentemente de como essa estratégia evolua, a direção é clara: a fronteira entre rede, processamento e inteligência está desaparecendo.

A AWS nasceu da computação e se aproxima da conectividade. A SpaceX nasceu da conectividade e se aproxima da computação. As operadoras nasceram da rede e avançam para plataformas digitais.

Todos parecem caminhar para o mesmo destino.

Uma infraestrutura integrada em que dispositivos geram dados, redes transportam dados, plataformas processam informações e agentes inteligentes apoiam ou executam decisões.

Depois de vinte anos acompanhando a evolução das telecomunicações, talvez a principal lição seja esta: os maiores ciclos de transformação não acontecem quando surge uma nova tecnologia. Eles acontecem quando diferentes tecnologias passam a funcionar como uma única plataforma.

E poucos setores possuem uma aderência tão natural a essa visão quanto o agronegócio. Uma fazenda moderna já opera como uma gigantesca fábrica de dados. Máquinas geram telemetria em tempo real. Estações meteorológicas monitoram o ambiente. Sensores acompanham o solo. Satélites observam lavouras diariamente. Drones capturam imagens. Softwares registram operações. Equipamentos conectados controlam irrigação, armazenagem e logística.

O problema não é a falta de informação. O agro brasileiro não sofre por falta de tecnologia. Sofre por excesso de tecnologia desconectada.

Máquinas não conversam com sistemas. Sistemas não conversam com sensores. Sensores não conversam com plataformas de decisão. E plataformas frequentemente não conversam entre si. O resultado é um paradoxo.

O produtor rural possui mais informação disponível do que em qualquer outro momento da história, mas continua encontrando dificuldades para transformar essa informação em coordenação, previsibilidade e decisão.

É justamente aqui que a inteligência artificial encontra seu verdadeiro papel.

A grande revolução da IA no agro não será produzir relatórios mais sofisticados. Nem dashboards mais bonitos. Nem mais uma plataforma.

A transformação acontecerá quando a inteligência artificial passar a atuar como uma camada operacional sobre toda a infraestrutura digital da propriedade. Monitorando. Interpretando. Correlacionando. Alertando. Recomendando.

E, cada vez mais, executando ações.

O próximo diferencial competitivo do produtor não será possuir mais dados. Será possuir um sistema capaz de agir sobre eles.

Mas essa transformação traz uma consequência importante. Quanto mais avançada se torna a tecnologia, menos razoável é esperar que o produtor domine sozinho disciplinas como conectividade, integração de dados, computação distribuída, cibersegurança, inteligência artificial e automação.

Da mesma forma que ninguém espera que uma fazenda construa sua própria rede elétrica, seu próprio porto ou sua própria rodovia, também não faz sentido imaginar que cada produtor construirá e operará sozinho sua própria infraestrutura digital.

Surgirá uma nova categoria de parceiros. Empresas capazes de integrar todas essas camadas e transformá-las em resultado econômico. Empresas capazes de traduzir conectividade em dados. Dados em inteligência. E inteligência em produtividade.

Essa visão não nasce apenas da observação do mercado. Nasce também da experiência prática de conectar milhões de hectares produtivos e acompanhar diariamente os desafios reais da digitalização no campo.

Foi justamente essa realidade que nos levou, na Sol By RZK, a evoluir de uma empresa focada em conectividade para uma plataforma de operação digital.

Conectividade continua sendo fundamental. Mas ela representa apenas a primeira camada. Sobre ela adicionamos monitoramento, suporte contínuo, integração de dados, inteligência aplicada e consultoria especializada para ajudar produtores e parceiros a capturar valor de uma transformação que já está em curso.

Enquanto a disputa global entre hyperscalers, operadoras, empresas espaciais e desenvolvedores de inteligência artificial desenha o futuro da infraestrutura digital, o campo continua precisando resolver problemas concretos todos os dias.

E talvez essa seja a pergunta mais importante desta década. Não como acessar a tecnologia. Mas como transformá-la em resultado.

Porque o próximo salto do agronegócio brasileiro não será definido pela empresa que possui a melhor antena, o melhor software ou o melhor algoritmo.

Será definido pela capacidade de integrar todos esses elementos em um sistema capaz de gerar produtividade, previsibilidade e competitividade para quem realmente importa: o produtor rural.

E essa transformação já começou.

(*) RODRIGO OLIVEIRA é CEO da Sol, empresa do Grupo RZK focada em tecnologia.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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