Domingo foi dia de cinema e pipoca com meu filho. Eu e meu marido fomos com ele assistir a Toy Story 5.
A escolha do filme era mais para agradá-lo. A gente achava que um filme na quinta edição seria mais do mesmo.
Mas o roteiro é bom e, na minha opinião, além de divertir as crianças, traz uma reflexão importante para os adultos: a criançada está esquecendo como brincar, adoecida e aprisionada às telas, sem conexão com brinquedos e com o mundo lúdico, exposta a conteúdos inapropriados, abordagens arriscadas e, aos poucos, perdendo a infância. E isso é, primeiramente, muito triste.
Neste momento, qualquer pessoa que assume a responsabilidade de educar - e não terceiriza essa missão para ninguém, muito menos para o celular - está apreensiva.
O que fazer para tirar a criança da tela?
O problema dessa pergunta é que a resposta pode não agradar, porque aumenta o trabalho dos pais com os filhos e, além disso, exige deles o exemplo de não estarem também presos à tela.
O primeiro passo é não dar celular para crianças e adolescentes. Do jeito que a coisa anda, antes mesmo de aprenderem a ler e escrever, muitos já têm um aparelho próprio. Algumas crianças carregam um iPhone 17, o último lançamento da marca. Usam WhatsApp e passam horas jogando sem supervisão de um adulto, expostas a conteúdos inadequados e a abordagens perigosas, como já vimos em inúmeras reportagens, campanhas e alertas.
Mas nada é fácil e a decisão de vetar o celular traz consequência. A criança - e ainda mais o adolescente - fora dessa vibe passa a ser vista como estranha. E o que é que costuma acontecer com os diferentes? Muitas vezes, são excluídos. Então tem que preparar a criança para ser essa pessoa diferente, porém segura de si, ciente que este é o caminho correto.
Alguém vai dizer que isso não é tão preocupante assim, que sobriveu ao programa do Gugu Liberato na TV aberta, que levava a pornografia para dentro da sala de casa em plena tarde de domingo. É verdade. Aquilo era ruim. Mas o excesso de tela é muito pior.
No tempo do Gugu, a televisão podia ser desligada com mais facilidade. A família inteira ouvia o que estava sendo exibido. E a TV não cabia na palma da mão. O celular cabe - e parece uma extensão de quem o utiliza, transmite informações no sigilo, na calada da noite. Está presente desde a hora de acordar, durante as refeições, nos deslocamentos, no banheiro e até na hora de dormir.
Outros podem dizer que essa narrativa revela aversão à tecnologia. Pelo contrário, a tecnologia traz benefícios. A Finlândia, que implantou um sistema público universal de ensino e é considerada referência mundial em educação, oferece em suas escolas laboratórios com tecnologia de ponta em áreas como robótica, biotecnologia, desenvolvimento de jogos e impressão 3D. O celular foi banido de sala de aula, mas tem sido usado sim com intuito pedagógico. Então a tecnologia, como instrumento, é válida demais.
O segundo passo é dizer não para a criança, para o adolescente. Tem que controlar o conteúdo e o tempo de tela, exercendo uma prerrogativa que todo pai e toda mãe têm: estabelecer limites. Simples assim, deu meia hora, acabou a tela. Agora é hora de brincar, ler, desenhar, conviver com os cachorros, os gatos, os amigos e a família, fazer tarefa, estudar, cuidar das pequenas responsabilidades que devem ser ensinadas desde cedo. É um desafio grande, diário. Muito mais fácil seria dizer sim.
Educar uma criança para que ela se transforme em um adulto saudável, feliz e capaz de contribuir para a vida coletiva é uma das tarefas mais complexas que existem. É difícil demais. E o uso das telas é um dos grandes paradigmas do nosso tempo, já que pode ser escada ou entrave ao nosso projeto. Precisamos enfrentá-lo com responsabilidade, dentro de casa. A escola sozinha não dá conta.
O legal do Toy Story 5 é justamente a defesa do equilíbrio. A internet entrega pronta muita coisa interessante - não apenas educativa, mas também divertida, criativa e lúdica. Mas não pode ficar só nisso, porque a criança precisa fantasiar, filosofar e criar, para ser capaz de também criar a si mesma como pessoa plena.
(*) KEKA WERNECK é jornalista e mãe de dois filhos.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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