Nascida Mary Tomlinson, em 24 de fevereiro de 1890 na zona rural do Condado de Marion nos EUA, ficou conhecida como Marjorie Main. A artista se desenvolveu como atriz e cantora da “Era do Ouro de Hollywood”.
Todavia, quando se pensa nas estrelas femininas da Hollywood, a memória coletiva costuma evocar rostos delicados, e corpos moldados. No entanto, entre as décadas de 1930 e 1950, ela rompeu esse enquadramento com a potência de uma enxada cravada na terra. Seu corpo, sua voz rouca, sua presença física expansiva e sua recusa em performar a feminilidade dócil tornaram-se, ainda que sob o rótulo da comicidade, um gesto político de resistência.
Main fazia questão de não se enquadrar no padrão de beleza hollywoodiano. E é justamente aí que reside a sua força simbólica. Em uma indústria que consolidou a mulher como objeto de contemplação, ela ocupava o lugar de outra forma. Ela não era filmada para ser desejada; era filmada para agir, falar alto, confrontar.
Sua personagem mais conhecida, “Ma Kettle”, da série iniciada com The Egg and I (1947), representava a mulher rural, trabalhadora, mãe de muitos filhos, dona de uma energia indomável. À primeira vista, poderia parecer uma caricatura. Mas, sob a lente feminista, essa figura revela outra camada: a afirmação de uma mulher que não pede licença para existir, que não suaviza sua voz, que não encolhe o corpo para caber no quadro social. A personagem não era objeto passivo do marido, pois era ela quem conduzia o caos familiar com liderança e sagacidade.
A artista encarnava a feminilidade subversiva. Em um tempo em que o ideal feminino estava associado à domesticidade elegante e silenciosa, ela apresentava uma mulher barulhenta, irônica, dona do próprio espaço. Sua comicidade não era submissão; era estratégia.
O humor, historicamente, foi um dos poucos espaços em que mulheres puderam tensionar estruturas sem sofrer censura direta. Ao fazer rir, desloca-se a crítica. Main dominava essa arte. Seu jeito brusco desmontava a expectativa da mulher recatada; sua postura corporal contrariava a ideia de fragilidade feminina.
A filósofa Judith Butler sustenta que o gênero é performativo, isto é, um conjunto de atos reiterados que produzem a ilusão de uma identidade estável. Marjorie Main, em cena, desmontava essa repetição normativa. Sua performance evidenciava que o feminino não é essência, mas construção.
Ela se destacou em outro aspecto: a idade. Em uma indústria obcecada pela juventude feminina, ela construiu a sua carreira com um pouco mais de idade. Isso, por si só, constitui um ato de insurgência. Mulheres envelhecem, e continuam existindo, desejando, trabalhando, rindo.
Marjorie recusou o manual normativo da feminilidade. Ela mostrou que há múltiplas formas de ser mulher, inclusive aquelas que não buscam agradar.
Main ocupava espaço, e não apenas na tela. Seu legado pode não ser lembrado nos manuais tradicionais de história do cinema com a mesma reverência dedicada às divas glamourosas. Mas é precisamente aí que reside a importância de revisitá-la.
A atriz abriu uma fresta demonstrando que a mulher pode ser engraçada sem ser ornamental; pode ser rude sem ser desumanizada; pode ser mãe sem ser idealizada. Ao fazer do riso uma arma, transformou a marginalidade estética em presença incontornável.
Resgatar Marjorie Main é reconhecer que a história das mulheres no cinema não se limita às musas, admitindo que há força na mulher que suja as mãos, que ergue a voz, que ri de si mesma e do mundo.
(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.
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