A ideia de que existe um eleitor de esquerda ou de direita uniforme e monolítico é confortável porque simplifica narrativas, mas é falsa diante dos dados e das vozes reais de eleitores brasileiros. No Brasil real, cada campo político é um mosaico complexo de disputas internas, prioridades contraditórias e percepções divergentes. Nenhum campo é hegemônico.
Isso fica claro quando se observa o cenário político atual e os levantamentos mais recentes.
Em uma pesquisa nacional divulgada em 2025 pelo instituto Quaest e repercutida pelo Metrópoles, apenas 14 por cento dos brasileiros se identificam como lulistas ou petistas e 11 por cento como bolsonaristas. Esses percentuais mostram que a maior parte do eleitorado não se encaixa rigidamente nesses rótulos simbólicos ou não se identifica diretamente com essas figuras centrais da esquerda e da direita. Além disso, uma fatia importante declarou não ter posicionamento político definido.
Esses números confirmam algo que muitos analistas políticos já vinham apontando. Não basta reduzir eleitores a identificações com lideranças específicas. Eleitores costumam combinar valores, escolhas e experiências que nem sempre se alinham perfeitamente a uma narrativa partidária ou ideológica rígida.
A pluralidade é evidente dentro do campo que costuma ser chamado de esquerda. Em estudos qualitativos que exploram percepções de eleitores autoidentificados como progressistas em diversas capitais brasileiras, algumas pessoas priorizam políticas sociais e investimentos em educação, outras levantam preocupações com segurança pública ou com alianças partidárias que consideram problemáticas. Isso mostra que dentro do mesmo rótulo
de esquerda existem múltiplas interpretações sobre o que isso significa na prática e nem todos se alinham automaticamente a lideranças ou a partidos específicos.
Da mesma forma, no espectro político que chamamos de direita convivem eleitores com prioridades bastante distintas. Há liberais econômicos que defendem privatizações e menor intervenção do Estado na economia, há conservadores sociais que colocam ênfase em
valores tradicionais e segurança, e há ainda aqueles que priorizam pragmatismo e resultados imediatos mesmo que isso contraponha discursos ideológicos mais ortodoxos.
Essa diversidade interna tanto à esquerda quanto à direita tem consequências práticas importantes para campanhas políticas e para a compreensão do eleitorado brasileiro.
Estratégias que tratam grupos inteiros como blocos homogêneos, por exemplo assumindo que todo eleitor de esquerda pensa de uma certa forma ou todo eleitor de direita apoia uma certa ideia, tropeçam justamente porque ignoram as tensões internas, as prioridades
divergentes e as motivações pessoais de cada cidadão.
Cada voto é moldado por memórias, experiências, necessidades e expectativas concretas e não apenas por identidade ideológica ou por alinhamentos simbólicos com líderes políticos.
Reduzir eleitores a rótulos fixos é ignorar o que faz a política brasileira ser complexa e dinâmica, uma arena em que diversidade e conflito coexistem e onde a hegemonia é apenas uma ilusão conveniente para discursos simplificados.
Compreender e dialogar com essa pluralidade em vez de alimentá-la como se fosse unidade é o que distingue campanhas eficazes de narrativas vazias e eleitores conscientes de meros estereótipos.
(*) ROBERTA HERINGER, estrategista digital para perfis políticos e criadora do Estratégia Política Digital e escreve para HiperNoticias. Instagram: @robertaheringers
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Ana Teló 19/02/2026
Incrível o que a Roberta escreve. Ela tem uma visão muito rara sobre os assuntos escritos por ela, ela escreve com propriedade e agrega muito conhecimento e senso crítico nas pessoas. Ela é necessária
1 comentários