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Artigos Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2026, 09:28 - A | A

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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2026, 09h:28 - A | A

ROSANA DE BARROS

O silêncio na cabine

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS

O caso do piloto Sérgio Antônio Lopes, amplamente divulgado pelos veículos de comunicação, reacendeu um debate que o Brasil insiste em adiar: o lugar das mulheres nos espaços de poder, a cultura corporativa que naturaliza abusos, e o pacto de silêncio que protege homens influentes. 

Não se cuida de um episódio individual, mas, sim, de um sintoma estrutural.  Com esse lamentável fato, é possível compreender como funcionam as engrenagens do patriarcado, especialmente em ambientes historicamente masculinizados, como é a aviação. Já foram vistas diversas atitudes de desrespeito quando são mulheres a pilotar aviões, externando como esse lugar produz desigualdade, medo e silenciamento.

A aviação civil sempre foi marcada por cultura hierárquica rígida, altamente técnica e predominantemente masculina. Mulheres demoraram décadas para conquistar espaço como comandantes e copilotas. Ainda hoje, são minoria nas cabines de comando. Assim, quando um caso envolvendo um piloto ganha repercussão, ele não ocorre num vácuo. Ele se insere numa estrutura em que homens ocupam majoritariamente as posições de autoridade, enquanto mulheres são comissárias, copilotas, e funcionárias administrativas, com grande destaque de atuação para onde exercem o cuidado. 

É importante frisar que não se parte do pressuposto de culpa automática. Parte do reconhecimento de que há assimetria histórica de poder. E onde há poder concentrado, há risco de abuso. Um dos traços mais persistentes do machismo institucional é a tendência a desacreditar mulheres que denunciam. Questiona-se sua memória, sua intenção, sua moralidade. Pergunta-se o que vestiam, por que demoraram a falar, ou se não houve “mal-entendido”.

Essa lógica é bastante conhecida: desloca-se o foco da conduta denunciada para a conduta da denunciante. O efeito é devastador!  Nas redes sociais e em rodas de conversa, rapidamente surgem discursos de defesa automática, teorias conspiratórias e acusações contra quem denunciou. Não basta perguntar se houve ou não um fato isolado. É preciso perguntar que tipo de ambiente permite que determinados comportamentos aconteçam, e por que tantas mulheres relatam experiências de assédio.

Apesar de os crimes não terem acontecido dentro do ambiente de trabalho, os pilotos vivem em ambientes hierarquizados, onde a diferença de cargo é também diferença de poder simbólico. Um comandante não é apenas um colega de trabalho: é alguém cuja avaliação pode impactar carreira, escalas e reputação. 

Neste momento é preciso deixar de proteger estruturas, pois apenas o processo criminal e uma futura condenação não farão a vida das vítimas voltar ao normal. Perguntas são necessárias. Quantos casos nunca chegam à mídia? Quantas denúncias ficam restritas a corredores internos? Quantas mulheres pedem transferência, mudam de setor ou abandonam a carreira? Quantas famílias se mudam, para se afastar dos agressores?

Em apertada síntese, o piloto Sérgio agia se aproximando dos responsáveis legais das crianças e adolescentes com parcas condições financeiras. Após, fazia a proposta. Segundo as investigações, o número de vítimas pode ser bem maior.  

Esse triste episódio reverberou na família do agressor. Ele possuía esposa psicóloga, e que narrou ter ficado horrorizada ao tomar conhecimento dos crimes. A mulher relatou que o casal retornou há pouco tempo de uma viagem de lua de mel.

Esse caso não é apenas sobre um homem, mas sobre um sistema. Enfrentar esse sistema é a prevenção necessária para que outros delitos não ocorram. A igualdade não pode ser promessa abstrata, é prática cotidiana. E romper com o silêncio é um ato político!

(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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