A presidente da Câmara de Cuiabá, Paula Calil (PL), e seu antecessor, o hoje deputado estadual Juca do Guaraná (MDB), apresentam visões distintas sobre o "peso" da cadeira presidencial e o fantasma da "Casa dos Horrores", diante das investigações da Operação Gorjeta. A ação tem como principal alvo o vereador afastado Chico 2000 (sem partido) e ex-presidente da Casa e é o epicentro de uma crise com um vasto precedente dos quais outros ex-mandatários foram protagonistas.
Para o ex-presidente Juca do Guaraná, a volta das operações policiais ao Palácio Paschoal Moreira Cabral é recebida com profunda tristeza. Ele relembra que assumiu a Casa sob o pesado estigma de décadas de escândalos e trabalhou para quebrar esse ciclo.
“É lamentável. Assumimos com o desgaste que a Câmara já tinha, de 'Casa dos Horrores'. Graças a Deus, na nossa gestão não teve nenhuma operação e as contas foram aprovadas sem ressalvas pelo Tribunal de Contas”, destacou Juca.
O deputado ressaltou ainda que conseguiu quebrar o "tabu" político da cadeira. "Falava-se que havia 20 anos que a Câmara não elegia um presidente como deputado estadual. Quebramos esse paradigma". Para ele, o cenário atual é um retrocesso para a imagem institucional que ele buscou recuperar.
Já a atual presidente, Paula Calil, tentou se distanciar do assunto e adotou uma postura de blindagem institucional. Vereadora de primeiro mandato, ela nega sentir o "peso negativo" do cargo, e ao ser questionada, desconversou, e focou nos números de sua gestão iniciada em 2025.
Em outras entrevistas, Calil admitiu que o desgaste para o Chico é "inegável", mas reforçou que a conduta de cada um dos 27 vereadores deve ser individualizada, defendendo a abertura de uma Comissão Processante como ferramenta de transparência e ampla defesa.
A LINHAGEM DE PRESIDENTES: O TRONO DE VIDRO
Ser presidente da Câmara de Cuiabá tornou-se, nas últimas décadas, uma profissão de risco jurídico. O termo "Casa dos Horrores" ganhou força em 2009. Naquela época, a população indignada chegou a levar baldes e vassouras para lavar o chão da Câmara, em um ato simbólico de purificação.
O motivo era duplo com Luthero Ponce e Rafl Leite. Luthero, que havia presidido a casa nos anos de em 2007 e 2008, foi acusado de liderar um desvio de R$ 7 milhões através de empresas "fantasmas" e licitações fraudulentas. O então vereador foi cassado e condenado a ressarcir o erário.
Já Ralf Leite, que protagonizou o escândalo mais midiático da história da capital ao ser flagrado com um travesti menor de idade na região do "Zero Quilômetro" em Várzea Grande. Ralf foi o primeiro vereador cassado na história de Cuiabá, embora tenha conseguido retornar anos depois via STJ.
Chica Nunes, presidente da Casa entre 2004 e 2006, foi condenada por um rombo de mais de R$ 6 milhões. O esquema envolvia a falsificação de notas fiscais para compras que nunca existiram.
Mesmo condenada a 11 anos de prisão, Chica seguiu orbitando o poder por anos através de liminares, inclusive se elegendo deputada estadual e em cargos de assessoria no Senado.
Deucimar Silva, que assumiu com discurso de "mão de ferro", acabou denunciado por superfaturar a reforma do prédio da Câmara em R$ 1,3 milhão. A obra, feita em pleno recesso de fim de ano, apresentava infiltrações e gesso caindo logo após o pagamento.
João Emanuel Moreira Lima, por sua vez, foi eleito com votação recorde e teve uma carreira meteórica que terminou na Operação Aprendiz. O Gaeco flagrou, em vídeo, o parlamentar ensinando como direcionar licitações de gráficas para obter dinheiro para sua futura campanha.
SOFISTICAÇÃO
Se nos tempos de Chica Nunes o suposto desvio era "bruto", com notas fiscais falsas, o caso de Chico 2000 revela uma sofisticação com a suposta corrupção via emenda parlamentar.
A investigação atual aponta que o dinheiro saía legalmente do orçamento, mas retornava "por fora" para o bolso do político após passar por Institutos e empresas de uniformes.
Confira abaixo a lista dos ex-presidentes da Câmara de Cuiabá envolvidos em escândalos:
2025-2026: Paula Calil (PL), atual presidente.
2023-2024: Chico 2000, atualmente afastado judicialmente, e alvo de três operaçãoes em menos de um ano, incluindo a Gorjeta.
2021-2022: Juca do Guaraná, teve as Contas aprovadas e foi eleito deputado estadual.
2019-2020: Misael Galvão, denunciado por Caixa 2 em campanha.
2017-2018: Justino Malheiros, denunciado por suposto desvio de R$ 142 mil em um contrato.
2016: Júlio Pinheiro / Haroldo Kuzai Vacância por falecimento de Pinheiro.
2013-2014: João Emanuel, supostos desvios milionários, mandato encurtado por prisão e cassação.
2009-2010: Deucimar Silva, denunciado por superfaturamento de reforma.
2007-2008: Lutero Ponce, cassado, condenado por desvios milionários.
2005-2006: Chica Nunes, condenada por rombo de R$ 6 milhões.
2003-2004: Luiz Marinho, condenado por fraudes e empresas fantasmas.
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