Foi com um aperto de mãos, diante da antiga estrutura do Hospital Central, em Cuiabá, que o então ex-secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo, e o então ex-governador Mauro Mendes, hoje senador eleito, selaram o compromisso de transformar uma obra abandonada há 34 anos em um hospital público de alta complexidade.
O gesto simbólico ocorreu entre paredes inacabadas e marcas do tempo, o que existia era apenas a promessa de um futuro diferente. Anos depois, o concreto que antes testemunhava o abandono passou a abrigar histórias de recuperação, profissionais de diferentes especialidades e pacientes que encontraram no Sistema Único de Saúde (SUS) uma oportunidade que, para muitos, parecia distante.
A história dessa transformação começou em 2019. Recém-empossado, Mauro Mendes incumbiu o então secretário de Saúde de realizar um diagnóstico da rede pública estadual. Em meio aos levantamentos, reuniões e visitas técnicas, Gilberto passou a observar uma construção que fazia parte da paisagem do Centro Político Administrativo. Da janela do gabinete, o prédio inacabado despertava a pergunta: “o que foi planejado para aquele espaço e por que uma estrutura daquela dimensão permanecia sem cumprir sua finalidade?”.
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DESAFIOS NA OBRA
Queríamos o mais moderno hospital público do país
A curiosidade deu lugar a um desafio administrativo, financeiro e humano. A retomada exigiria muito mais do que concluir o prédio e instalar equipamentos. Seria necessário repensar o projeto, adequar a estrutura a demanda, construindo um modelo de atendimento capaz de preencher lacunas históricas da assistência de alta complexidade em Mato Grosso.
O primeiro obstáculo apareceu quando a equipe técnica avaliou as condições do prédio. O projeto original, elaborado décadas antes, previa pouco mais de nove mil metros quadrados e já não correspondia às exigências legais nem às necessidades da rede estadual.
"O dilema foi: demolimos tudo ou aproveitamos algo que seja possível ser revigorado com segurança para reduzir os prejuízos à população?", recorda Gilberto.
A escolha foi preservar e reforçar parte da estrutura, que passou a abrigar algumas enfermarias. O restante deu lugar a um novo projeto. O hospital que inicialmente ocuparia pouco mais de nove mil metros quadrados passou a ter uma dimensão projetada de 32 mil metros quadrados, mais de três vezes a área prevista originalmente.
A proposta também mudou de propósito. Não se tratava mais de simplesmente terminar uma construção interrompida, mas de criar uma unidade especializada em procedimentos e tratamentos de alta complexidade.
"Queríamos resolver uma grande lacuna na existência do SUS no estado. O novo plano tinha que resolver os problemas da alta complexidade", explica o ex-secretário.
JL Siqueira/ALMT
O ex-governador Mauro Mendes e o ex-secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo.
A conclusão do empreendimento tornou-se prioridade do governo, com recursos integralmente assegurados pelo orçamento estadual, segundo Gilberto. Com o avanço da obra, outro desafio se apresentou: fazer funcionar uma estrutura hospitalar equipada com tecnologias avançadas, sistemas de informação, mobiliário, insumos e equipes de diferentes especialidades.
A gestão da unidade foi confiada ao Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, instituição escolhida após diversas conversas com Mauro Mendes.
"Queríamos o mais moderno hospital público do país. Tínhamos dificuldades gerenciais e o governo decidiu estrategicamente buscar apoio de entidades especializadas na gestão de hospitais", contou Gilberto.
O desafio ainda estava longe de terminar. Para o ex-secretário, a etapa mais difícil foi a aquisição e a instalação dos equipamentos. Os processos licitatórios para tecnologias hospitalares avançadas exigiam planejamento e precisão.
"Um hospital é um combo de variantes complexas que precisam funcionar com a precisão de um relógio", compara.
Entre as tecnologias incorporadas estavam a plataforma de cirurgia robótica, sistemas avançados de circulação extracorpórea e equipamentos destinados ao tratamento de pacientes em estado crítico. A pandemia de covid-19, porém, acrescentou mais obstáculos ao cronograma, com limitações de pessoal e dificuldades para manter o ritmo de implantação.
"Foram dias de muita angústia, trabalhando com déficit de pessoal e com dois anos de pandemia para complicar", conta.
INTERCÂMBIO DE PROFISSIONAIS
Enquanto o concreto ganhava forma em Cuiabá, a construção de outro hospital acontecia longe dos canteiros de obras. Em São Paulo, a enfermeira Alessandra Bokor acompanhava os preparativos para colocar a unidade em funcionamento. Com trajetória profissional no Einstein desde 2003, ela participou do projeto ainda na fase de planejamento e compara o processo a uma gestação: meses de preparação, expectativas, desafios e trabalho até o momento de receber as primeiras vidas.
Natural de São Paulo, Alessandra deixou sua cidade natal e se mudou para Cuiabá com a família para assumir a direção-geral do Hospital Central. Foi a primeira profissional transferida do Einstein para participar diretamente da operação em Mato Grosso.
A estrutura física precisava ganhar vida. Antes de receber pacientes, era necessário contratar profissionais, organizar equipes, estabelecer protocolos e preparar cada setor para funcionar de maneira integrada.
A primeira contratação direta do hospital foi uma profissional da área de Recursos Humanos, Flávia. A partir dali, começou a formação de um corpo de trabalhadores que hoje reúne 1.400 colaboradores e 500 médicos. Mais de 70% dos profissionais são mato-grossenses, incluindo trabalhadores de Cuiabá, Várzea Grande e cidades do interior.
A implantação também abriu portas para quem havia deixado o estado em busca de formação e oportunidades. Profissionais que se especializaram em outras regiões encontraram no Hospital Central a possibilidade de retornar e atuar em uma estrutura de alta complexidade.
"A gente percebeu pessoas voltando para o estado de Mato Grosso, pessoas que já eram daqui, que se formaram e acabaram indo fazer residência fora e não voltaram", relata Alessandra.
O projeto também atraiu trabalhadores de Pernambuco, Minas Gerais e Espírito Santo, além de profissionais transferidos diretamente do Einstein. A integração das equipes foi acompanhada por treinamentos e simulações realísticas, que reproduzem situações enfrentadas no cotidiano hospitalar.
A gente percebeu pessoas voltando para Mato Grosso
A transferência de conhecimento alcançou também a cirurgia robótica. O urologista Fernando Leão, por exemplo, concluiu uma pós-graduação na área no Einstein, em São Paulo, e passou pelo processo de habilitação para atuar com a tecnologia.
O programa contempla quatro especialidades: urologia, cirurgia geral, cirurgia pediátrica e ginecologia. A tecnologia representa uma ampliação das possibilidades de atendimento aos usuários do SUS na rede pública estadual.
TECNOLOGIA QUE TRABALHA PELA VIDA
Por trás das portas do centro cirúrgico, a transformação ganhou forma nas mãos de médicos, enfermeiros, técnicos, anestesistas e demais profissionais responsáveis por fazer cada equipamento funcionar em conjunto.
Um deles é o cirurgião geral e do aparelho digestivo Yuri Tamazauskas, que veio de São Paulo para coordenar a linha cirúrgica do Hospital Central. Integrante do corpo clínico do Einstein, ele mantém atividades na unidade paulista enquanto acompanha a operação em Cuiabá.
O centro cirúrgico reúne dez salas convencionais e uma sala híbrida, preparada para procedimentos que combinam técnicas cirúrgicas tradicionais e intervenções realizadas por meio dos vasos sanguíneos. Ao todo, 25 especialidades atuam na estrutura, considerando também as equipes de apoio e retaguarda.
Há equipamentos de neuronavegação, que auxiliam na localização de lesões em determinadas cirurgias neurológicas, e sistemas a laser utilizados em procedimentos urológicos. A unidade também dispõe de equipamentos avançados de circulação extracorpórea, capazes de substituir temporariamente funções do coração e dos pulmões durante determinadas cirurgias cardíacas.
A tecnologia, contudo, não está restrita às salas cirúrgicas. Nas unidades de terapia intensiva, o hospital passou a oferecer um tratamento até então indisponível em hospitais públicos de Mato Grosso: a hemodiálise contínua.
São cinco equipamentos, três destinados à UTI Adulta e dois à UTI Pediátrica. A tecnologia permite substituir temporariamente parte das funções dos rins em pacientes com comprometimento renal grave.
Diferentemente da hemodiálise convencional, geralmente realizada em sessões de aproximadamente quatro horas, o tratamento contínuo pode se estender por até 72 horas. A retirada gradual de líquidos e toxinas é especialmente importante para pacientes em estado crítico, cujo organismo pode não tolerar alterações bruscas na circulação sanguínea e na pressão arterial.
CONHEÇA A HEMODIÁLISE CONTÍNUA
O coordenador médico da UTI Adulta, Eduardo Gomes, explica que a tecnologia amplia as possibilidades de assistência a pacientes cuja instabilidade clínica dificulta a realização do tratamento convencional.
"Quando você retira muito rápido sangue e toxinas do organismo, o estado de saúde do paciente grave pode piorar e, muitas vezes, é preciso interromper o tratamento. Com essa máquina, é possível fazer essa retirada de forma mais lenta e segura. Isso dá tempo para que os antibióticos façam efeito e para que a equipe consiga estabilizar o organismo do paciente, aumentando as chances de ele atravessar esse período crítico com mais segurança", esclarece.
A incorporação dos equipamentos exigiu treinamento técnico e capacitação das equipes, conduzidos pela fabricante e por especialistas do Einstein. Para Alessandra, a qualificação dos profissionais é tão importante quanto a aquisição das máquinas.
"Preparamos os profissionais para utilizar os novos equipamentos e, também, para aplicar protocolos e práticas assistenciais já adotados pelo Einstein. O objetivo foi padronizar o cuidado e garantir aos usuários do SUS de Mato Grosso o mesmo padrão de excelência assistencial que orienta a atuação da organização", afirma.
Outra tecnologia que marcou o início das atividades do centro cirúrgico foi a plataforma robótica. O sistema permite ao médico realizar procedimentos minimamente invasivos com visão tridimensional e instrumentos que oferecem maior precisão de movimentos.
O robô, entretanto, não opera sozinho. O cirurgião permanece no comando, utilizando um console que controla os braços da plataforma. Ao lado do paciente, outros profissionais acompanham cada etapa do procedimento.
A tecnologia amplia as possibilidades de tratamento, mas não elimina os riscos inerentes a uma cirurgia. A segurança depende da avaliação individual do paciente, da preparação das equipes e do cumprimento dos protocolos assistenciais.
A SONHADA CIRURGIA
É na história de Mauri Aparecido dos Santos, de 62 anos, que a dimensão humana dessa transformação encontra um rosto. Morador de Tangará da Serra, a 241 quilômetros de Cuiabá, ele conviveu durante aproximadamente três anos com a expectativa de realizar uma cirurgia para tratar um câncer de próstata. O tempo até o tratamento foi marcado pela espera e pela incerteza.
Mauri entrou para a história do Hospital Central como o primeiro paciente da unidade a realizar uma cirurgia robótica pelo Sistema Único de Saúde, em 11 de fevereiro de 2026.
O procedimento, uma prostatectomia radical, consistiu na retirada da próstata e foi conduzido pelo urologista Fernando Leão. Com o auxílio da plataforma robótica, o médico utilizou visão tridimensional e instrumentos que permitem movimentos mais precisos em uma região do corpo de difícil acesso.
Depois de anos aguardando a oportunidade, Mauri teve uma recuperação considerada surpreendente. Recebeu alta pouco tempo após a cirurgia, relatou não ter sentido dores durante o período de recuperação e, gradualmente, retomou a rotina e o convívio com a família.
Para quem esperou tanto pelo tratamento, o procedimento representou mais do que o acesso a uma tecnologia avançada. Significou a possibilidade de deixar para trás um período de incertezas e voltar a olhar para a vida cotidiana.
A lembrança daquele dia também ficou marcada para Alessandra Bokor. Enquanto profissionais e convidados acompanhavam o início de uma nova etapa da assistência pública em Mato Grosso, a diretora percebeu uma mulher chorando nas proximidades do auditório.
Ela aproximou-se para saber o que havia acontecido. As lágrimas, porém, não eram de tristeza. A mulher era esposa de Mauri e acabara de receber notícias do urologista sobre o resultado do procedimento.
Depois de explicar como havia transcorrido a cirurgia, Fernando Leão a abraçou. O gesto emocionou a mulher e permaneceu na memória da diretora.
A cena revelou uma dimensão que nenhum equipamento consegue traduzir sozinho: que o cuidado também acontece no acolhimento, na escuta e na segurança oferecida a quem acompanha um paciente durante um momento de fragilidade.
A história de Mauri ajuda a compreender que a transformação do Hospital Central não se resume à incorporação de tecnologias. Por trás de cada procedimento existe alguém que espera, uma família que acompanha e uma oportunidade de recuperar a saúde e reconstruir planos.
NÚMEROS QUE CONTAM HISTÓRIA
Entre janeiro e setembro de 2026, o Hospital Central registrou 35.035 atendimentos e 3.904 internações. No mesmo período, foram realizadas 8.241 consultas ambulatoriais, 19.287 exames de diagnóstico por imagem e 160.606 exames de análises clínicas e anatomia patológica.
A produção cirúrgica chegou a 2.199 procedimentos, incluindo mais de 70 cirurgias robóticas. A unidade também contabilizou 661 atendimentos de urgência regulados e 743 consultas de serviço social e odontologia.
Os números foram registrados durante a implantação gradual dos serviços. A unidade atingiu a maturidade de ocupação no final de julho e, em setembro, segundo mês de funcionamento pleno, apresentou taxa geral de ocupação de 75,78%. Nas UTIs, os índices chegaram a 91,9% na unidade adulta e 88,6% na pediátrica.
Os dados dimensionam o alcance de uma estrutura que atravessou décadas de paralisação, exigiu a reformulação de seu projeto e mobilizou profissionais de diferentes áreas para finalmente abrir as portas à população.
Para Gilberto Figueiredo, a conclusão do hospital representa um dos capítulos mais desafiadores de sua trajetória na administração pública. Ao recordar o início dos atendimentos, o ex-secretário atribui à fé e ao esforço coletivo a superação das dificuldades.
“Não há nada mais gratificante do que ver a felicidade no rosto de um paciente quando tem seu sofrimento diminuído ou sua vida salva”, pontuou o ex-secretário.
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