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Política Quinta-feira, 05 de Novembro de 2026, 18:28 - A | A

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REFERÊNCIA PARA O BRASIL

Hospital Central de MT transforma obra paralisada por 34 anos em exemplo de saúde que dá certo

A unidade em Cuiabá, administrada pelo Israelita Albert Einstein, conta com tecnologia de ponta e estrutura especializada para oferecer atendimento de alta complexidade pelo SUS

JÔ AIKO E CAMILA RIBEIRO
DA REDAÇÃO

Reprodução/Assessoria

hospitalcentral

O Hospital Central, em Cuiabá, administrado pelo Israelita Albert Einstein, que oferta atendimento de alta complexidade pelo SUS.

Foi com um aperto de mãos, diante da antiga estrutura do Hospital Central, em Cuiabá, que o então ex-secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo, e o então ex-governador Mauro Mendes, hoje senador eleito, selaram o compromisso de transformar uma obra abandonada há 34 anos em um hospital público de alta complexidade.

O gesto simbólico ocorreu entre paredes inacabadas e marcas do tempo, o que existia era apenas a promessa de um futuro diferente. Anos depois, o concreto que antes testemunhava o abandono passou a abrigar histórias de recuperação, profissionais de diferentes especialidades e pacientes que encontraram no Sistema Único de Saúde (SUS) uma oportunidade que, para muitos, parecia distante.

A história dessa transformação começou em 2019. Recém-empossado, Mauro Mendes incumbiu o então secretário de Saúde de realizar um diagnóstico da rede pública estadual. Em meio aos levantamentos, reuniões e visitas técnicas, Gilberto passou a observar uma construção que fazia parte da paisagem do Centro Político Administrativo. Da janela do gabinete, o prédio inacabado despertava a pergunta: “o que foi planejado para aquele espaço e por que uma estrutura daquela dimensão permanecia sem cumprir sua finalidade?”.

ASSISTA DEPOIMENTO DO EX-SECRETÁRIO DE SAÚDE

DESAFIOS NA OBRA

Queríamos o mais moderno hospital público do país

A curiosidade deu lugar a um desafio administrativo, financeiro e humano. A retomada exigiria muito mais do que concluir o prédio e instalar equipamentos. Seria necessário repensar o projeto, adequar a estrutura a demanda, construindo um modelo de atendimento capaz de preencher lacunas históricas da assistência de alta complexidade em Mato Grosso.

O primeiro obstáculo apareceu quando a equipe técnica avaliou as condições do prédio. O projeto original, elaborado décadas antes, previa pouco mais de nove mil metros quadrados e já não correspondia às exigências legais nem às necessidades da rede estadual.

"O dilema foi: demolimos tudo ou aproveitamos algo que seja possível ser revigorado com segurança para reduzir os prejuízos à população?", recorda Gilberto.

Reprodução/Governo de MT

Obras em andamento Hospital Central

 Operários nas obras do Hospital Central. 

A escolha foi preservar e reforçar parte da estrutura, que passou a abrigar algumas enfermarias. O restante deu lugar a um novo projeto. O hospital que inicialmente ocuparia pouco mais de nove mil metros quadrados passou a ter uma dimensão projetada de 32 mil metros quadrados, mais de três vezes a área prevista originalmente.

A proposta também mudou de propósito. Não se tratava mais de simplesmente terminar uma construção interrompida, mas de criar uma unidade especializada em procedimentos e tratamentos de alta complexidade.

"Queríamos resolver uma grande lacuna na existência do SUS no estado. O novo plano tinha que resolver os problemas da alta complexidade", explica o ex-secretário.

JL Siqueira/ALMT

Mauro Mendes, Gilberto Figueiredo

O ex-governador Mauro Mendes e o ex-secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo.

A conclusão do empreendimento tornou-se prioridade do governo, com recursos integralmente assegurados pelo orçamento estadual, segundo Gilberto. Com o avanço da obra, outro desafio se apresentou: fazer funcionar uma estrutura hospitalar equipada com tecnologias avançadas, sistemas de informação, mobiliário, insumos e equipes de diferentes especialidades.

A gestão da unidade foi confiada ao Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, instituição escolhida após diversas conversas com Mauro Mendes.

"Queríamos o mais moderno hospital público do país. Tínhamos dificuldades gerenciais e o governo decidiu estrategicamente buscar apoio de entidades especializadas na gestão de hospitais", contou Gilberto.

O desafio ainda estava longe de terminar. Para o ex-secretário, a etapa mais difícil foi a aquisição e a instalação dos equipamentos. Os processos licitatórios para tecnologias hospitalares avançadas exigiam planejamento e precisão.

"Um hospital é um combo de variantes complexas que precisam funcionar com a precisão de um relógio", compara.

Entre as tecnologias incorporadas estavam a plataforma de cirurgia robótica, sistemas avançados de circulação extracorpórea e equipamentos destinados ao tratamento de pacientes em estado crítico. A pandemia de covid-19, porém, acrescentou mais obstáculos ao cronograma, com limitações de pessoal e dificuldades para manter o ritmo de implantação.

"Foram dias de muita angústia, trabalhando com déficit de pessoal e com dois anos de pandemia para complicar", conta.

Camila Ribeiro/HNT

Gilberto Figueiredo

 

INTERCÂMBIO DE PROFISSIONAIS

Enquanto o concreto ganhava forma em Cuiabá, a construção de outro hospital acontecia longe dos canteiros de obras. Em São Paulo, a enfermeira Alessandra Bokor acompanhava os preparativos para colocar a unidade em funcionamento. Com trajetória profissional no Einstein desde 2003, ela participou do projeto ainda na fase de planejamento e compara o processo a uma gestação: meses de preparação, expectativas, desafios e trabalho até o momento de receber as primeiras vidas.

Natural de São Paulo, Alessandra deixou sua cidade natal e se mudou para Cuiabá com a família para assumir a direção-geral do Hospital Central. Foi a primeira profissional transferida do Einstein para participar diretamente da operação em Mato Grosso.

A estrutura física precisava ganhar vida. Antes de receber pacientes, era necessário contratar profissionais, organizar equipes, estabelecer protocolos e preparar cada setor para funcionar de maneira integrada.

Reprodução/Arquivo pessoal

Alessandra Bokor

A diretora do Hospital Central, Alessandra Bokor.

A primeira contratação direta do hospital foi uma profissional da área de Recursos Humanos, Flávia. A partir dali, começou a formação de um corpo de trabalhadores que hoje reúne 1.400 colaboradores e 500 médicos. Mais de 70% dos profissionais são mato-grossenses, incluindo trabalhadores de Cuiabá, Várzea Grande e cidades do interior.

A implantação também abriu portas para quem havia deixado o estado em busca de formação e oportunidades. Profissionais que se especializaram em outras regiões encontraram no Hospital Central a possibilidade de retornar e atuar em uma estrutura de alta complexidade.

"A gente percebeu pessoas voltando para o estado de Mato Grosso, pessoas que já eram daqui, que se formaram e acabaram indo fazer residência fora e não voltaram", relata Alessandra.

O projeto também atraiu trabalhadores de Pernambuco, Minas Gerais e Espírito Santo, além de profissionais transferidos diretamente do Einstein. A integração das equipes foi acompanhada por treinamentos e simulações realísticas, que reproduzem situações enfrentadas no cotidiano hospitalar.

A gente percebeu pessoas voltando para Mato Grosso

A transferência de conhecimento alcançou também a cirurgia robótica. O urologista Fernando Leão, por exemplo, concluiu uma pós-graduação na área no Einstein, em São Paulo, e passou pelo processo de habilitação para atuar com a tecnologia.

O programa contempla quatro especialidades: urologia, cirurgia geral, cirurgia pediátrica e ginecologia. A tecnologia representa uma ampliação das possibilidades de atendimento aos usuários do SUS na rede pública estadual.

TECNOLOGIA QUE TRABALHA PELA VIDA

Por trás das portas do centro cirúrgico, a transformação ganhou forma nas mãos de médicos, enfermeiros, técnicos, anestesistas e demais profissionais responsáveis por fazer cada equipamento funcionar em conjunto.

Um deles é o cirurgião geral e do aparelho digestivo Yuri Tamazauskas, que veio de São Paulo para coordenar a linha cirúrgica do Hospital Central. Integrante do corpo clínico do Einstein, ele mantém atividades na unidade paulista enquanto acompanha a operação em Cuiabá.

O centro cirúrgico reúne dez salas convencionais e uma sala híbrida, preparada para procedimentos que combinam técnicas cirúrgicas tradicionais e intervenções realizadas por meio dos vasos sanguíneos. Ao todo, 25 especialidades atuam na estrutura, considerando também as equipes de apoio e retaguarda.

Reprodução/Assessoria

SALA DE CIRURGIA

Sala de cirurgia do Hospital Central.

Há equipamentos de neuronavegação, que auxiliam na localização de lesões em determinadas cirurgias neurológicas, e sistemas a laser utilizados em procedimentos urológicos. A unidade também dispõe de equipamentos avançados de circulação extracorpórea, capazes de substituir temporariamente funções do coração e dos pulmões durante determinadas cirurgias cardíacas.

A tecnologia, contudo, não está restrita às salas cirúrgicas. Nas unidades de terapia intensiva, o hospital passou a oferecer um tratamento até então indisponível em hospitais públicos de Mato Grosso: a hemodiálise contínua. 

São cinco equipamentos, três destinados à UTI Adulta e dois à UTI Pediátrica. A tecnologia permite substituir temporariamente parte das funções dos rins em pacientes com comprometimento renal grave.

Diferentemente da hemodiálise convencional, geralmente realizada em sessões de aproximadamente quatro horas, o tratamento contínuo pode se estender por até 72 horas. A retirada gradual de líquidos e toxinas é especialmente importante para pacientes em estado crítico, cujo organismo pode não tolerar alterações bruscas na circulação sanguínea e na pressão arterial.

CONHEÇA A HEMODIÁLISE CONTÍNUA

O coordenador médico da UTI Adulta, Eduardo Gomes, explica que a tecnologia amplia as possibilidades de assistência a pacientes cuja instabilidade clínica dificulta a realização do tratamento convencional.

"Quando você retira muito rápido sangue e toxinas do organismo, o estado de saúde do paciente grave pode piorar e, muitas vezes, é preciso interromper o tratamento. Com essa máquina, é possível fazer essa retirada de forma mais lenta e segura. Isso dá tempo para que os antibióticos façam efeito e para que a equipe consiga estabilizar o organismo do paciente, aumentando as chances de ele atravessar esse período crítico com mais segurança", esclarece.

A incorporação dos equipamentos exigiu treinamento técnico e capacitação das equipes, conduzidos pela fabricante e por especialistas do Einstein. Para Alessandra, a qualificação dos profissionais é tão importante quanto a aquisição das máquinas.

"Preparamos os profissionais para utilizar os novos equipamentos e, também, para aplicar protocolos e práticas assistenciais já adotados pelo Einstein. O objetivo foi padronizar o cuidado e garantir aos usuários do SUS de Mato Grosso o mesmo padrão de excelência assistencial que orienta a atuação da organização", afirma.

Reprodução/Assessoria

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O Hospital Central reúne equipamentos alta complexidade. 

Outra tecnologia que marcou o início das atividades do centro cirúrgico foi a plataforma robótica. O sistema permite ao médico realizar procedimentos minimamente invasivos com visão tridimensional e instrumentos que oferecem maior precisão de movimentos.

O robô, entretanto, não opera sozinho. O cirurgião permanece no comando, utilizando um console que controla os braços da plataforma. Ao lado do paciente, outros profissionais acompanham cada etapa do procedimento.

A tecnologia amplia as possibilidades de tratamento, mas não elimina os riscos inerentes a uma cirurgia. A segurança depende da avaliação individual do paciente, da preparação das equipes e do cumprimento dos protocolos assistenciais.

A SONHADA CIRURGIA

É na história de Mauri Aparecido dos Santos, de 62 anos, que a dimensão humana dessa transformação encontra um rosto. Morador de Tangará da Serra, a 241 quilômetros de Cuiabá, ele conviveu durante aproximadamente três anos com a expectativa de realizar uma cirurgia para tratar um câncer de próstata. O tempo até o tratamento foi marcado pela espera e pela incerteza.

Mauri entrou para a história do Hospital Central como o primeiro paciente da unidade a realizar uma cirurgia robótica pelo Sistema Único de Saúde, em 11 de fevereiro de 2026.

Reprodução/Arquivo pessoal

Mauri Aparecido dos Santos, Fernando Leão

Mauri Aparecido dos Santos, de 62 anos, e o urologista Fernando Leão.

O procedimento, uma prostatectomia radical, consistiu na retirada da próstata e foi conduzido pelo urologista Fernando Leão. Com o auxílio da plataforma robótica, o médico utilizou visão tridimensional e instrumentos que permitem movimentos mais precisos em uma região do corpo de difícil acesso.

Depois de anos aguardando a oportunidade, Mauri teve uma recuperação considerada surpreendente. Recebeu alta pouco tempo após a cirurgia, relatou não ter sentido dores durante o período de recuperação e, gradualmente, retomou a rotina e o convívio com a família.

Para quem esperou tanto pelo tratamento, o procedimento representou mais do que o acesso a uma tecnologia avançada. Significou a possibilidade de deixar para trás um período de incertezas e voltar a olhar para a vida cotidiana.

A lembrança daquele dia também ficou marcada para Alessandra Bokor. Enquanto profissionais e convidados acompanhavam o início de uma nova etapa da assistência pública em Mato Grosso, a diretora percebeu uma mulher chorando nas proximidades do auditório.

Ela aproximou-se para saber o que havia acontecido. As lágrimas, porém, não eram de tristeza. A mulher era esposa de Mauri e acabara de receber notícias do urologista sobre o resultado do procedimento.

Depois de explicar como havia transcorrido a cirurgia, Fernando Leão a abraçou. O gesto emocionou a mulher e permaneceu na memória da diretora.

A cena revelou uma dimensão que nenhum equipamento consegue traduzir sozinho: que o cuidado também acontece no acolhimento, na escuta e na segurança oferecida a quem acompanha um paciente durante um momento de fragilidade.

A história de Mauri ajuda a compreender que a transformação do Hospital Central não se resume à incorporação de tecnologias. Por trás de cada procedimento existe alguém que espera, uma família que acompanha e uma oportunidade de recuperar a saúde e reconstruir planos.

NÚMEROS QUE CONTAM HISTÓRIA

Entre janeiro e setembro de 2026, o Hospital Central registrou 35.035 atendimentos e 3.904 internações. No mesmo período, foram realizadas 8.241 consultas ambulatoriais, 19.287 exames de diagnóstico por imagem e 160.606 exames de análises clínicas e anatomia patológica.

A produção cirúrgica chegou a 2.199 procedimentos, incluindo mais de 70 cirurgias robóticas. A unidade também contabilizou 661 atendimentos de urgência regulados e 743 consultas de serviço social e odontologia.

Os números foram registrados durante a implantação gradual dos serviços. A unidade atingiu a maturidade de ocupação no final de julho e, em setembro, segundo mês de funcionamento pleno, apresentou taxa geral de ocupação de 75,78%. Nas UTIs, os índices chegaram a 91,9% na unidade adulta e 88,6% na pediátrica.

Camila Ribeiro/HNT

Hospital Central em Números 2026.png

 

Os dados dimensionam o alcance de uma estrutura que atravessou décadas de paralisação, exigiu a reformulação de seu projeto e mobilizou profissionais de diferentes áreas para finalmente abrir as portas à população.

Para Gilberto Figueiredo, a conclusão do hospital representa um dos capítulos mais desafiadores de sua trajetória na administração pública. Ao recordar o início dos atendimentos, o ex-secretário atribui à fé e ao esforço coletivo a superação das dificuldades.

“Não há nada mais gratificante do que ver a felicidade no rosto de um paciente quando tem seu sofrimento diminuído ou sua vida salva”, pontuou o ex-secretário.

 

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