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Polícia Quinta-feira, 05 de Novembro de 2026, 16:58 - A | A

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Quinta-feira, 05 de Novembro de 2026, 16h:58 - A | A

DA DENÚNCIA À PREVENÇÃO

Combate ao abuso sexual infantil une investigação policial, acolhimento e educação em Mato Grosso

Investigações contra redes de exploração sexual infantil e ações de prevenção nas escolas revelam os diferentes caminhos adotados por Mato Grosso no combate à violência contra crianças e adolescentes

BIANCA MORTELARO E MARYELLE CAMPOS
Da Redação

Arte HNT/André Paulino

Capa com urso.jpg.jpeg

Os abusos começaram dentro de casa quando ainda era criança. Aos quatro anos, Gabriel (nome fictício), natural de Guiratinga (a 328 km de Cuiabá), foi violentado sexualmente pela primeira vez por um tio. Dali em diante foram ao menos mais seis anos convivendo com a violência. O caso não chegou à polícia e permaneceu em segredo até sua vida adulta, quando Gabriel reuniu coragem para revelar os abusos à família. À época, ele tinha cerca de 22 anos de idade.

Segundo a  psicóloga Amanda Caroline Ferreira de Sousa, que atuou na Casa de Acolhimento em Várzea Grande por cerca de um ano e meio, casos como o de Gabriel deixam marcas emocionais profundas, capazes de acompanhar as vítimas ao longo dos anos e se manifestar de formas distintas na adolescência e na vida adulta. 

“O primeiro passo é acolher, ouvir com atenção e, acima de tudo, não julgar. É importante que a criança se sinta segura e tenha liberdade para falar no seu próprio tempo, sem ser pressionada a contar detalhes do que aconteceu. Também precisamos deixar claro que ela não teve culpa”, explica.

Gabriel não conseguiu se expressar à família e faz parte de um universo de casos que sequer chegam à polícia. Os abusos sofridos por Gabriel ajudam a compreender uma realidade que se repete no Brasil, onde grande parte dos casos ocorre dentro de casa, atingindo os mais vulneráveis: crianças e adolescentes. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostram que 63,3% dos casos de estupro e estupro de vulnerável registrados no Brasil em 2025 ocorreram em residências, do total de 61.076 vítimas no período.

Em Mato Grosso, o mesmo levantamento aponta que o estado ocupou a nona posição nacional na taxa de estupro de vulnerável, com 42,8 registros por 100 mil habitantes, empatando com o estado de Goiás. Em 2024, esse índice era de 53,2, o que representa uma queda de 19,5% em um ano. Pela legislação brasileira, o crime de estupro de vulnerável é configurado quando a vítima tem menos de 14 anos.

Em resposta à persistência da violência infantojuvenil, a segurança pública de Mato Grosso atua em três frentes para frear os índices. Depois que o abuso é identificado, o atendimento envolve desde a responsabilização criminal dos suspeitos, a proteção das vítimas e as iniciativas educativas que buscam prevenir e reconhecer os primeiros sinais de abuso.

Arquivo pessoal

psicóloga Amanda Caroline Ferreira de Sousa

Psicóloga Amanda Caroline Ferreira de Sousa.

Reconhecer esses sinais, no entanto, não é uma tarefa simples. Como descreve Amanda, cada criança reage de uma maneira e nem sempre as marcas da violência são evidentes.

“Algumas crianças ficam mais retraídas, outras apresentam irritabilidade, agressividade, mudanças repentinas de comportamento ou comportamentos sexualizados que não são esperados para a idade. Também podem surgir dificuldades para dormir, pesadelos e medo de ficar sozinhas”, diz.

Os sintomas, segundo a psicóloga, reforçam a importância não só do acolhimento familiar, mas também profissional.

Enquanto a identificação precoce pode ajudar a interromper a violência, as investigações policiais buscam responsabilizar os envolvidos e impedir que novos abusos ocorram. Um levantamento da Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso (PJC-MT) revela que 44 operações de combate à violência sexual infantil foram deflagradas no estado entre janeiro de 2025 e setembro de 2026.

Em meio ao reforço das ações, o estado apresentou uma redução de aproximadamente 19% nas ocorrências de estupro de vulnerável entre 2024 e 2025, quando os registros passaram de 1.983 para 1.601, conforme dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT).

A redução, porém, exige cautela, já que o silêncio das vítimas e a dificuldade de identificar os abusos podem levar à subnotificação dos casos. De acordo com a delegada Layssa Crisóstomo, da Polícia Civil de Sorriso (a 398 km de Cuiabá), esse tipo de crime exige tratamento especializado para não trazer mais sofrimento às vítimas.

“O crime de estupro, principalmente o estupro de vulnerável, geralmente ocorre na clandestinidade. Então, é um crime que geralmente a gente não vai ter prova testemunhal e não vai ter uma prova ocular”, pontua.

A gente não pode ficar tendo aquele contato, perguntando, questionando. A gente evita ao máximo essa revitimização

Layssa detalha que o relato da vítima é central para a investigação dos crimes de estupro de vulnerável. Apesar disso, o protocolo adotado não permite o contato direto dos policiais com as crianças e adolescentes.

“Por se tratarem de vítimas menores de idade, a gente não pode ficar tendo aquele contato, perguntando, questionando. A gente evita ao máximo essa revitimização. Então, de forma lúdica, a psicóloga conversa com elas e retira as informações necessárias”, detalha.

ENTRE O SILÊNCIO E A COMPREENSÃO

Gabriel, agora com 28 anos de idade, relata que durante os anos que sofreu abuso não tinha compreensão da violência sofrida. Ele recorda que, por não entender o que acontecia, também não sabia como procurar ajuda.

“Eu não tinha conhecimento, não sabia o que estava acontecendo. Não tinha racionalidade para entender o que estava se passando. Eu era muito novo, era uma criança”, conta.

A violência foi ser entendida anos depois, durante uma disciplina da Universidade em que cursava Educação Física. Foi estudando sobre as diferentes fases do desenvolvimento humano e conectando com suas próprias experiências que ele se deu conta da violência sofrida.

“Foi aí que eu compreendi que eu tinha quatro anos de idade. Que meu corpo não estava preparado pra receber aquela quantidade de hormônio que é liberado durante o sexo”, relembra.

O relato de Gabriel evidencia a importância do acesso à informação ainda na infância. Orientar crianças sobre os limites do próprio corpo, ajudá-las a reconhecer comportamentos abusivos e mostrar a quem podem recorrer são medidas que podem facilitar a identificação da violência e a busca por proteção, especialmente quando o agressor é alguém próximo.

Para a vítima, ter recebido essas orientações quando criança poderia ter mudado a maneira como compreendeu e lidou com o que sofreu.

“É de extrema importância você saber o que está acontecendo com você. Para mim, todas as pessoas deveriam ter esse conhecimento. Abuso sexual não é uma coisa boa, é uma coisa que deixa marcas, que deixa feridas. Então, quanto mais a gente trabalhar com a prevenção e com a orientação, isso pode ajudar muitas pessoas”, avalia.

É de extrema importância você saber o que está acontecendo com você. Para mim, todas as pessoas deveriam ter esse conhecimento

Após compreender sua vivência na infância, ele conseguiu compartilhar com a irmã o que tinha acontecido. Até então, nunca havia conversado abertamente com a família sobre o assunto. Gabriel conta que se sentiu acolhido e que, ao longo dos anos, encontrou na fé uma maneira de reconstruir sua autoestima.

“Eu sempre quis buscar o amor nas pessoas, achava que, para ser feliz, precisava de um relacionamento, de uma pessoa do meu lado. Com Cristo, aprendi que não preciso disso”, conta.

Atualmente, Gabriel trabalha como agente rodoviário e procura construir sua vida sem permitir que a violência sofrida na infância defina seu presente e futuro.

“Eu parei de buscar o amor nas pessoas e comecei a buscar o amor dEle. E fui entender que esse amor me faz sentir amado. Estou aqui para compartilhar a minha felicidade com outras pessoas. Ninguém tem a obrigação de me fazer feliz”, afirma.

Ao refletir sobre o passado, ele revela que a falta de informação foi um dos elementos que o fez permanecer em silêncio sobre a violência vivida. “Não iria denunciar uma coisa que eu não tinha noção”, diz.

PUER DEFENSUS: DESCOBERTA DE UMA REDE DE EXPLORAÇÃO SEXUAL

A dificuldade de reconhecer e denunciar os abusos, como ocorreu com Gabriel, é um dos obstáculos enfrentados pelas autoridades na identificação de violência contra crianças e adolescentes, principalmente quando os agressores fazem parte do convívio familiar. Além dos crimes praticados presencialmente, outra preocupação é a produção e a circulação de imagens de abuso sexual infantil, modalidade que tem apresentado crescimento no país.

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta um aumento de 25,3% nos casos de produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil, que somaram 4.063 ocorrências em 2025. No mesmo período, o aliciamento de crianças para fins libidinosos cresceu 12,4%, com 2.464 registros.

Diante do crescimento de casos de exploração, 44 operações de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes mobilizaram a Polícia Civil de Mato Grosso (PC-MT) entre janeiro de 2025 e setembro de 2026, resultando em 54 prisões em flagrante ou por mandado. As investigações alcançaram diferentes regiões do estado, incluindo Cuiabá, com nove operações e 14 detenções; Rondonópolis, com cinco operações e cinco presos; e Canarana, onde três ações resultaram em quatro prisões em flagrante.

Arte HNT/André Paulino

GRÁFICO OPERAÇÕES ABUSO MT

Entre as diligências realizadas está a Operação Puer Defensus, deflagrada em Sorriso, no norte de Mato Grosso, que revelou um suposto esquema de exploração sexual infantil. A suspeita de que suas duas filhas estavam sendo vítimas de abuso levou uma mãe à Delegacia Especializada de Defesa da Mulher e Vulneráveis, no fim de junho de 2026. A mulher relatou suas desconfianças à delegada Layssa Crisóstomo, responsável pela investigação, que diante da gravidade da situação, encaminhou ambas meninas para atendimento psicológico especializado.

Durante o acolhimento, as vítimas relataram que uma amiga da família, que já havia morado na mesma casa e cuidava delas enquanto a mãe trabalhava, fotografava elas sem roupa e utilizava brincadeiras para produzir as imagens. Uma das crianças também detalhou a violência sexual sofrida, após ser levada até um homem pela investigada.

“Quando essas meninas passaram pela psicóloga, foi constatado que elas eram submetidas a imagens nuas, que a suspeita fazia imagens dessas vítimas em posições inadequadas, tudo como uma forma de brincadeira. Foi muito importante elas relatarem, porque tiveram tranquilidade para contar os fatos à nossa psicóloga”, afirma Layssa.

Foi muito importante elas relatarem, porque tiveram tranquilidade para contar os fatos à nossa psicóloga

A amiga em questão foi identificada como Tafnes Cavalheiro de Souza, de 19 anos de idade, presa preventivamente desde junho em Sinop (480 km de Cuiabá). Embora tenha sido apresentada como babá em algumas notícias divulgadas na época, Layssa esclarece que a jovem era amiga da mãe das crianças e convivia no mesmo ambiente familiar, condição que permitia o contato com as meninas sem a supervisão de terceiros.

Apesar de inicialmente negar as acusações, a investigada acabou admitindo que produzia imagens das crianças e as enviava a um homem que pagava para receber os arquivos.

“Ela confessou, de fato, que fazia essas imagens das crianças e fornecia para um terceiro, que tudo isso era mediante pagamento. E que, inclusive, em duas oportunidades, ela levou uma das crianças para esse homem”, relata a delegada.

O homem que Tafnes menciona foi identificado como Fábio Serafim de Oliveira, empresário do setor de combustíveis em Sorriso. A análise do celular da investigada revelou conversas, vídeos e registros que, segundo a Polícia Civil, apontavam para a participação de Fábio.

A partir do conjunto de provas e relatos das vítimas, as equipes policiais solicitaram medidas judiciais, que resultaram na deflagração da Operação Puer Defensus, em julho, e na prisão preventiva do empresário. De acordo com a delegada, a esposa de Fábio, Verginia Locatelli, também produzia imagens de crianças durante encontros realizados na residência do casal.

Polícia Civil - MT

PUER DEFENSUS.jpeg

Com o avanço da investigação, os policiais conseguiram recuperar mensagens e arquivos que foram apagados dos aparelhos apreendidos, reunindo novos elementos sobre a participação atribuída à mulher. O conteúdo recuperado fundamentou um novo pedido de prisão preventiva, cumprido em agosto, em Guarapari, no Espírito Santo, com apoio da polícia local.

Entre as vítimas identificadas pelas investigações estão as duas filhas da mulher responsável pela primeira denúncia que culminou na Operação, o filho pequeno de Tafnes e mais uma menina, encontrada a partir das imagens apreendidas.

APÓS A DENÚNCIA, O ACOLHIMENTO

Quando uma criança ou adolescente relata o abuso, os órgãos de proteção avaliam quais medidas precisam ser adotadas para garantir sua segurança, sem que ela permaneça exposta ao agressor. Em Cuiabá, a conselheira tutelar Nyniva Siqueira da Costa Rocha, que atua há aproximadamente sete anos na região do Pedra 90, explica que o Conselho procura alternativas para impedir que a vítima continue submetida à violência.

“Primeiramente, a gente faz o máximo para deixar no convívio familiar. Então, vamos procurar uma família extensa, o parente mais próximo com quem a criança se sinta segura, alguém que acredite nela. Caso não encontre ninguém da família disposto a acolher essa criança, a gente não tem outra opção a não ser o acolhimento institucional”, aponta.

O afastamento da vítima do ambiente familiar, apesar de não ser a primeira alternativa, pode ser necessário diante da resistência dos responsáveis ou da impossibilidade de garantir a segurança da vítima. A medida de proteção pode ser adotada antes mesmo da conclusão da investigação, quando há risco para a criança ou adolescente.

“Acho que a nossa maior dificuldade é a falta de acolhimento familiar. Aquela criança passou por uma situação e precisa do acolhimento da família naquele momento, e muitas, infelizmente, não têm. Porque passar por isso já não é fácil, e não ter o apoio de quem tinha que cuidar de você é uma situação bem complicada”, relata a conselheira.

Na unidade do Conselho Tutelar em que Nyniva atua, foram atendidos 70 casos de abuso sexual infantil em 2024, outros 60 em 2025 e 40 apenas no primeiro semestre deste ano. Segundo a conselheira, a maioria das vítimas tem entre 10 e 12 anos. Os números, porém, refletem apenas uma parcela dessa realidade na capital, já que os atendimentos se concentram na região do Pedra 90, zona sul de Cuiabá. Ao todo, a capital conta com seis unidades.

Os dados no âmbito estadual também dimensionam o cenário de violência. Entre janeiro e setembro deste ano, Mato Grosso registrou 2.147 ocorrências de violência sexual envolvendo crianças e adolescentes de até 17 anos, segundo a Sesp-MT. As meninas representam a maioria das vítimas, com 1.837 casos, enquanto os meninos somam 310.

Entre os crimes de maior incidência estão o estupro de vulnerável, com 1.168 registros, a importunação sexual, com 502, e o estupro, com 228. Os dados também revelam que o local onde as vítimas estão mais expostas é a própria casa, concentrando 57,83% de todos os casos no estado nos últimos cinco anos (2021 - 2025).

Arte HNT/André Paulino

GRÁFICO LOCAL ABUSO VÍTIMAS

Diante de um abuso que pode ocorrer no ambiente familiar, garantir a proteção da vítima também significa evitar que ela precise reviver a violência ao buscar ajuda. Por isso, um dos cuidados realizados durante os atendimentos do Conselho Tutelar é evitar uma nova exposição da vítima.

“A gente não conversa com a criança aqui no Conselho para não revitimizar. Se ela já relatou uma vez, aquilo que relatou para a pessoa que veio trazer até a gente já está válido. A gente vai trabalhar em cima do que ela falou”, afirma.

O CONHECIMENTO COMO CAMINHO PARA A PREVENÇÃO

Além das operações e investigações de enfrentamento à exploração e abuso sexual infantil, a Polícia Civil de Mato Grosso também passou a desenvolver ações educativas para orientar crianças e adolescentes sobre violência, com atividades que abordam limites corporais, situações de risco e a importância de procurar ajuda.

Layssa Crisostomo

Seja Raio de Luz na Vida de uma Criança e um Adolescente

Desenvolvido pela Coordenadoria de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e Vulneráveis da Polícia Civil, em parceria com a Setasc, o projeto “Seja Raio de Luz na Vida de uma Criança e um Adolescente”, busca levar informações às escolas e comunidades, utilizando materiais adaptados às diferentes faixas etárias.

Em Sorriso, a delegada Layssa explica que as atividades quebram o formato tradicional de palestras e são desenvolvidas de forma lúdica, permitindo que crianças participem de brincadeiras e conversas sobre situações do cotidiano.

“Nós vamos para a escola e, de forma lúdica, brincando, ensinamos a essas crianças o que é violência sexual. Não é uma palestra em que eu só chego falando e eles ficam ouvindo. Eles brincam com a gente, participam, e a gente acaba tendo resultados muito positivos, porque aprendem ali e não esquecem mais”, diz.

Lançado em outubro de 2025, o projeto prevê atividades como palestras, rodas de conversa e ações educativas em escolas e outros espaços de convivência. A iniciativa teve sua atuação regulamentada por meio da Resolução nº 126/2026 do Conselho Superior de Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso em abril de 2026.

Os recursos incluem cartilhas educativas e o chamado semáforo do toque, ferramenta utilizada para ajudar crianças a reconhecer contatos físicos adequados e inadequados, compreender os limites do próprio corpo e identificar situações que devem ser comunicadas a um adulto de confiança.

Layssa Crisostomo

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Layssa conta que o objetivo do projeto é permitir que crianças reconheçam comportamentos abusivos que antes consideravam normais, inclusive quando praticados por familiares ou pessoas em que a vítima confia.

No momento em que a gente está palestrando, elas acabam se identificando, falando, opa peraí, aconteceu comigo

Os resultados das ações são instantâneas e muitos aparecem durante a palestra ou logo em seguida, quando as crianças reconhecem e aprendem a nomear a violência sofrida. Segundo a delegada, ao compreenderam que determinadas situações não são demonstrações de carinho, mas violência sexual, elas acabam relatando espontâneamente aos professores ou coordenadores.

“Muitas ali, no momento em que a gente está palestrando, elas acabam se identificando, falando, opa peraí, aconteceu comigo, mas eu não achava que era violência sexual”.

Além das atividades com crianças a partir dos seis anos, o projeto foi ampliado com a capacitação de professores da rede municipal, realizada pela Coordenadoria da Mulher. Conforme Layssa, os relatos espontâneos que surgem a partir dessas orientações ajudam a identificar possíveis casos de abuso e permitem que a rede de proteção adote medidas para afastar as vítimas de situações de risco.

A IMPORTÂNCIA DA ESCOLA NA PREVENÇÃO DE ABUSOS SEXUAIS INFANTIS

A aproximação entre escolas e órgãos de proteção também é defendida por Nyniva. A conselheira relata que parte das denúncias recebidas na região que atende chega por meio das escolas, tanto pela observação de mudanças de comportamento quanto pelos relatos espontâneos de crianças e adolescentes.

“A escola tem sido o lugar de onde a gente mais tem recebido essas demandas, seja uma suspeita, seja alguma coisa que um aluno relatou. As escolas estaduais agora têm equipes multidisciplinares, com assistente social e psicóloga, que dão esse suporte. As denúncias anônimas também têm contribuído bastante”, pondera.

Como conta Gabriel, o acesso à informações de prevenção e o conhecimento do próprio corpo durante a infância poderia ter permitido que compreendesse mais cedo a violência a qual foi submetido.

“Se isso for aplicado durante o período da escola, durante o período de aprendizado, eu acredito que ajuda muito. Porque aquelas crianças vão entender o que aconteceu, vão compreender por que aquilo é considerado um abuso sexual. Então, quanto mais conhecimento elas tiverem, mais vão abrir os olhos”, avalia.

A proteção da infância também envolve iniciativas de convivência comunitária e o acompanhamento social, ampliando o acesso à educação. Em Mato Grosso, essas ações são realizadas por meio do programa SER Família Criança, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (Setasc), que oferece atividades educativas, culturais e esportivas no contraturno escolar para crianças em situação de vulnerabilidade social. O programa conta com unidades em Poconé e Barra do Garças.

Inaugurado em março de 2026, o espaço de Barra do Garças recebeu investimento de R$5,4 milhões e tem capacidade para atender até mil crianças de quatro a 12 anos, com atividades como reforço escolar, música, dança e esportes. Embora não seja uma iniciativa específica de combate ao abuso sexual, a proposta busca fortalecer os vínculos familiares e comunitários e ampliar o acesso a espaços de convivência e proteção, complementando as ações de enfrentamento à violência desenvolvidas por outros órgãos do Estado.

ROMPER O SILÊNCIO TAMBÉM É UMA FORMA DE PROTEÇÃO

Não é raro os casos em que vítimas sentem vergonha, culpa, medo de ameaças ou julgamento e até o vínculo próximo com o abusador, condições que dificultam a denúncia e a busca por ajuda. Em muitos casos, a revelação só ocorre anos depois quando a vítima entende o que sofreu, como o de Gabriel, que foi abusado pelo irmão de seu pai.

Layssa descreve que a proximidade entre vítimas e autores da violência torna a denúncia especialmente difícil, sobretudo quando a criança depende emocionalmente da pessoa envolvida ou teme prejudicar a própria família.

“Muitas não denunciam por desconhecerem que são vítimas de violência sexual, porque muitas vezes aquilo é repetido, tratado como algo normal. E muitas porque têm medo, porque acabam tendo um sentimento por aquela pessoa, têm medo de estragar a família, de ela ser presa, ou então são ameaçadas”, explica.

As denúncias podem ser feitas em qualquer delegacia da Polícia Civil, inclusive nas unidades não especializadas, ou diretamente ao Conselho Tutelar do município. O Disque 100, serviço nacional gratuito de proteção aos direitos humanos, funciona 24 horas por dia e recebe denúncias de violência contra crianças e adolescentes, inclusive de forma anônima.

Em Mato Grosso, a Polícia Civil recebe denúncias pelo número 197 e também permite o registro eletrônico de ocorrências pela Delegacia Digital. Em situações de emergência ou risco imediato, disque 190 da Polícia Militar.

Não é necessário que o denunciante reúna provas ou tenha certeza de que houve abuso para comunicar uma suspeita. A investigação cabe às autoridades competentes, enquanto a proteção da criança deve ser priorizada desde o momento em que a situação chega ao conhecimento da rede.

Entender que elas não estão sozinhas, que existem pessoas ali para acolher, que vão entender e dar todo o suporte necessário

Gabriel só conseguiu reconhecer o abuso que sofreu na infância quando chegou à faculdade. Duas décadas depois, ressalta que a informação pode ajudar outras vítimas a compreender suas experiências e encontrar apoio.

“É muito importante para que as pessoas possam colocar para fora esse sentimento, essa angústia, e entender que elas não estão sozinhas, que existem pessoas ali para acolher, que vão entender e dar todo o suporte necessário. Quanto mais conhecimento as pessoas tiverem, mais elas vão compreender o que aconteceu e o que passaram”.

A trajetória de Gabriel mostra que a superação do trauma não significou apagar o que sofreu, mas ressignificá-lo. E foi se agarrando à fé que ele encontrou um caminho para se curar do que ficará marcado para sempre em sua memória.

“O que me mantém de pé até hoje, o que me faz querer viver, o que me faz acreditar na vida é Cristo”, diz.

Com a transmutação da dor em combustível para se reinventar, ele revela que deixou de buscar validação externa e passou a entender que sua espiritualidade lhe basta.

“Estou aqui para compartilhar a minha felicidade com outras pessoas. Ninguém tem a obrigação de me fazer feliz”, afirma.

É com essa fé que ele encontra força para seguir e continuar escrevendo a própria história.

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