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Justiça Segunda-feira, 20 de Abril de 2026, 09:43 - A | A

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Segunda-feira, 20 de Abril de 2026, 09h:43 - A | A

ASSÉDIO E ABUSO ESPIRITUAL

Ex-seminarista relata tortura psicológica e humilhações em denúncia contra padre em Barra do Garças

Relatos de ex-seminarista e ex-acólito revelam padrão de humilhações públicas e assédio; sacerdote, apelidado de "Coronel", segue em exercício pleno na Diocese

BIANCA MORTELARO
Da redação

Um ex-seminarista, em anonimato, encaminhou uma denúncia ao Núncio Apostólico do Brasil para investigar o padre Vandilson Pereira Sobrinho, de Barra do Garças (520 km de Cuiabá), por uma série de condutas que incluem abuso espiritual, assédio moral e violência psicológica. De acordo com o documento, além do denunciante, outros seminaristas, agentes pastorais e fiéis também teriam sido expostos a situações de constrangimento, intimidação e abuso de autoridade.

O denunciante afirma que, durante os 396 dias de convivência sob o mesmo teto que o sacerdote, teria sido submetido a um padrão sistemático de degradação humana e humilhações públicas. Ele afirma que “sempre teve problemas de insônia, dado a sua rotina de trabalho diurna, vespertina e noturna e, na madrugada, tinha no silêncio da noite para fazer suas atividades de estudos acadêmicos. Rotina esta que durou 14 anos. O padre, não compreendendo tal mudança de rotina, fazia questão de todos os dias acordar o seminarista aos gritos ou, em dias que estivesse com péssimo humor, batia na porta com toda força”, diz trecho da denúncia.

Além das agressões psicológicas, a denúncia apura um suposto crime de assédio contra um ex-acólito de 14 anos, que teria recebido pagamentos do clérigo para realizar massagens em seu corpo, fato corroborado por um áudio já entregue às autoridades. O impacto das ações do sacerdote sobre a saúde das vítimas teria sido severo, com o ex-seminarista, por exemplo, sendo internado em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) em Cuiabá e Ribeirãozinho devido a crises de hipertensão e febre emocional.

Segundo a denúncia, o padre Vandilson privava o seminarista de alimentação adequada, muitas vezes servindo primeiro seus cães e obrigando a vítima a utilizar utensílios contaminados pelos animais.

No âmbito jurídico, tais atos são analisados sob o artigo 146 do Código Penal, que tipifica o constrangimento ilegal, e o inquérito também solicita a busca e apreensão do Livro de Tombo da paróquia de Araguainha para evitar a supressão de documentos, crime previsto no artigo 305 do Código Penal, visto que páginas com relatos da vítima podem ter sido extraviadas.

A postura do sacerdote, frequentemente apelidado de "Coronel" e "Senhorzinho Malta" por fiéis devido ao seu autoritarismo, teria provocado um afastamento em massa das comunidades de Ponte Branca e Araguainha.

Entre os episódios citados, destaca-se o caso de um jovem com pensamentos suicidas que teve o atendimento interrompido pelo padre de forma impaciente, e a proibição de exéquias para um jovem falecido de 18 anos sob a alegação de que este não seria batizado.

Apesar da gravidade dos relatos e das provas materiais apresentadas, como laudos médicos e áudios, o padre Vandilson permanece em exercício pleno de suas funções após ser transferido para a sede da Diocese, tendo inclusive apresentado uma queixa-crime por calúnia contra o denunciante, o que é visto por especialistas como uma forma de retaliação.

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