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Artigos Terça-feira, 10 de Março de 2026, 16:53 - A | A

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Terça-feira, 10 de Março de 2026, 16h:53 - A | A

CAROL BISPO

Sobre reconhecer a mulher que você foi obrigada a esconder

CAROL BISPO

Março sempre chega acompanhado de flores, campanhas e homenagens, mas, para muitas mulheres, ele também traz à tona algo menos visível: as memórias de tudo o que precisaram adaptar para serem aceitas. Desde cedo, muitas meninas aprendem que existe uma forma “adequada” de existir, ditando a maneira correta de falar, sentar e sorrir. Elas aprendem que certas características precisam ser suavizadas, seja a personalidade muito intensa, a ambição muito evidente ou até mesmo o cabelo que, sob o olhar alheio, “dá trabalho”. Sem perceber, começamos a nos moldar, ignorando que toda adaptação tem um custo que o corpo não esquece. Dentro de muitas mulheres, existe alguém que foi, aos poucos, silenciada para caber em expectativas sociais nunca escolhidas; uma mulher possivelmente mais espontânea, que falava mais alto e ocupava espaços com menos medo.

Muitas vezes, um dos primeiros territórios desse controle foi a estética, onde o cabelo raramente é apenas uma questão visual. Ele carrega identidade, memória, pertencimento e as expectativas sobre como uma mulher deve se apresentar ao mundo. No Brasil, essa relação ganha ainda mais camadas devido à imensa diversidade capilar do país. Embora fios lisos, ondulados, cacheados e crespos convivam na mesma sociedade, nem sempre receberam o mesmo valor. Durante décadas, ensinou-se que determinadas texturas precisavam ser “domadas” ou transformadas para atingir um ideal de beleza aceitável. No entanto, os sinais de mudança já aparecem nos dados: em 2025 o Brasil ocupou a terceira posição mundial no consumo de produtos para tratamento capilar, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, segundo o artigo da editora Andrea Assef para o portal Valor Econômico, publicado em 20/10/2025.

Mais do que uma tendência de consumo, esse movimento reflete uma mudança cultural necessária, pois mulheres que passaram a vida escondendo seus fios agora buscam referências que reconheçam suas identidades. Contudo, a realidade brasileira segue complexa e o alisamento ainda é uma presença forte, escolhido por preferência, praticidade ou pressão social. A nuance fundamental aqui é que a verdadeira liberdade estética não reside em substituir um padrão por outro, mas na possibilidade genuína de escolha. Uma mulher que decide usar o cabelo natural deve ser tão respeitada quanto aquela que prefere alisar, pois o problema nunca foi a textura em si, mas as pressões externas que tentam definir o que é aceitável.

Essa discussão ganha profundidade quando entendemos que a forma como nos apresentamos comunica nossa personalidade e intenções. Quando uma mulher começa a se reconhecer na própria imagem, a mudança transcende a aparência: muda a postura, a forma de ocupar os espaços e a relação com o espelho. A autoestima duradoura nasce do reconhecimento genuíno de quem se é, um processo de reconciliação com a história pessoal e com características que foram escondidas por muito tempo. Assim, março pode ser mais do que homenagens simbólicas; pode ser um convite para refletir sobre quantas mulheres tentaram caber em moldes alheios.

Reconhecer a mulher que fomos ensinadas a esconder é um gesto de coragem que passa pela liberdade de usar o cabelo natural, pela liberdade de alisar se assim desejar e, acima de tudo, pela liberdade de existir sem pedir permissão. Nunca foi fácil ser mulher, mas um dos gestos mais transformadores acontece no cotidiano, quando o espelho deixa de ser um juiz para se tornar um aliado. Afinal, ser mulher não deveria significar viver em constante vigilância e adaptação, mas sim ter o espaço garantido para existir de forma inteira, legítima e sem precisar esconder a própria essência.

*CAROL BISPO é psicóloga, visagista, especialista em cabelos afros e cacheados e pesquisadora em saúde mental da população negra. Instagram: @carolbispovisagismo

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