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Artigos Segunda-feira, 09 de Março de 2026, 12:34 - A | A

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Segunda-feira, 09 de Março de 2026, 12h:34 - A | A

JOÃO EDISOM

Honestidade não é marketing

Não Roubar Não é Virtude: A Política Precisa de Verdade, Não de Slogans

JOÃO EDISOM

Há um empobrecimento preocupante no debate público quando a palavra honestidade é reduzida exclusivamente à ausência de corrupção financeira. Criou-se, no imaginário político, uma métrica mínima: se não houve roubo de dinheiro público, está preservada a virtude. Essa régua é baixa demais para sustentar uma democracia.

Honestidade nunca foi apenas questão contábil. Na tradição filosófica, trata-se de uma disposição moral permanente. Como ensinava Aristóteles, a virtude é hábito, prática reiterada do bem, coerência entre caráter e ação. Não se trata de um gesto isolado, mas de uma conduta contínua. Um agente público pode não ter cometido ilícito financeiro e, ainda assim, faltar gravemente com a honestidade ao manipular informações, distorcer fatos ou prometer o que sabe não poder cumprir.

A ética moderna reforça esse entendimento. Para Immanuel Kant, a mentira é sempre uma violação do dever moral, pois rompe o princípio universal da veracidade. Não há relativismo possível quando se trata da obrigação de dizer a verdade. A promessa feita apenas para conquistar votos, o ataque sabidamente falso contra adversários e a exploração calculada da desinformação são formas inequívocas de desonestidade — ainda que não apareçam em relatórios de tribunais de contas.

A psicologia social explica parte desse fenômeno. Leon Festinger demonstrou que indivíduos tendem a justificar incoerências entre discurso e prática para reduzir o desconforto interno. Quando lideranças proclamam valores elevados enquanto recorrem a estratégias baseadas na distorção da verdade, não apenas enganam o público: normalizam a hipocrisia como método político.

Do ponto de vista sociológico, o problema é ainda mais grave. Émile Durkheim advertia que a coesão social depende de um consenso moral mínimo. A confiança é o cimento invisível das instituições. Quando o debate público é tomado por meias-verdades, ataques levianos e campanhas de difamação, esse cimento se esfarela. A consequência é o descrédito generalizado e a democracia enfraquecida.

Na ciência política, a legitimidade do poder está vinculada não apenas à legalidade, mas à ética da responsabilidade. Max Weber lembrava que o exercício da política exige compromisso com as consequências dos próprios atos. Governar não é apenas administrar recursos; é preservar a integridade do espaço público. Quando a mentira se transforma em ferramenta estratégica, corrói-se o fundamento moral da autoridade.

É preciso dizer com clareza: mentira também é corrupção, é a corrupção da palavra, da confiança e do próprio sentido da política. Promessas feitas sem intenção de cumprimento são fraude moral. Ataques baseados em falsidades são violência simbólica. O uso deliberado da desinformação é atentado contra o eleitor e contra a inteligência coletiva.

Uma democracia madura não pode se satisfazer com padrões éticos mínimos. Exige mais do que a ausência de escândalos financeiros. Exige verdade, coerência, responsabilidade e respeito ao adversário. Honestidade não é slogan de campanha nem peça de marketing eleitoral; é compromisso diário com a sociedade.

Redefinir o debate público passa por recuperar o sentido pleno dessa palavra. Não basta não roubar. É preciso não mentir, não manipular, não prometer o impossível, não atacar com falsidades. A política só cumpre sua função quando a integridade deixa de ser estratégia e volta a ser princípio.

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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