A palavra do ano de 2026, segundo o The Guardian, foi rage bait. O termo define uma tática de manipulação cada vez mais presente nas redes sociais e amplamente utilizada por influenciadores e políticos na disputa por atenção, relevância e poder.
O funcionamento é simples e perverso. Conteúdos são produzidos de forma deliberada para provocar raiva. Não indignação reflexiva, mas raiva suficiente para levar o usuário a comentar, compartilhar e reagir impulsivamente. Para os algoritmos das plataformas, pouco
importa se a reação é positiva ou negativa. O que importa é o engajamento. Se um conteúdo retém a atenção, ele é considerado relevante e passa a ser distribuído de forma ampliada.
Esses conteúdos chegam tanto a quem se identifica quanto a quem repudia. De um lado, seguidores defendem. Do outro, críticos atacam. Nos comentários, instala-se um embate acalorado entre pontos de vista opostos. Para os algoritmos, esse conflito é sinal de sucesso. Quanto mais tempo as pessoas passam debatendo, mais aquele conteúdo circula.
Afinal, o objetivo central das redes sociais é manter o usuário dentro da plataforma pelo maior tempo possível.
Essa tática não é inofensiva. Ela tem sido explorada de maneira consciente por atores políticos em diversas partes do mundo. No Brasil, não é diferente.
Cada vez mais políticos recorrem intencionalmente a discursos radicais sobre temas sensíveis da sociedade. Opiniões extremas, muitas vezes beirando o desprezível, são lançadas não por ingenuidade, mas por estratégia. O cálculo é simples: gerar choque, provocar reações, inflamar ânimos. Mesmo a indignação pública se converte em combustível para alcance, visibilidade e crescimento político.
Em 2024, um candidato à Prefeitura de São Paulo afirmou abertamente, em entrevista a um podcast, que havia pago pessoas comuns para compartilhar seus vídeos. Segundo ele, os resultados foram modestos. O cenário mudou quando um desses vídeos continha uma fala polêmica, capaz de despertar forte rejeição. O conteúdo viralizou, gerou ódio, debates e ataques. O alcance foi exponencial. A partir daí, a tática passou a ser recorrente e seu crescimento nas redes sociais foi acelerado.
O rage bait, assim como as fake news e, muito provavelmente, as deepfakes geradas por inteligência artificial, traz relevância e poder aos medíocres. Ao mesmo tempo, afasta os bons do debate público. Cada clique, cada comentário indignado e cada compartilhamento
feito sem reflexão contribui para ampliar vozes que se sustentam no barulho, na simplificação e na manipulação. É urgente compreender que o engajamento irrefletido não é neutro. Ele fortalece os medíocres, ocupa espaços de poder e empobrece a democracia, enquanto silencia justamente quem poderia qualificar o debate.
(*) ROBERTA HERINGER é Estrategista de Marketing para perfis políticos e criadora do Estratégia Política Digital.
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