Nasci e cresci em Cuiabá. Como muitos cuiabanos da minha geração, guardo lembranças afetivas do Centro Histórico. Antes da chegada dos grandes shoppings, era ali que a vida acontecia.
No Calçadão, famílias faziam compras, encontravam amigos e movimentavam o comércio local. Lembro-me de acompanhar minha mãe pelas lojas tradicionais em busca de roupas, sapatos e artigos esportivos. Para nós, aquele era o nosso shopping.
Quem viveu aquela época certamente se recorda das vitrines cheias, das ruas movimentadas e da sensação de que o coração da cidade batia ali. Por isso, sempre que caminho pela região central, sinto uma mistura de nostalgia e preocupação.
Toda cidade possui um lugar que guarda sua memória. Em Cuiabá, esse lugar é o Centro Histórico. Ali está a alma da cidade. Ou pelo menos deveria estar.
Quem percorre hoje suas ruas encontra imóveis fechados, fachadas deterioradas, calçadas precárias e uma sensação crescente de abandono. O que deveria ser um dos principais cartões-postais de Cuiabá transformou-se, aos poucos, em uma região esquecida.
O problema não começou ontem nem pode ser atribuído a um único gestor. Trata-se de um processo acumulado ao longo de décadas, marcado pela falta de planejamento, de investimentos e de uma visão clara para a região.
Enquanto outras cidades compreenderam que preservar o patrimônio histórico também significa gerar emprego, atrair turistas e fortalecer a identidade local, Cuiabá continua tratando seu principal patrimônio urbano como questão secundária. O abandono do Centro não é apenas um problema arquitetônico. É um problema econômico, cultural e social.
Cada imóvel fechado representa atividade econômica perdida. Cada prédio deteriorado afasta visitantes, investidores e empreendedores que poderiam ajudar a revitalizar a região.
Uma cidade que abandona sua história dificilmente consegue construir seu futuro. E o mais paradoxal é que Cuiabá possui tudo o que precisa para transformar o Centro Histórico em uma das áreas mais vibrantes da cidade. Temos patrimônio arquitetônico, tradição cultural, gastronomia, religiosidade e uma história rica que poucas capitais brasileiras possuem.
O que falta é um projeto: uma estratégia capaz de reunir poder público, empresários, comerciantes e sociedade civil em torno de um objetivo comum. Não basta restaurar uma fachada ou reformar uma praça. É preciso pensar o Centro como um espaço vivo, onde as pessoas possam circular com segurança, empreender, consumir cultura e conviver.
As cidades que revitalizaram seus centros históricos compreenderam uma verdade simples: patrimônio preservado não é custo. É investimento. Investimento em turismo, em desenvolvimento econômico, em identidade e em qualidade de vida.
Por isso, a recuperação do Centro Histórico deveria ser uma prioridade estratégica para Cuiabá. Não apenas por respeito ao passado, mas por compromisso com o futuro. Mais do que recuperar prédios, precisamos recuperar o orgulho dos cuiabanos por sua própria história.
Como filho desta terra, não gostaria que as futuras gerações conhecessem o Centro Histórico apenas por fotografias antigas ou relatos de seus avós. Gostaria que pudessem caminhar por suas ruas, frequentar seus comércios e sentir o mesmo orgulho que muitos de nós sentimos um dia.
Porque preservar o Centro Histórico não é apenas conservar fachadas. É preservar a memória de quem fomos e a esperança de quem ainda podemos ser.
(*) RODRIGO DE ARRUDA SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
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