Em The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), o clássico distópico de Margaret Atwood, uma das figuras mais fascinantes e trágicas é Serena Joy. Antes da ascensão do regime teocrático de Gilead, Serena era uma palestrante eloquente, uma mulher de forte liderança que viajava o país defendendo o retorno aos "valores tradicionais" e a submissão feminina ao lar. Ela ajudou a pavimentar a estrada que criou o novo sistema. O preço de sua vitória? Assim que o regime se consolidou, os próprios homens que ela ajudou a empoderar retiraram dela o direito de ler, de escrever e de ter qualquer voz política. Serena foi silenciada pelas engrenagens que ela mesma lubrificou.
Qualquer semelhança com o recente e explosivo desabafo em vídeo de Michelle Bolsonaro não é mera coincidência literária. É a realidade imitando a arte da forma mais crua possível. O pronunciamento de Michelle expôs as vísceras do Partido Liberal (PL) e revelou um segredo que, na verdade, todo mundo já sabia: no topo da pirâmide do conservadorismo partidário, as mulheres são vistas como excelentes puxadoras de votos e ótimos escudos estéticos, mas continuam sumariamente proibidas de sentar à mesa onde o poder real é partilhado.
Os episódios narrados pela ex-primeira-dama parecem saídos diretamente de um roteiro de traição institucional. No Ceará, a vereadora Priscila Costa foi usada para limpar a imagem do candidato André Fernandes perante o eleitorado feminino. Uma vez cumprido o papel de "madrinha salvadora", sua prometida candidatura ao Senado foi rifada sem pudores. O motivo? O pragmatismo dos homens do partido exigia uma aliança com o grupo de Ciro Gomes, historicamente, o arqui-inimigo do próprio bolsonarismo. A ideologia cedeu ao fisiologismo; a mulher cedeu ao tabuleiro.
Em Santa Catarina, o cenário ganha contornos de ironia trágica. Michelle relatou as imensas barreiras para consolidar a candidatura de Caroline de Toni ao Senado. A ironia reside no fato de que de Toni é autora de um projeto de lei para abolir as cotas femininas nas eleições, sob a tese meritocrática de que o espaço feminino se conquista "naturalmente". Contudo, quando o "clube dos homens" do PL decidiu que a vaga ao Senado em SC deveria ser reservada para Carlos Bolsonaro e para acomodar velhos caciques, o "mérito" de Carol de Toni evaporou. Ela precisou do socorro político e do choro público de Michelle para não ser engolida pelo próprio sistema que defende.
Mas o ápice do "momento Serena Joy" veio no relato do conflito familiar e político com o senador Flávio Bolsonaro. Ao cobrar espaço e respeito pelas candidaturas femininas, Michelle ouviu do enteado uma frase que resume perfeitamente a hierarquia de Gilead: "Você chegou ontem e não entende nada de política".
A frase não é apenas um insulto pessoal; é um diagnóstico estrutural. Michelle Bolsonaro é a presidente do PL Mulher, a figura que viajou o país convertendo o eleitorado feminino e a principal força de engajamento da direita moderada. Ainda assim, para a dinastia que comanda a sigla, ela continua sendo apenas uma "intrusa" que deve se recolher à sua insignificância técnica quando os homens decidem os rumos do poder.
Quem diria que o conservadorismo engoliria a própria participação das mulheres na política? Atwood previu.
O que o desabafo de Michelle prova é que, no pragmatismo político da extrema-direita, o discurso de "valorização da mulher" é uma peça de ficção para consumo externo. Na hora em que o calo aperta, as lideranças femininas descobrem, da pior maneira possível, que o tapete vermelho estendido para elas na campanha é o mesmo que serve para amordaçá-las nos bastidores.
Gilead não é um futuro distante. Para as mulheres do PL, ela se parece muito com uma reunião de bancada numa terça-feira à tarde.
(*) ROBERTA HERINGER é estrategista digital para perfis políticos e criadora do Estratégia Política Digital.
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