Existe um momento em que a violência deixa de ser apenas uma ocorrência policial e passa a revelar uma questão mais profunda: a capacidade do Estado de responder a crimes que ultrapassam qualquer limite de humanidade.
Ao longo da minha trajetória na segurança pública, especialmente atuando em investigações de homicídios e crimes violentos, acompanhei de perto o sofrimento de vítimas e familiares. E uma coisa sempre ficou evidente: por trás de cada processo existe uma história que não aparece nos autos. Existe uma família destruída, uma vida interrompida e uma dor que permanece muito depois do encerramento de uma investigação.
Casos como a chacina de Sorriso, onde uma mãe e suas três filhas foram violentadas e assassinadas dentro de casa, e o episódio envolvendo uma adolescente de 13 anos na Baixada Fluminense, sequestrada e violentada após ser confundida com uma pessoa ligada a uma facção criminosa, revelam uma realidade que se repete: quando a violência ultrapassa todos os limites, a sociedade passa a questionar se a resposta do Estado está sendo proporcional à gravidade do que aconteceu.
Essa pergunta não nasce apenas da revolta. Ela nasce também da percepção de muitas pessoas de que existe uma distância entre a dimensão do dano causado às vítimas e a resposta entregue pelo sistema de Justiça. É importante afirmar: um Estado democrático precisa garantir direitos, respeitar o devido processo legal e assegurar que ninguém seja punido fora das regras estabelecidas. A Justiça não pode ser substituída pela vingança.
Mas também é preciso reconhecer outro lado desse debate: a vítima não pode ser a parte esquecida dentro do processo criminal.
Quando uma família perde alguém de forma violenta, ela não está acompanhando apenas um procedimento jurídico. Ela está tentando reconstruir uma vida que nunca mais será igual. E quando essa família percebe que o responsável pelo crime pode retornar ao convívio social antes que ela consiga compreender a ideia de justiça, cresce uma sensação de abandono.
É desse sentimento que nasce a percepção de impunidade.
Ignorar essa realidade é um erro. A sociedade precisa confiar que o Estado é capaz de investigar, julgar e responsabilizar quem pratica crimes graves. Quando essa confiança desaparece, surge um dos maiores riscos para qualquer democracia: a ideia de que cada pessoa deve buscar a própria justiça. E não existe sociedade segura quando o cidadão deixa de acreditar nas instituições.
O debate sobre segurança pública precisa superar uma falsa divisão entre punição e ressocialização. Um sistema penal eficiente precisa responsabilizar quem comete crimes graves, mas também precisa criar condições para impedir que novos crimes aconteçam.
Outros países que enfrentaram desafios semelhantes entenderam que segurança não depende de uma única medida. É necessário um sistema funcionando de forma integrada: investigação eficiente, julgamento em tempo adequado, cumprimento das decisões judiciais e um sistema prisional que não fortaleça o crime.
Ressocializar não pode significar ausência de consequência. E responsabilizar não pode significar abandonar a busca por uma sociedade com menos violência.
O Brasil precisa olhar para crimes brutais não apenas pelo impacto da notícia ou pela indignação do momento, mas pelo que eles revelam sobre nossas falhas.
A resposta não pode aparecer somente depois da tragédia. Ela precisa estar na prevenção, na eficiência das instituições e na construção de um sistema de Justiça que consiga proteger quem mais precisa dele: as vítimas.
(*) FREDERICO MURTA é delegado da Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso.
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